Irã celebra Revolução Islâmica sob pressão dos EUA e com oposição no exílio dividida

O Irã não vai ceder às "exigências excessivas" dos Estados Unidos sobre seu programa nuclear, advertiu seu presidente, Massoud Pezeshkian, nesta quarta‑feira (11), data em que o o governo iraniano, fragilizado pelas recentes manifestações no país, celebra o aniversário da Revolução Islâmica de 1979. Sob pressão interna, Teerã continua sob a ameaça de uma intervenção militar americana.

11 fev 2026 - 11h02
(atualizado às 11h05)

Aabla Jounaïdi, da RFI em Paris, com AFP 

Em um discurso em Teerã, diante de uma multidão que agitava bandeiras da República Islâmica, Massoud Pezeshkian afirmou que seu país não se curvará às reivindicações americanas nem a uma "agressão" dos Estados Unidos.

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Na noite desta terça-feira (10), véspera da comemoração do aniversário da Revolução Islâmica, iranianos foram para as varandas de seus prédios em bairros da capital, entoando frases como "Morte ao ditador" e "Morte à República Islâmica", segundo vídeos divulgados nas redes sociais, cuja veracidade foi verificada pela AFP

Após o início dos protestos, no fim de dezembro, que evoluíram para um movimento inédito de contestação contra o regime, Donald Trump fez diversas ameaças contra o país. Nesta quarta-feira, o republicano recebe em Washington o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, defensor de uma linha dura em relação ao Teerã.

Segundo Netanyahu, qualquer negociação entre Estados Unidos e Irã deve incluir "a limitação dos mísseis balísticos e o congelamento do apoio" de Teerã a grupos armados regionais hostis a Israel. A exigência também é reiterada pelos Estados Unidos. 

Oposição iraniana no exílio se divide 

Membros da oposição ao regime islâmico iraniano que vivem no exterior observam de longe a repressão que continua em seu país de origem. Mas, em vez de se unirem para tentar mudar a realidade no terreno, eles se mostram divididos e se atacam mutuamente, sobretudo nas redes sociais. Essa oposição no exílio consiste principalmente em quatro grupos: monarquistas, de esquerda, nacionalistas ou islamistas

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"Os tempos estão difíceis", diz a antropóloga britânico-iraniana Pardis Shafafi, integrante do Laboratório de Antropologia Política da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), em Paris. Ela conduz pesquisas sobre a violência do Estado e a repressão política no Irã.

Pardis Shafafi não imaginava que suas declarações à imprensa norueguesa lhe renderiam ataques de um grupo pró-monarquista, mesmo estando na Europa. Em entrevista à RFI, ela descreve um ativismo amplificado por setores radicais da oposição no exílio. 

"Quando você posta algo online, é muito comum um desconhecido vir cobrar explicações de você e as pessoas que você segue. E isso frequentemente descamba em acusações de espionagem", relata a pesquisadora, que tem presença regular  na imprensa. Ela não é a única a denunciar essa deriva: "listas negras" de opositores circulam, ameaças de morte contra jornalistas têm se repetido e pesquisadores são acusados de serem 'propagandistas'.

Na França, várias personalidades de origem iraniana relatam, de forma pública ou anônima, ameaças recebidas após declarações consideradas complacentes demais com a República Islâmica. Um deles, que recusou conceder entrevista, apresentou queixa por ameaças de morte. 

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Maioria silenciosa 

A figura mais conhecida da oposição no exterior, o príncipe Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, tenta se distanciar das vozes mais radicais entre os monarquistas, mas essas facções conseguiram instaurar um clima tóxico entre a dissidência., levando à autocensura entre opositores. 

"A maioria se esconde no silêncio, por medo", reconhece a franco-iraniana Aïda Tavakoli, fundadora da associação We Are Iranian Students ("Nós somos estudantes iranianos", em tradução livre), uma organização laica e apartidária ligada a estudantes opositores dentro do próprio Irã. Ela acredita ver, nas posições extremistas de alguns - "uma minoria", destaca -, a dor profunda de viver um luto à distância, alimentado por sentimentos como a culpa por ser sobrevivente e a falta de um espaço para expressar a própria raiva. 

Traumas políticos 

"Muitos ativistas hoje no exílio foram presos pela República Islâmica", lembra Pardis Shafafi. "Para essas pessoas, a discordância não é apenas uma divergência narrativa; trata-se da negação do episódio mais traumático que já viveram", resume.

A polarização extrema na oposição também se alimenta da incapacidade de chegar a um consenso sobre o legado da Revolução Islâmica de 1979, que completa 47 anos neste 11 de fevereiro. Mas, depois da pior repressão já vivida pelo Irã contemporâneo, alguns querem acreditar em um despertar coletivo. 

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"Tenho recebido muito mais pessoas de todos os espectros políticos, monarquistas, republicanos, de esquerda, de direita, feministas e não feministas, perguntando se seria possível buscar unidade, porque elas não se reconhecem nos extremos de nenhum dos lados", explica Aïda Tavakoli.

Em 5 de fevereiro, durante uma conferência em Paris, a ativista reconheceu alguns autores de comentários violentos feitos contra ela nas redes sociais. "Eles vieram me agradecer, dizendo que foi importante compreender que nosso desacordo não é uma agressão pessoal", conta. 

Segundo Pardis Shafafi, torna-se ainda mais essencial trabalhar para superar essas divisões, já que o regime iraniano não hesita em explorá-las. "Grande parte desses conflitos é um cortina de fumaça criada por trolls a serviço do regime. Ele equipa e financia esse 'ciberexército' justamente para garantir que a oposição continue fragmentada e para desacreditar qualquer pessoa capaz de reunir apoios. Vimos esse padrão em 2022, e é importante relembrar isso. O que o regime mais teme é, claro, um movimento popular solidário, coerente e capaz de se opor a ele", afirma a pesquisadora. 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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