Mao, 50 anos após sua morte: herói nacional e legado polêmico que se distancia dos mais jovens

Meio século após sua morte, Mao Tsé-Tung permanece como símbolo fundador da China comunista. A nostalgia convive com o silêncio sobre as grandes tragédias de seu governo, enquanto o Partido Comunista mantém praticamente intacto o mito do líder que "ergueu" a nação.

9 set 2026 - 12h04
Resumo
Aos 50 anos de sua morte, Mao Tsé-Tung permanece como pilar da identidade nacional chinesa e símbolo de soberania, celebrado com nostalgia pelos mais velhos e visto à distância pelos jovens. Embora o Partido Comunista explore sua imagem para manter a legitimidade política, seu legado é contraditório: tragédias como o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural continuam sob forte censura oficial, impedindo um debate público aberto sobre os milhões de mortos e a violência de seu regime.

Cléa Broadhurst, correspondente da RFI em Pequim, e AFP

Mao Tsé-Tung morreu em 9 de setembro de 1976, mas seu retrato ainda domina a Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim. Sua imagem aparece nas cédulas de dinheiro e sua figura permanece profundamente associada à fundação da República Popular da China.

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Nesta quarta-feira (9), a cidade natal de Mao, Shaoshan, na província de Hunan, voltou a ser palco de homenagens para marcar os 50 anos de sua morte. Simpatizantes formaram filas diante de uma estátua de bronze de dez metros de altura, depositaram coroas de crisântemos e prestaram homenagem ao antigo dirigente.

Durante a noite anterior, quase mil pessoas participaram de uma cerimônia diante do monumento. Alguns vestiam as tradicionais túnicas associadas a Mao, enquanto outros exibiam retratos antigos e exemplares do chamado Livro Vermelho, a coletânea de citações do líder que se tornou onipresente durante a Revolução Cultural.

"Viva o presidente Mao!", gritavam os participantes, enquanto punhos eram erguidos e canções revolucionárias eram entoadas.

A memória dos mais velhos

Em Pequim, a lembrança de Mao também permanece viva entre os aposentados. Em parques da capital, grupos continuam entoando as chamadas "canções vermelhas", repertório revolucionário que marcou a infância e a juventude de milhões de chineses.

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Para Ding Yinan, uma das pessoas ouvidas pela RFI, essas canções representam uma ligação com a geração que viveu o período maoísta.

"Nós amamos a vida, nossa pátria, nosso Partido, nosso Exército, nosso povo e nossas belas paisagens", afirma.

Wang Liqun, nascido na década de 1960, também vê as canções como uma fonte de conforto. Ele diz que cantar durante o tempo livre lhe traz felicidade e dá sentido à sua vida de aposentado.

Para essa geração, Mao permanece sobretudo como o fundador da China popular, o dirigente que, segundo a narrativa oficial, devolveu soberania ao país depois de um século marcado por invasões e humilhações estrangeiras.

"Ele nos deixou tantas coisas. O presidente Mao permitiu que nossa nação se levantasse, libertou as massas trabalhadoras e o povo que sofria. Nós nos erguemos novamente", afirma Ding Yinan.

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Essa visão reproduz em grande medida a narrativa histórica construída pelo próprio Partido Comunista.

Mao Tsé-Tundo sorri e acena em 1969.
Mao Tsé-Tundo sorri e acena em 1969.
Foto: RFI

O mito e as tragédias

O problema é aquilo que fica fora dessa memória. A imagem heroica de Mao deixa em segundo plano episódios como o Grande Salto Adiante, campanha de industrialização lançada no final dos anos 1950 que contribuiu para uma das maiores fomes da história moderna, e a Revolução Cultural, iniciada em 1966 e marcada por perseguições políticas, expurgos, violência e enorme desorganização social.

A estimativa do número de mortos associados à fome do Grande Salto Adiante varia entre os historiadores. Há cifras que falam em 40 milhões de vítimas fatais, mas não é consensual. 

Para o sinólogo Jean-Philippe Béja, diretor de pesquisa emérito do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), Mao é uma figura profundamente contraditória.

"É um personagem complexo. Ele é, ao mesmo tempo, o Lênin e o Stálin da China popular", explica. Mao foi o fundador da República Popular, mas também responsável por acontecimentos que, segundo Béja, podem ser classificados como crimes, embora a historiografia oficial chinesa costume tratá-los como "deslizes".

