Itamaraty define momento da relação com a Argentina como 'época estranha' e envia recado a Milei

Por ocasião do Dia da Independência, o encarregado de negócios da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, Eduardo Uziel, fez um discurso coordenado com o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, atualmente chamado a consultas em Brasília, e com o chanceler Mauro Vieira. A fala foi repleta de indiretas, críticas sutis e alusões ao presidente argentino, Javier Milei, e à sua política agressiva contra o presidente Lula e as instituições brasileiras.

8 set 2026 - 07h46
Resumo
O encarregado de negócios do Brasil na Argentina, Eduardo Uziel, classificou a atual crise bilateral como uma "época estranha", criticando a postura do presidente Javier Milei como "míope" e "mesquinha". A tensão diplomática escalou após ofensas de Milei a Lula, o que levou o Itamaraty a rebaixar o nível da representação em Buenos Aires. Uziel defendeu que a aliança histórica e estratégica entre os dois países deve superar divergências ideológicas passageiras, apesar do boicote argentino ao evento.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Cerimônia em comemoração ao Dia da Independência do Brasil no Teatro Colón, em Buenos Aires, em 7 de setembro de 2026.
Cerimônia em comemoração ao Dia da Independência do Brasil no Teatro Colón, em Buenos Aires, em 7 de setembro de 2026.
Foto: © RFI/Márcio Resende / RFI

Há mais de um mês sem embaixador do Brasil na Argentina, o encarregado de negócios Eduardo Uziel classificou a atual situação diplomática entre os dois países como "uma época estranha", aludiu à visão do atual presidente argentino sobre a amizade entre Brasil e Argentina como "mesquinha" ou "míope", defendeu que a relação bilateral fique acima de "desinteligências" e que a política de Estado seja sempre por "convicção", ao contrário da conveniência ideológica.

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"No ano passado, neste mesmo cenário, o embaixador Bitelli citou o verso do escritor [Jorge Luis] Borges no qual diz que 'nos coube, em sorte, uma época estranha'. Ninguém, então, poderia imaginar que a nossa época ficaria ainda mais estranha", disse Eduardo Uziel na introdução de sua fala.

O discurso de três minutos aconteceu na noite de segunda-feira (7), por ocasião das celebrações do Dia da Independência do Brasil, em cerimônia realizada no emblemático Teatro Colón de Buenos Aires, referência erudita no mundo, que acolheu um espetáculo do mestre Paulinho da Viola, em grande apresentação.

"Forjamos uma relação profunda, estratégica e mutuamente beneficiosa que devemos cultivar e fortalecer constantemente para além de circunstanciais diferenças ou desinteligências", defendeu Uziel ao mesmo tempo que cutucava com um texto prolixo, porém diplomaticamente crítico.

"Uma amizade que independe dos governos e que é maior do que qualquer fantasia ou mapa bicolor", disse o diplomata brasileiro num trecho que parecia aludir à imaginação do presidente Milei de que o mapa político do Brasil mudará de cor, numa pretendida interferência no processo eleitoral brasileiro.

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"[Uma amizade] mais forte do que qualquer mesquinharia ou temporária miopia", completou Uziel, que entrará para a história entre o Brasil e a Argentina como o representante interino da principal relação bilateral brasileira.

Redução da relação bilateral

Em 26 de julho, o embaixador Bitelli foi chamado para consultas em Brasília depois que, no dia anterior, o presidente argentino, Javier Milei, insultou o presidente Lula, chamando-o de "ladrão", "corrupto" e "presidiário" durante o lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro em São Paulo. Não há precedentes de um presidente atacar outro no território do país vizinho.

Os ataques incluíram o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, denominado por Milei como "lixo calvo" por não ter autorizado o presidente argentino a visitar Jair Bolsonaro na prisão domiciliar, onde cumpre sentença de 27 anos por tentativa de golpe de Estado.

Milei proferiu os insultos ao lado do ministro das Relações Exteriores da Argentina, o chanceler Pablo Quirno, que aplaudiu e incentivou cada palavra do dirigente.

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Em 4 de agosto, depois de Milei ter repetido as agressões contra o presidente Lula, o chanceler Mauro Vieira reduziu o nível da relação diplomática com a Argentina, mantendo o embaixador Bitelli em Brasília e deixando a Embaixada do Brasil em Buenos Aires ao nível de encarregado de negócios. O mesmo aconteceu do lado argentino em Brasília.

Respeito pelo vizinho

Buenos Aires e Washington são os dois postos diplomáticos mais importantes do Brasil no mundo. Brasil e Argentina formam o eixo da integração regional, plataforma por excelência da projeção diplomática brasileira no cenário global. Pelo menos, até Milei chegar ao poder, em dezembro de 2023.

"O nosso Dia da Independência é uma ocasião para recordarmos como o Brasil, há 204 anos, tornou-se uma nação soberana com profundo respeito por todos os demais países do mundo, começando pelos seus vizinhos", apontou Uziel, em clara diferenciação com a Argentina de Milei, que frequentemente desrespeita países historicamente aliados quando governados pela esquerda, a começar pelo Brasil, seu principal vizinho e parceiro comercial.

Política de Estado por convicção

Por último, em tempos em que Milei faz um giro em sua política exterior em relação à disputa pela soberania das ilhas Malvinas, passando de uma estratégia de cooperação com o Reino Unido para uma postura de confrontação, o Brasil recorda que, invariavelmente, desde que o arquipélago foi ocupado pelos ingleses, a posição brasileira foi de apoio à Argentina, diferentemente de outros aliados circunstanciais de Milei por ideologia ou subserviência.

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"Quiçá, o exemplo mais perene desta amizade seja o apoio brasileiro invariável desde 1833 à soberania argentina sobre as ilhas Malvinas. Política de Estado sempre por convicção", concluiu o representante brasileiro interino.

O evento do Dia da Independência do Brasil em Buenos Aires foi propositalmente esvaziado pelo governo argentino. Ao contrário do que ocorreu nas últimas décadas, quando sobretudo ministros e secretários, mas também juízes e legisladores, faziam fila para participar, nenhum membro do governo argentino foi ao evento, embora tenham sido convidados.

A presença de algum ministro de Milei, especialmente se fosse o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, teria ajudado a pavimentar aquilo que o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, indicou como "um sinal do governo argentino para retomar a relação". O sinal ficará adiado para depois das eleições, a depender do resultado.

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