Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa
Durante as três semanas que decorreram entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, os dois candidatos, o socialista António José Seguro e o populista André Ventura, participaram de um único debate, considerado morno. Uma pesquisa feita pelo jornal Expresso e rede de TV SIC dá vitória a Seguro, com 62,6% dos votos, à frente de Ventura, com 37,4%. Mas o fato da disputa estar quase definida pode desmobilizar a ida dos eleitores às urnas no domingo.
Nas últimas semanas, Portugal enfrentou quatro tempestades em série - Leonardo, Kristin, Ingrid e Joseph -, com chuvas intensas, ventos de até 160km/h e danos significativos que fizeram o governo decretar estado de calamidade em 68 municípios do país. As agendas dos dois candidatos tiveram de ser alteradas por causa do mau tempo e ambos visitaram zonas afetadas. Seguro mostrou como atuaria se fosse eleito, enquanto Ventura usou a tempestade para fazer campanha contra o atual governo.
A previsão para domingo, dia das eleições, é de chuvas menos intensas, mas as condições climáticas podem levar a um aumento na taxa de abstenção, considerada a maior adversária dos candidatos. Apesar das inundações, o segundo turno está mantido para o domingo. Seguro defende que cabe às autoridades competentes decidirem sobre o adiamento dao pleito em seus municípios. O voto em Portugal não é obrigatório.
Discurso hostil e agressivo
Até bem pouco tempo atrás, Portugal era a única nação europeia que parecia estar imune do radicalismo da extrema, mas a chegada de André Ventura na cena política do país causou uma virada.
"Acreditava-se que, porque tínhamos tido um fascismo até 1974, com Salazar, havia uma vacina que fazia com que os portugueses fossem hostis ao discurso da extrema direita, e que Portugal era também um país muito liberal, onde não havia racismo. Mas há uma guinada com a eleição de Ventura, quando todos esses mitos caem", explicou à RFI João Carvalho, cientista político e pesquisador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-ISCTE).
"Ventura é uma pessoa midiática, que estava nos programas de TV. Passou anos a fio a fazer um debate de futebol na TV, onde falavam de tudo menos de futebol. Foi aí que ele aprendeu a criar uma imagem midiática, um discurso muito antagônico, hostil e agressivo, assim como ele defendia o Benfica contra o Sporting. Agora, ele defende o Ventura contra o socialismo, mas o estilo é o mesmo", ressaltou.
Segundo Carvalho, dois motivos sustentam o sucesso do líder do Chega: o antipartidarismo e a ciganofobia. "Em Portugal, é absolutamente natural as pessoas dizerem: 'eu não sou racista, só não gosto de ciganos'. Esta ciganofobia existe antes mesmo de Salazar. Os ciganos estão aqui há cinco séculos", salienta o pesquisador. "O anticiganismo é transversal na sociedade portuguesa, vai desde a extrema esquerda à extrema direita. Ventura soube instrumentalizar esse ódio, dando a ideia de que ao expulsar os ciganos, o país vai virar uma Suíça", reforçou o cientista político.
'Cordão sanitário' contra Ventura
Neste segundo turno, mesmo sendo um candidato da esquerda, Seguro recebeu a adesão de muitos políticos da direita portuguesa, formando um "cordão sanitário" contra o candidato de extrema direita. No primeiro turno, o candidato socialista defendeu o "voto útil" contra o crescimento do Chega.
"Ele pensou que a direita ia cair nos seus braços a dizer 'o Andrezinho é o maior'. Como isso não aconteceu, Ventura diz que é uma conspiração contra ele, mas isso é o seu próprio fracasso. Ou seja, Ventura não consegue criar um discurso que seja conciliador e não consegue ir para além da sua tribo", ressalta Carvalho. "André Ventura é completamente narcisista e vive exclusivamente para alimentar o seu ego. Mas mesmo se o Chega não ganhar as eleições, a sociedade portuguesa continua a considerar o Chega um partido normal, apesar do discurso racista", pondera o professor do ISCTE.
António José Seguro venceu o primeiro turno com 31,14% dos votos válidos, contra os 23,48% para Ventura. Em Portugal, que tem o regime semipresidencialista, o primeiro-ministro é quem governa e cabe ao presidente exercer o "poder moderador", no qual ele não governa diretamente, mas equilibra o sistema através de vetos, dissolução do Parlamento e nomeação do primeiro-ministro, especialmente em momentos de crises institucionais.