A viagem de Marco Rubio à Colômbia, Equador e Peru reforça a estratégia dos EUA sob Donald Trump de expandir o controle sobre a América Latina e cercar o Brasil. Com a aliança militar Escudo das Américas, Washington busca retomar influência e conter a presença chinesa na região. Governado pela esquerda, o Brasil é visto como o último foco de resistência a essa nova Doutrina Monroe, tornando-se alvo crucial devido ao seu peso econômico e a seus abundantes recursos naturais e energéticos.
A visita de Rubio aos três países, que começou na terça-feira (8) pela Colômbia, acontece no momento em que Donald Trump gerou um novo mal-estar diplomático ao publicar um mapa-múndi com diversas nações sob a bandeira dos Estados Unidos, incluindo o Brasil e a América Latina.
Para Jean-Jacques Kourliandsky, isso "não é coincidência", mas sim um movimento do presidente norte-americano para reforçar seu plano de domínio sobre o continente, "principalmente depois da criação do Escudo das Américas", aliança militar lançada por Trump em março, durante a cúpula inaugural em Miami.
"Essa aliança visa combater melhor o narcotráfico e a imigração ilegal, colocando os países latino-americanos que a ela aderiram sob a tutela dos Estados Unidos nessa luta (...) O novo mapa dos Estados Unidos, publicado por Trump, que também inclui o México e Cuba, envia uma mensagem clara nesse contexto. É também uma resposta à decisão das Nações Unidas de reduzir a dimensão geográfica dos Estados Unidos no novo mapa-múndi. Tudo isso está, de fato, interligado", explica.
Após a criação do Escudo das Américas, que reúne países liderados por políticos de direita alinhados a Washington, o Brasil se viu cada vez mais isolado diante do avanço dos EUA. Kourliandsky explica que o país, comandado pelo governo Lula, de esquerda, "é o último na região a se opor à nova fórmula de Trump inspirada na Doutrina Monroe", lançada pelo presidente norte-americano James Monroe em 1823, com ideais expansionistas.
"O Brasil está sendo gradualmente 'cercado' por países subservientes aos Estados Unidos, membros do Escudo das Américas e, portanto, a priori, hostis a Brasília. Essa hostilidade foi demonstrada recentemente pela visita do presidente argentino Javier Milei ao Brasil, que, contrariando o protocolo internacional, não visitou seu homólogo Lula. Em vez disso, participou de um comício em apoio ao seu adversário nas eleições de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro, lançando um ataque contundente contra o presidente Lula", avalia odiretor do Observatório da América Latina e do Caribe.
"Portanto, a ida de Marco Rubio a Colômbia, Equador e Peru é uma visita aos países que estão 'cercando' o Brasil", sublinha Jean-Jacques Kourliandsky.
De olho nas eleições
Esta turnê do secretário de Estado dos EUA também coincide com a campanha eleitoral no Brasil, "uma questão crucial para os Estados Unidos", devido ao peso que a economia brasileira tem no cenário latino-americano, somado aos seus recursos naturais.
"Este é o elemento-chave que permitiria o controle absoluto (dos EUA) sobre a América Latina. O Brasil é a maior economia da região. Possui recursos energéticos particularmente significativos, especialmente petróleo. O Brasil é provavelmente o maior exportador agrícola do mundo e também possui minerais de terras raras".
"Esses são os fundamentos da 'Doutrina Donroe', o que explica por que o Brasil é de fato um alvo de Donald Trump. É um alvo ainda maior devido ao seu peso econômico e demográfico. Isso pode ter um efeito cascata ou gerar resistência a essa doutrina no continente americano e até mesmo além dele", detalha Jean-Jacques Kourliandsky.
Influência militar e econômica
Trump just posted a map showing Canada, Greenland, and Mexico as part of the United States.
He's f*king insane. pic.twitter.com/3XUWy4IJfv
— Republicans against Trump (@RpsAgainstTrump) September 7, 2026
A primeira etapa da viagem de Marco Rubio começou na terça-feira pela Colômbia, onde se encontrou com o novo presidente colombiano, o direitista Abelardo de la Espriella. Após o encontro, o secretário de Estado dos EUA celebrou o início de uma "nova etapa de cooperação" sem "precedentes".
De la Espriella, por sua vez, reiterou seu desejo de que a Colômbia volte a se consolidar como "o principal parceiro de segurança hemisférica dos Estados Unidos". Rubio também visitará o Equador e o Peru, também governados por líderes alinhados a Trump.
"A Colômbia tem sido uma aliada tradicional dos Estados Unidos por um século. Apesar do breve interlúdio do presidente de esquerda Gustavo Petro, de 2022 a 2026, o país sempre foi um aliado fiel de Washington na luta contra as drogas e é um dos países que mantêm relações econômicas privilegiadas com os Estados Unidos. Portanto, o objetivo é reconstruir o que, da perspectiva da Casa Branca, foi um mero parêntese: a presidência de Petro", analisa Kourliandsky.
Para Equador e Peru, odiretor do Observatório da América Latina avalia que as pretensões dos EUA são semelhantes, com peculiaridades de cada região, com o objetivo de fazer com que os recursos estratégicos dos países do continente "sirvam aos interesses dos Estados Unidos", aspecto relevante da Doutrina Donroe.
"O Equador possui significativa importância geoestratégica para os norte-americanos. Além dos desafios da imigração para os EUA, o país se tornou um relevante ator no narcotráfico, que passa por seus portos, particularmente Guayaquil, por onde o Equador exporta suas bananas. Durante vários anos, houve uma base militar norte-americana em Manta, na costa do Pacífico, que Rafael Correa (ex-presidente) fechou. Portanto, é provável que também haja demandas para os EUA recuperarem essabase naval".
O objetivo seria manter a influência militar norte-americana sobre a região, o que permitiria um controle mais rígido sobre toda a América do Sul, incluindo o Brasil, explica o diretor do Observatório.
"O Peru apresenta o problema da presença chinesa (...) Há alguns meses, um importante porto, um grande centro de redistribuição de contêineres, foi inaugurado em Chancay, na costa do Pacífico, ao norte de Lima, pelo presidente chinês (Xi Jinping) e autoridades peruanas. O objetivo é facilitar as importações e exportações chinesas para o continente, com redistribuição para o norte, em direção à Colômbia e ao Panamá, e para o sul, em direção ao Chile, com a perspectiva de criação de novas rotas marítimas. Isso, é claro, não agrada a Washington", conclui Kourliandsky.
RFI com AFP