Estudantes de diversas universidades do Irã realizaram neste fim de semana protestos contra o governo — as primeiras manifestações desse tipo e escala desde a violenta repressão das autoridades no mês passado.
A BBC confirmou a veracidade de imagens de manifestantes marchando no campus da Universidade de Tecnologia Sharif, na capital, Teerã, no sábado (21/2). Confrontos entre estudantes e apoiadores do governo também foram registrados.
Um protesto pacífico ocorreu em outra universidade de Teerã, e uma manifestação foi relatada no nordeste do país. Os estudantes homenageavam os milhares de mortos nos protestos em massa de janeiro.
Os Estados Unidos têm reforçado sua presença militar perto do Irã. O presidente americano, Donald Trump, já afirmou que está considerando um ataque militar limitado.
Alta tensão
Os EUA e seus aliados europeus suspeitam que o Irã esteja desenvolvendo armas nucleares, algo que o Irã sempre negou.
Autoridades americanas e iranianas se reuniram na Suíça na terça-feira (17/2) e afirmaram que houve progresso nas negociações destinadas a conter o programa nuclear iraniano.
No entanto, apesar do progresso relatado, Trump declarou que o mundo saberia "provavelmente nos próximos 10 dias" se um acordo com o Irã seria alcançado ou se os EUA tomariam medidas militares.
O líder americano chegou a demonstrar apoio aos manifestantes no mês passado, dizendo que "ajuda está a caminho".
Imagens verificadas pela BBC mostram centenas de manifestantes, muitos carregando bandeiras iranianas, marchando pacificamente no campus da Universidade de Tecnologia Sharif no início do novo semestre, no sábado.
A multidão entoava cânticos como "Morte ao ditador", em referência ao Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, e outros slogans contra o governo.
Vídeos mostram apoiadores de uma manifestação rival pró-governo nas proximidades. Os dois lados acabaram entrando em confronto.
Fotos verificadas pela BBC também mostram um protesto pacífico na Universidade Shahid Beheshti, na capital.
A BBC também verificou imagens de outra universidade de Teerã, a Universidade de Tecnologia Amir Kabir, mostrando slogans contra o governo. Em Mashhad, a segunda maior cidade do Irã, no nordeste do país, estudantes teriam cantado "Liberdade, liberdade" e "Estudantes, gritem, gritem por seus direitos".
Grandes manifestações também foram relatadas em outros locais no sábado, com chamadas para novos protestos neste domingo.
Não está claro se algum manifestante foi preso.
Os protestos de janeiro começaram com reclamações sobre a situação econômica atual do Irã e rapidamente se transformaram nas maiores manifestações populares desde a Revolução Islâmica de 1979.
A agência de notícias Human Rights Activists News Agency (HRANA), sediada nos EUA, afirmou ter confirmado a morte de pelo menos 7.015 pessoas durante essa onda de protestos, incluindo 6.508 manifestantes, 226 crianças e 214 pessoas ligadas ao governo. Os dados mais recentes foram atualizados em 15 de fevereiro.
A HRNA também informou estar investigando outras 11.744 mortes relatadas.
Já as autoridades iranianas declararam no final do mês passado que mais de 3,1 mil pessoas morreram, mas que a maioria eram membros das forças de segurança ou civis atacados por "manifestantes violentos".
Os protestos de sábado ocorrem enquanto as autoridades iranianas se preparam para uma possível guerra com os EUA.
A oposição exilada está pressionando Trump a cumprir suas ameaças e lançar um ataque, na esperança de um colapso rápido do atual governo linha-dura.
No entanto, outros grupos de oposição se opõem à intervenção estrangeira.
Ambos os lados em conflito têm se engajado em campanhas de desinformação nas redes sociais, tentando amplificar suas narrativas conflitantes sobre os desejos do povo iraniano.
Reportagem adicional de Ghoncheh Habibiazad, da BBC Persian, e Richard Irvine-Brown e Shayan Sardarizadeh, da BBC Verify.