Parlamento Europeu: agricultores intensificam protestos na véspera de votação sobre acordo UE-Mercosul

Portando bandeiras em uma mão e sinalizadores de fumaça na outra, milhares de agricultores protestaram, nesta terça-feira (20), em frente ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, no leste da França, contra o acordo comercial da União Europeia com o Mercosul. O ato acontece na véspera de uma votação sobre uma possível contestação judicial do texto.

20 jan 2026 - 16h40

Em sua maioria franceses, mas reunindo também italianos, belgas e poloneses, eles chegaram ao prédio no final da manhã, com alguns tratores. Ao meio-dia, a polícia estimou a multidão em mais de 5.500 pessoas. À tarde, a tensão aumentou, com manifestantes atirando bombas de fumaça, garrafas e frutas contra o batalhão de choque da polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo.

Fazendeiros franceses em seus tratores com mensagens que dizem "Salvem seus agricultores. Ursula, vá embora" e "Não ao Mercosul" perto do Parlamento Europeu durante uma manifestação para protestar contra o acordo de livre comércio UE-Mercosul, Estrasburgo, França, 20 de janeiro de 2026.
Fazendeiros franceses em seus tratores com mensagens que dizem "Salvem seus agricultores. Ursula, vá embora" e "Não ao Mercosul" perto do Parlamento Europeu durante uma manifestação para protestar contra o acordo de livre comércio UE-Mercosul, Estrasburgo, França, 20 de janeiro de 2026.
Foto: © Yves Herman/Reuters / RFI

O alvo das críticas foi a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que assinou o controverso acordo de livre comércio com os quatro países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), no sábado (17). Seu nome foi vaiado e colocado em um caixão.

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"A Comissão Europeia está nos abandonando", lamentou a Copa-Cogeca, organização que reúne as principais associações agrícolas europeias. A oposição da França, da Polônia e de vários outros países europeus não impediu a conclusão do acordo.

"Estamos aqui em grande número hoje porque queremos continuar lutando por uma visão de agricultura que produza na Europa", disse Arnaud Rousseau, presidente da Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA), a maior associação do setor na França.

Os membros do Parlamento devem votar nesta quarta-feira (21) sobre um possível encaminhamento do documento ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE).

Se votarem a favor, o TJUE examinará a compatibilidade do acordo com os tratados. Se o parecer do tribunal for negativo, ele só poderá entrar em vigor se for alterado.

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"Este acordo de livre comércio pode, em alguns casos, abrir mercados para a Itália e reduzir tarifas, mas põe em risco a saúde de todos", denuncia Nicolo Koliotassis, 23 anos, viticultor do Vêneto e membro da Coldiretti, uma associação agrícola italiana.

O tratado comercial entre a UE e os países latino-americanos do Mercosul resultará na importação de alimentos "produzidos de uma forma completamente diferente da europeia, com mais pesticidas e sem os mesmos padrões", teme Baptiste Mary, de 24 anos, agricultor da região de Marne, na França.

"Agora cabe aos parlamentares (europeus) decidirem se encaminham o assunto ao Tribunal de Justiça da União Europeia", disse a ministra da Agricultura francesa, Annie Genevard, ao canal de televisão TF1, esperando que "este processo seja bem-sucedido".

Parlamento Europeu dividido

Mesmo dentro de seus próprios grupos políticos, os eurodeputados estão divididos. "Estamos trabalhando, voto a voto, parlamentar a parlamentar, para construir a maioria necessária para impedir o acordo com o Mercosul na votação de amanhã", disse François-Xavier Bellamy, membro do PPE, o grupo de centro-direita no Parlamento Europeu.

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Os agricultores planejam permanecer em Estrasburgo até quarta-feira. "Lutaremos até o fim", insistiu Pierrick Horel, presidente do Movimento dos Jovens Agricultores.

Negociado desde 1999, o acordo com o Mercosul foi apoiado pela maioria dos Estados-membros. A França se opôs a ele. Este tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, englobando mais de 700 milhões de consumidores e cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

O objetivo é permitir que a UE exporte mais carros, máquinas, vinhos e bebidas alcoólicas para a América Latina, ao mesmo tempo em que facilita a entrada de carne bovina, açúcar, arroz, mel e soja de origem sul-americana na Europa.

Os críticos argumentam que isso prejudicará a agricultura europeia com produtos importados mais baratos, que podem não atender aos padrões da UE devido a controles insuficientes.

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Na quinta-feira (22), os eurodeputados votarão uma moção de censura contra Ursula von der Leyen, uma iniciativa do grupo de extrema direita Patriotas pela Europa, que tem poucas chances de sucesso.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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