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A Revolução Cultural, por exemplo, provocou uma década de turbulência política. Professores foram perseguidos e agredidos, livros foram destruídos e milhões de pessoas sofreram perseguições políticas.

Ainda assim, esses episódios permanecem muito menos presentes no espaço público chinês do que a narrativa fundadora de 1949.

"Quem ousa criticar Mao?"

A dificuldade de discutir publicamente o legado do dirigente permanece um dos aspectos centrais da memória de Mao na China contemporânea.

Em 1º de outubro de 1949, Mao proclamou em Pequim a fundação da República Popular da China. A cena tornou-se um dos momentos fundadores da história nacional e permanece profundamente ligada à legitimidade histórica do Partido Comunista.

Segundo Jean-Philippe Béja, criticar Mao publicamente na China atual pode trazer consequências graves. "Quem ousa criticar publicamente corre muitos riscos", afirma o pesquisador, mencionando inclusive possibilidades de prisão e desaparecimento.

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Um exemplo recente é o do artista Gao Zhen. Ele foi condenado recentemente a três anos de prisão por trabalhos que caricaturavam Mao. Entre as obras estavam representações do antigo líder como mulher e outra em que ele aparecia ajoelhado, pedindo perdão.

O caso demonstra que, meio século depois da morte do dirigente, os limites para questionar sua imagem continuam estreitos.

Chinês Mao Tse-Tung recebe Henry Kissinger em Pequim, em 21 de outubro de 1975.
Foto: RFI

Uma figura mais distante para os jovens

A relação das gerações mais jovens com Mao, entretanto, é diferente. Para muitos jovens chineses, o dirigente está mais distante no tempo e aparece sobretudo como uma figura histórica. Isso não significa, necessariamente, rejeição.

Um jovem entrevistado pela RFI afirma considerar Mao "um grande homem" e o fundador da "nova China". Segundo ele, embora os tempos tenham mudado, as ideias deixadas pelo dirigente ainda podem servir como referência para enfrentar situações futuras.

A relação entre memória histórica e identidade nacional aparece também em Shaoshan, transformada pelas autoridades em um importante destino de "turismo vermelho".

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Mao nasceu na cidade em dezembro de 1893. Hoje, sua memória é parte da economia turística local, alimentada por museus, monumentos e cerimônias que transformam a história revolucionária em patrimônio político.

Mao como símbolo do Partido

O paradoxo é que o próprio Partido Comunista precisa administrar uma herança contraditória. As autoridades chinesas reconheceram oficialmente que houve graves erros durante o período maoísta. Ao mesmo tempo, Mao continua apresentado como um grande revolucionário e como fundador da República Popular.

Seu legado, portanto, não pode ser simplesmente descartado sem colocar em questão parte da narrativa de legitimidade do próprio Partido.

É essa tensão que explica, em parte, a permanência de Mao como figura tutelar: seu governo pode ser reconhecido como responsável por tragédias históricas, mas sua imagem continua ligada à soberania nacional, à unidade do país e à fundação do Estado chinês contemporâneo.

A nostalgia em tempos de desaceleração

A homenagem aos 50 anos da morte de Mao ocorre ainda em um contexto de desaceleração econômica chinesa. Segundo a reportagem da AFP, a nostalgia por alguns dos ideais igualitários associados ao período maoísta voltou a ganhar espaço entre determinados setores da população.

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Isso não significa necessariamente um desejo de retorno ao maoísmo. A nostalgia pode expressar, também, uma reação às desigualdades e às incertezas econômicas contemporâneas.

Em Shaoshan, porém, a homenagem é explícita: retratos, flores, canções revolucionárias, uniformes inspirados no antigo líder e exemplares do Livro Vermelho transformam Mao novamente em protagonista de uma cerimônia pública.

Cinquenta anos depois de sua morte, seu rosto continua na Praça Tiananmen. Sua imagem ainda circula pelo cotidiano chinês, inclusive em amuletos pendurados nos retrovisores de táxis. E seu nome continua associado à ideia de uma China que se levantou diante das potências estrangeiras.

O legado histórico de Mao permanece, assim, dividido entre duas narrativas que coexistem, mas raramente podem ser confrontadas em condições de igualdade: de um lado, o fundador da China moderna; de outro, o dirigente responsável por políticas que provocaram fome, perseguição e violência em escala gigantesca.

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Na China de 2026, meio século depois de sua morte, a primeira imagem continua sendo oficialmente celebrada. A segunda permanece difícil de discutir abertamente.

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