Nova ferramenta digital revela se ancestrais de alemães eram filiados ao partido de Hitler

O Arquivo Nacional dos Estados Unidos, com mais de 12 milhões de registros digitais de membros do Partido Nacional-Socialista da Alemanha (sigla nazista), colocou à disposição esse acervo na internet. A iniciativa simplificou o processo de busca de informações sobre o envolvimento dos antepassados alemães durante o Terceiro Reich.

17 abr 2026 - 12h03

Sergio Correa, correspondente da RFI na Alemanha

Juventude Hitleriana desfila nas ruas de Soltau: não encontrar um nome nos arquivos não é garantia de que o antepassado não tenha se filiado ao Partido Nacional Socialista da Alemanha, salienta especialista.
Juventude Hitleriana desfila nas ruas de Soltau: não encontrar um nome nos arquivos não é garantia de que o antepassado não tenha se filiado ao Partido Nacional Socialista da Alemanha, salienta especialista.
Foto: AFP/Archivos / RFI

Em 1945, pouco antes do colapso do regime nazista, cerca de 9 milhões de alemães - aproximadamente 20% da população adulta do país - eram membros registrados do "Partido Nazista" de Adolf Hitler.

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"Se você era um cidadão comum durante a ditadura nazista, não havia obrigação de se filiar ao partido, e não havia uma consequência negativa direta. Você não receberia menos cestas básicas, por exemplo", afirma Johannes Tuchel, ex-diretor do Centro Comemorativo da Resistência Alemã.

"Não conhecemos nenhum caso de alguém que tenha sido obrigado a aderir ao partido, mas se a pessoa trabalhava no aparelho estatal, ser membro era imprescindível", complementa.

Em 1945, todos os cartões de filiação do Partido Nazista foram confiscados pelo exército americano e levados para os Estados Unidos, onde foram microfilmados. Esses registros agora estão disponíveis online, acessíveis a qualquer pessoa que deseje pesquisá-los.

Acesso facilitado

Embora os arquivos já tivessem sido devolvidos à Alemanha em 1994 e estivessem inicialmente disponíveis para consulta no Arquivo Federal Alemão (Bundesarchiv), o processo burocrático para acessá-los sempre foi tão longo e complexo que poucos se atreviam a fazê-lo. A iniciativa do arquivo americano permite que qualquer pessoa, em muitos casos sem necessidade de cadastro, pesquise os registros online.

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Os cartões de filiação mantidos pelo arquivo contêm nome, endereço e profissão dos membros. Em alguns casos, é possível encontrar mais informações ou fotografias da pessoa procurada, mas localizá-las exige dedicação.

Os resultados da busca costumam gerar milhares de resultados que precisam ser analisados, imagem por imagem, até chegar à pessoa procurada. Não encontrar alguém no arquivo não garante que essa pessoa não tenha tido ligações com o partido - como várias pessoas que utilizaram o acervo já descobriram.

"Encontrei o bisavô materno da minha esposa, que se filiou ao partido em 1931; já sabíamos que ele havia pertencido à SS (Schutzstaffel, pequeno grupo encarregado de proteger Hitler que se tornou uma estrutura central do poder nazista)  e morrido na frente de batalha em 1944. O que foi estranho foi não encontrar meu bisavô materno, que também foi um dos primeiros nazistas", explicou um interessado.

Série aborda a 'culpa alemã'

O homem recém começou a investigar o passado nazista de sua família, motivado por uma nova série da televisão pública alemã chamada "Culpa Alemã", que explora o passado nazista do país sob a perspectiva da geração dos bisnetos.

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Sempre foi bastante difícil chegar a um relato confiável do papel de cada cidadão alemão durante a era nazista. Após a guerra, a Alemanha estava repleta de membros autodeclarados da resistência, protetores de judeus ou inimigos de Hitler.

"Mesmo trabalhando na indústria bélica alemã, sempre havia a opção de recusar filiação ao partido. Isso poderia trazer desvantagens no trabalho, mas nunca consequências legais", afirma Tuchel. "Isso precisa ficar claro."

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