Governo Lula tem ressalvas a Conselho da Paz e segura por mais uma semana resposta a Trump

Lula ganha tempo com consulta a outros países, mas cresce resistência a participar em projeto do americano que se choca com ONU

23 jan 2026 - 21h01

BRASÍLIA - A resposta oficial - a tendência hoje é negativa - do governo brasileiro sobre a adesão ao Conselho da Paz lançado por Donald Trump deve demorar ao menos mais uma semana, segundo integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Não há um prazo certo para a decisão.

Publicidade

O Estadão ouviu de quatro integrantes do governo uma série de ressalvas à proposta de Trump. Elas se acentuaram com a divulgação do estatuto do Conselho e o lançamento da ideia em Davos, em palanque considerado esvaziado.

A impressão em Brasília é que os convites surpreenderam os países e líderes globais e que a diplomacia americana acelerou e improvisou ao realizar o lançamento na Suíça, nesta quinta-feira, dia 22, com baixa adesão - cerca de 20 países de 60 convites disparados.

Lula critica no NYT intervenção dos EUA na Venezuela e diz que 'hemisfério pertence a todos nós'
Lula critica no NYT intervenção dos EUA na Venezuela e diz que 'hemisfério pertence a todos nós'
Foto: REUTERS/Adriano Machado

A decisão final e oficial do governo, no entanto, ainda não foi tomada e vai depender de avaliações levadas ao próprio presidente.

O governo ganha tempo, enquanto promove análises mais aprofundadas sobre os aspectos jurídicos, políticos e procedimentais de eventual adesão - como os custos para vaga permanente (US$ 1 bilhão) e a necessidade de aprovação congressual da participação em novo orgão internacional.

Publicidade

O Palácio do Planalto ainda cozinha Washington, e Lula mobilizou a diplomacia brasileira no exterior para colher impressões e monitorar o posicionamento de países. A estratégia tem sido observar, trocar opiniões e deixar o assunto decantar.

Pelo lado positivo, interlocutores de Lula afirmam que o conselho é mais uma forma de buscar dar um fim à guerra em Gaza e levanta novamente o debate sobre a reforma da ONU e escancara paralisia do Conselho de Segurança.

Para um embaixador, porém, o conselho trumpista tem "sérias sobreposições" com a ONU e seria mais simples buscar corrigir as falhas e limitações da instituição do que constituir uma nova menos representativa.

O governo ainda estuda uma saída diplomática, e não quer melindrar Trump, tampouco atrapalhar a retomada de relações, inclusive pessoais, entre os presidentes, uma conquista do segundo semestre de 2025.

Publicidade

Uma resposta negativa deve conter sugestões, contrapropostas de reforma dentro da própria ONU, e não a criação de uma entidade que se sobreponha, além de incluir um menção à deferência de convidar o Brasil e Lula.

Autoridades governamentais reforçam que existe o temor de Trump interferir de alguma forma nas eleições presidenciais de 2026, mas afirmam que uma decisão não deve ser tomada com base apenas retaliações.

Ao mesmo tempo em que dizem não poder se guiar na reação trumpista a uma negativa, ela é sim considerada politicamente. O Palácio do Planalto não quer queimar pontes ou gerar animosidade. Até agora, somente o Canadá foi desconvidado após o discurso crítico do primeiro-ministro Mark Carney, elogiado em Brasília.

O governo se vê mais preocupado com "riscos sistêmicos" ao sistema de regras internacionais, mas tampouco deseja impactos negativos na relação bilateral.

Publicidade

A principal crítica é o lançamento de uma plataforma que concorre e se sobrepõe à ONU, serve à discussão de todo e qualquer conflito, e reforça poder unilateral de uma liderança sobre um mecanismo multilateral.

Se houvesse um foco apenas em Gaza, e se o grupo de convidados fosse mais reduzido, daria mais prestígio político a Lula, e poderia haver uma aceitação mais fácil em Brasília. Outro ponto importante seria se o estuto/carta estivesse aberto a propostas de ajustes e alteração. O cenário seria diferente.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se