Raphaël Glucksmann lançou pré-candidatura à presidência da França para 2027 visando unir a centro-esquerda social-democrata, sem alianças com a esquerda radical. Pró-Europa e crítico de Putin, sua plataforma foca no aumento da renda dos trabalhadores, na taxação de mega-heranças e na transição ecológica, apoiada pelos Verdes. Principal nome da social-democracia nas pesquisas, ele tenta romper a polarização política, enfrentando o desafio de afastar a imagem elitista para atrair os eleitores.
Nos últimos anos, Glucksmann tornou-se uma das figuras mais visíveis da centro-esquerda francesa, especialmente por suas posições pró-europeias e por sua firme oposição ao presidente russo Vladimir Putin.
Glucksmann adquiriu familiaridade com os temas geopolíticos do Leste Europeu quando trabalhou na Geórgia ao lado do então presidente Mikheil Saakashvili, em sua primeira experiência política de destaque. Essa passagem fora da França ajudou a moldar sua visão sobre a Rússia.
A trajetória internacional contribuiu para consolidar uma das marcas de sua identidade política: a defesa da democracia liberal europeia e a crítica contundente ao expansionismo russo. Desde a invasão da Ucrânia, Glucksmann tornou-se uma das vozes francesas mais duras contra o líder do Kremlin.
"Estou me candidatando para revitalizar a França", afirmou Raphaël Glucksmann em entrevista à emissora TF1. Segundo ele, muitos franceses sentem "um nó no estômago" ao observar a situação atual do país e as perspectivas para os próximos anos.
Uma aposta social-democrata após a era Macron
A eleição de 2027 será a primeira em uma década sem Emmanuel Macron como candidato. A Constituição francesa impede um terceiro mandato consecutivo, abrindo espaço para uma disputa acirrada e particularmente fragmentada.
Nesse cenário, Glucksmann tenta ocupar um espaço político que ficou enfraquecido nos últimos anos: o da social-democracia tradicional. Ele participará das primárias organizadas em outubro pelo Partido Socialista (PS) e pelo seu próprio movimento, o Place Publique, para definir um candidato único do campo social-democrata. Várias figuras socialistas já manifestaram disposição de participar, enquanto se aguarda a possível candidatura do secretário-geral do PS, Olivier Faure.
Raphaël Glucksmann ganhou peso político ao conquistar 13,8% dos votos nas eleições europeias mais recentes. Ele passou os últimos meses percorrendo diversas regiões da França para consolidar sua candidatura.
Atualmente, tem cerca de 10% a 11% das intenções de voto nas sondagens, desempenho que o coloca como o nome mais competitivo da social-democracia francesa, embora ainda atrás de Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical do partido A França Insubmissa (LFI), que registra cerca de 15%.
A plataforma
A plataforma apresentada até agora pelo pré-candidato combina propostas econômicas voltadas para os trabalhadores com uma forte agenda ecológica e europeísta.
Um dos principais compromissos de Glucksmann é aumentar a renda líquida dos assalariados franceses. Para isso, ele propõe reduzir as contribuições previdenciárias incidentes sobre os salários, aumentando o valor que efetivamente chega ao bolso dos trabalhadores.
Para compensar a perda de arrecadação, o candidato defende aumentar a tributação sobre as chamadas "mega-heranças", medida que, segundo Glucksmann, atingiria sobretudo o 1% mais rico da população.
A proposta procura responder a uma preocupação recorrente na França: a dificuldade crescente das classes médias e populares em manter o poder de compra diante do aumento do custo de vida.
Distância da esquerda radical
Outro elemento central de sua candidatura é a tentativa de estabelecer uma linha clara entre a social-democracia e a esquerda radical representada por Jean-Luc Mélenchon.
Glucksmann foi enfático ao declarar que não pretende formar alianças com a LFI caso vença as primárias social-democratas. Sua posição reflete divergências profundas em questões como Europa, política externa e estratégia eleitoral.
Ao mesmo tempo, o candidato procurou dialogar com outras correntes da esquerda. Fez acenos aos Verdes, reconhecendo que foram os primeiros a alertar para a gravidade da crise climática, e também aos comunistas, destacando a existência de objetivos compartilhados, especialmente na reindustrialização da França.
Seus adversários à esquerda frequentemente o acusam de ter se aproximado demais do centro político, adotando posições mais moderadas e buscando dialogar com eleitores que não se identificam com a esquerda radical. Ele insiste que continua comprometido com valores progressistas e de justiça social.
A aposta ecológica
Um reforço importante para a candidatura veio do ex-candidato presidencial dos Verdes em 2022, Yannick Jadot, que anunciou apoio a Glucksmann.
Para Jadot, o eurodeputado é atualmente o político mais capaz de conciliar quatro temas considerados essenciais para a França: justiça social, transição ecológica, democracia e integração europeia.
Como parte desse acordo, Jadot ficará encarregado de elaborar um plano para os primeiros cem dias de governo, incluindo a implementação de um "estado de emergência ecológica". O objetivo seria acelerar a adaptação do país às mudanças climáticas, apoiar populações vulneráveis e fortalecer a capacidade de resposta diante de eventos extremos, como incêndios e ondas de calor vistos neste verão europeu.
A questão ambiental poderá desempenhar papel decisivo na campanha, especialmente porque os Verdes permanecem divididos entre lançar candidatura própria, apoiar Mélenchon ou aderir a uma candidatura social-democrata.
Uma imagem ainda em construção
Apesar do crescimento político, Glucksmann enfrenta desafios importantes. Seus críticos também o consideram uma figura excessivamente intelectual e distante das preocupações cotidianas dos eleitores.
Filho do renomado filósofo francês André Glucksmann, Raphaël construiu inicialmente uma carreira como ensaísta e intelectual antes de ingressar na política.
Sua origem familiar, ligada ao meio acadêmico parisiense, alimenta uma imagem de elitismo que ele tenta combater durante suas viagens pelo interior do país.
A vida pessoal também ganhou destaque após o anúncio da candidatura. Sua companheira, a jornalista franco-libanesa Léa Salamé, uma das apresentadoras mais conhecidas da televisão pública francesa, afastou-se temporariamente da apresentação do principal telejornal da France 2 para evitar qualquer conflito de interesses durante a campanha.
Até o momento, o centro é representado na disputa por dois ex-primeiros-ministros de Emmanuel Macron, Édouard Philippe e Gabriel Attal. Na direita tradicional, o ex-ministro do Interior Bruno Retailleau foi escolhido como candidato de seu partido, enquanto Marine Le Pen, líder da extrema direita francesa, continua figurando entre os principais nomes nas pesquisas de intenção de voto.
O desafio de 2027
Raphaël Glucksmann entra na disputa tentando reconstruir um espaço político que parecia em declínio na França. Entre uma esquerda radical liderada por Jean-Luc Mélenchon e uma extrema direita fortalecida por Marine Le Pen, sua estratégia consiste em apresentar uma alternativa reformista, europeísta e ecológica.
Sua campanha buscará convencer os franceses de que a social-democracia ainda pode oferecer respostas para temas como desigualdade, crise climática, reindustrialização e segurança internacional.
Resta saber se essa mensagem será suficiente para romper a polarização que domina a política francesa e transformar o eurodeputado em um candidato capaz de chegar ao segundo turno da eleição presidencial de 2027.
Com agências e RFI