Irã busca apoio da Rússia contra os EUA em cúpula de bloco asiático

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e do Irã, Massoud Pezeshkian, se reúnem nesta terça-feira (1°) à margem da cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCS), realizada no Quirguistão. O encontro em Bishkek, que marca os 25 anos do bloco regional, reúne 17 chefes de Estado e de governo, entre eles os líderes da Rússia, Irã, China, Índia, Paquistão e Turquia.

1 set 2026 - 08h31
(atualizado às 09h02)
Resumo
Na cúpula da Organização para Cooperação de Xangai, no Quirguistão, líderes de potências como Rússia, China e Irã articularam o fortalecimento de um bloco multipolar para contrapor a hegemonia dos Estados Unidos. Em meio a tensões com Washington, o presidente iraniano buscou o apoio direto de Vladimir Putin e Xi Jinping, reforçando uma aliança estratégica antiocidental. O evento serviu ainda para debater projetos energéticos e aproximar nações rivais em busca de acordos de paz.

Théo Bourgery Gonse, enviado especial da RFI a Bishkek, e AFP 

Foto de participantes da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), em Bishkek, no Quirguistão, nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026.
Foto de participantes da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), em Bishkek, no Quirguistão, nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026.
Foto: AFP - VYACHESLAV PROKOFYEV / RFI

Vários chefes de Estado, da Rússia à China, passando por Irã, Índia e Paquistão, chegaram ao Quirguistão na segunda-feira (31) na véspera da abertura da 25ª cúpula da Organização para a Cooperação de Xangai. O objetivo do encontro é fortalecer a ideia de um mundo multipolar e contrapor a hegemonia americana, em um momento em que os confrontos entre o Irã e os Estados Unidos voltaram a se intensificar. 

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Antes da abertura oficial, já ocorreram reuniões bilaterais, algumas de grande importância estratégica. Na noite de segunda-feira, o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, iniciou sua intensa agenda diplomática. Entre outros encontros, ele se reuniu com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que não via desde o início da guerra no Oriente Médio.  

Nesta terça-feira, Pezeshkian deve encontrar Vladimir Putin e Xi Jinping para assegurar o apoio de ambos diante de Washington. Antes da reunião, o presidente iraniano prometeu que Teerã retomará imediatamente seus compromissos para encerrar a guerra se os Estados Unidos voltarem a cumprir o protocolo de entendimento assinado em junho.  

Rússia: parceira privilegiada do Irã 

Para o Irã, a Rússia de Vladimir Putin é uma parceira privilegiada. A cooperação entre os dois países se estende ao campo militar e abrange desde a energia nuclear civil até o setor espacial. Acima de tudo, Teerã compartilha com Moscou o mesmo objetivo de reduzir sua dependência do Ocidente, lembra Clément Therme, pesquisador associado do programa Turquia e Oriente Médio do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri).

"Existe sempre essa ideia, para a República Islâmica, de ancorar definitivamente a Rússia no campo antiocidental e até mesmo naquilo que o Irã chama de 'eixo da resistência' no Oriente Médio", afirma Therme, em entrevista a Nicolas Feldmann, da editoria de internacional da RFI.

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O Irã também conta com a Rússia para preservar sua influência muito além do Oriente Médio. "Uma questão muito importante para o Irã é que a Rússia mantenha sua influência naquilo que chama de 'exterior próximo', isto é, na Ásia Central e no Cáucaso do Sul. Foi graças a essa hegemonia russa no antigo espaço soviético que, desde 1991, a República Islâmica conseguiu exercer influência, e Teerã está muito preocupado com o avanço da presença ocidental e turca na Ásia Central e no Cáucaso do Sul", completa o especialista. 

Putin é recebido com honras 

O presidente russo foi recebido com honras em Bishkek. Vladimir Putin tem nove reuniões programadas, começando pelo presidente chinês. Na pauta, está o avanço das negociações para a construção de um gasoduto ligando a Rússia à China, um projeto iniciado há duas décadas que permanece estagnado. 

Putin também deve se reunir com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que, segundo a imprensa russa, pretende oferecer ajuda para mediar um acordo de paz na Ucrânia.  

Na segunda-feira, o líder russo elogiou as relações de seu país com a China. Segundo ele, "a cooperação estratégica entre Pequim e Moscou constitui um modelo de relações entre Estados". Isolado pelo Ocidente, o líder russo procura demonstrar o apoio de seus aliados. 

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Disputa de influência 

A Ásia Central também é palco de uma disputa de influência com a China, outro importante parceiro da Rússia. Desde o início da guerra na Ucrânia, Pequim tem se beneficiado do enfraquecimento diplomático e econômico de Moscou para ampliar sua presença na região. Pela primeira vez, no ano passado, o comércio entre a China e os países da Ásia Central ultrapassou a marca de US$ 100 bilhões. 

Um encontro impensável há apenas um ano, envolvendo um outro conflito, ocorreu à margem da cúpula da OCS. O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinian, se reuniu na segunda-feira com o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev. Os dois países vivem uma disputa histórica de quatro décadas pelo controle da região de Nagorno-Karabakh, e no início de agosto assinaram um pacto de paz. 

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