Líbano vai à negociação com Israel com poucas esperanças, exceto a de estancar derramamento de sangue

10 abr 2026 - 14h02

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, tem pedido conversações diretas históricas com Israel, ‌seu inimigo de longa data, desde que a guerra estourou há um mês -- um mês em que os militares de Israel forçaram mais de um milhão de libaneses a deixar suas moradias, arrasaram partes de Beirute e provocaram atritos sectários.

Agora que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, finalmente atendeu ao pedido para conversar sobre a paz, o Líbano está em sua posição mais fraca para cumpri-la, segundo especialistas.

Publicidade

O grupo armado Hezbollah, que está envolvido em confrontos com as tropas israelenses invasoras no sul do Líbano, se opõe às negociações diretas -- colocando em dúvida se ele cumpriria qualquer cessar-fogo acordado pelo país.

"As conversações que ocorrerão entre ⁠o Líbano e Israel são francamente inúteis, porque aqueles que as conduzem em nome do Líbano não têm influência para negociar", disse à Reuters uma autoridade libanesa próxima ‌ao grupo, sob condição de anonimato.

MAIS DE 300 MORTOS EM UM DIA DE ATAQUES

Israel intensificou os ataques aéreos ao Líbano depois que o Hezbollah disparou mísseis contra o país em 2 de março, três dias após o início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Desde então, o país ampliou ‌a ofensiva terrestre.

Publicidade

Os muçulmanos xiitas, a comunidade da qual o Hezbollah obtém seu apoio e que ‌tem sofrido o impacto dos ataques de Israel, disseram à Reuters que têm pouca fé em um Estado que consideram incapaz de defendê-los.

As instruções ⁠de Netanyahu para que seu gabinete se prepare para negociações diretas foram dadas um dia depois que os ataques israelenses em todo o Líbano mataram mais de 300 pessoas, um dos dias mais sangrentos para o Líbano desde o fim da guerra civil em 1990. As equipes de resgate ainda estavam retirando nesta sexta-feira corpos mutilados dos destroços de edifícios pulverizados, enquanto famílias realizavam funerais em todo o Líbano.

O bombardeio israelense destruiu infraestrutura pública no sul do Líbano e matou várias forças de segurança do Estado libanês nesta sexta-feira.

"A brutalidade de Israel não faz distinção entre um civil e outro, nem entre muçulmanos e cristãos, neste ‌país. Todos nós devemos nos unir para enfrentar essa barbaridade e essa agressão", disse Hassan Saleh, um libanês que participava de um funeral na cidade de Tiro, no ‌sul do país.

POSIÇÃO DO ESTADO SE DETERIORA

Publicidade

Muitos libaneses, ⁠incluindo duas autoridades que falaram com a ⁠Reuters sob condição de anonimato, disseram que viam a aceitação tardia de Netanyahu de conversações como uma folha de figueira, com o objetivo de gerar boa vontade em Washington, ⁠uma vez que os EUA iniciam conversações com o Irã neste fim de semana, enquanto, em ‌última análise, mantém a guerra no Líbano.

"Só porque Israel ‌concordou em negociar conosco não significa que será fácil. O problema é que não temos outra opção", disse Abril Boumonsef, editor-chefe adjunto do jornal Annahar do Líbano.

Historicamente, o Estado libanês tem sido fraco, prejudicado pela corrupção, por um sistema sectário de compartilhamento de poder que frequentemente entra em impasse e por ciclos de lutas internas e guerras entre o Hezbollah e Israel.

Os libaneses têm repetido o refrão "não há Estado" há décadas, mas as ⁠crises recentes degradaram ainda mais a posição do governo.

O sistema financeiro do Líbano entrou em colapso em 2019 e uma explosão química em 2020 no porto de Beirute matou mais de 200 pessoas. Ninguém foi responsabilizado por nenhuma delas.

Publicidade

Em setembro de 2024, uma pesquisa do Barômetro Árabe constatou que 76% dos libaneses não confiavam em seu governo.

No mês seguinte, Israel enviou tropas para o Líbano e intensificou sua campanha de bombardeio após um ano de troca de tiros com o Hezbollah. Mais de 3.700 pessoas foram mortas no Líbano.

UMA CASA DIVIDIDA

Mesmo após um ‌cessar-fogo mediado pelos EUA em novembro de 2024, Israel manteve as tropas no Líbano e continuou seus ataques contra o que dizia ser a infraestrutura do Hezbollah. Aqueles que retornaram às cidades destruídas do sul do Líbano gastaram suas próprias economias para reconstruir suas casas sem a ajuda do Estado.

Outros milhares ⁠que não puderam voltar para casa disseram que seu próprio governo era culpado por não ter conseguido garantir a retirada de Israel por meio da diplomacia.

Publicidade

Enquanto isso, os EUA e Israel culparam o Estado e o Exército libanês por não terem cumprido a promessa do acordo de cessar-fogo de 2024 de despojar totalmente o Hezbollah de seu arsenal.

Autoridades libanesas disseram que desarmar o Hezbollah pela força provocaria conflitos civis e que as negociações para convencer o grupo a abandonar suas armas estavam fracassando, pois Israel ainda ocupava terras libanesas.

Depois que o Hezbollah entrou na guerra regional em 2 de março, o Líbano proibiu suas atividades militares. Mas o Exército não interrompeu os lançamentos de mísseis do grupo, com autoridades citando novamente o risco de conflito interno.

Netanyahu disse que as conversações se concentrariam no desarmamento do Hezbollah e em um acordo de paz histórico entre Israel e o Líbano, que tecnicamente estão em guerra desde a fundação de Israel em 1948.

Publicidade

Mas ambos são difíceis de imaginar depois de uma semana tão mortal.

O Líbano estava indo para as negociações como uma casa dividida, disse Michael Young, do Carnegie Endowment's Middle East Center.

Desarmar o Hezbollah "significa entrar em um confronto com toda a comunidade xiita, que não aceitará o desarmamento do Hezbollah porque sente que está cercada de inimigos", disse ele.

"Estamos fracos porque não temos clareza sobre os termos de referência das negociações, estamos divididos sobre a questão das negociações, porque nossas exigências serão rejeitadas e porque não podemos fazer o que precisamos para garantir a retirada israelense."

Reuters - Esta publicação inclusive informação e dados são de propriedade intelectual de Reuters. Fica expresamente proibido seu uso ou de seu nome sem a prévia autorização de Reuters. Todos os direitos reservados.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações