Líder da oposição que presenteou Trump com Nobel da Paz pede eleições 'imediatas' na Venezuela

A líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, defendeu a convocação imediata de eleições presidenciais e detalhou as condições para um pleito "livre e confiável" em entrevista exclusiva à RFI. Aliada de Donald Trump, a quem chegou a oferecer seu Nobel, apesar de ter sido descartada por ele para liderar a Venezuela depois da captura de Nicolás Maduro, ela cobra novo sistema eleitoral e pressiona por transição democrática.

14 abr 2026 - 10h29

A líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, defendeu a convocação imediata de eleições presidenciais no país, após a rejeição dessa hipótese pelo ministro do Interior da Venezuela.

María Corina Machado, entrevistada em Paris em 13 de abril de 2026.
María Corina Machado, entrevistada em Paris em 13 de abril de 2026.
Foto: © Andreína Flores/RFI / RFI

Machado afirmou que o cenário político atual exige uma resposta urgente e prevista em lei. "A Constituição venezuelana é muito clara e estabelece que, em caso de ausência total — e ninguém pode duvidar da ausência total do senhor Nicolás Maduro —, eleições devem ser convocadas em até 30 dias", disse.

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Ela reforçou que, diante desse entendimento, não há margem para adiamentos ou interpretações alternativas. "Essas eleições devem ser convocadas o mais rápido possível", declarou.

Condições "mínimas"

Na mesma linha de pressão por uma saída eleitoral, María Corina Machado detalhou o que considera condições "mínimas" para um processo legítimo na Venezuela e voltou a defender mudanças estruturais no sistema eleitoral do país.

A opositora se reuniu em Paris com o presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu. Ela classificou o encontro como decisivo para reforçar o apoio internacional à causa venezuelana. "Foi uma reunião extraordinária, muito cordial. Estive com o presidente da França, o chanceler e outros membros da equipe. São pessoas que conhecem em detalhes o que acontece na Venezuela, que acompanharam de perto, ao longo de todos esses anos, a luta pela liberdade, pelos direitos humanos, pela justiça e pela democracia em nosso país", afirmou.

Segundo ela, o governo francês reiterou apoio total ao movimento opositor. "Mais uma vez, foi reafirmado o compromisso de acompanhar essa luta justa, urgente e necessária, que vai nos levar à transição democrática e à realização de um processo eleitoral limpo e livre, no qual a soberania popular possa se expressar e que permita avançar rumo a uma Venezuela próspera, para a qual todos os nossos filhos possam voltar", disse.

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Ao abordar diretamente a questão eleitoral, Machado afirmou que a experiência recente do país deixou claro quais são os obstáculos a superar.

"Se há uma sociedade que infelizmente conhece eleições que não são livres — e, portanto, sabe exatamente quais condições são necessárias para que um processo seja confiável — essa sociedade é a venezuelana", declarou.

Ela destacou que, além da perda de credibilidade do sistema de votação, houve também uma reação da sociedade. "Não apenas sofremos a destruição do voto como instituição e da confiança nele, mas também mostramos do que somos capazes como sociedade para fazer nossa voz ser ouvida e para que a verdade prevaleça", disse.

Nesse contexto, ela defendeu mudanças imediatas na estrutura eleitoral. "Está claro que é preciso conduzir um processo que comece pela nomeação de um novo Conselho Nacional Eleitoral. Ninguém confia nesse grupo de pessoas completamente subordinadas à tirania", afirmou. Segundo Machado, também é essencial garantir o direito de participação a todos os cidadãos.

"Devem existir garantias para todos os venezuelanos, para que todos possam votar. Em 28 de julho, estima-se que cerca de 40% dos eleitores não conseguiram votar — pessoas que vivem no exterior, jovens que completaram 18 anos nos últimos anos, cidadãos que se mudaram e não puderam atualizar seus dados", disse. Diante disso, ela insistiu na urgência do processo. "Temos um enorme desafio pela frente e consideramos que esse processo deve ocorrer assim que essas condições estiverem garantidas", acrescentou.

Questionada sobre a permanência no poder de figuras como os irmãos Rodríguez — Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez —, Machado evitou estabelecer pré-condições políticas além do campo eleitoral, mas reforçou os requisitos técnicos e institucionais. "Para nós, venezuelanos, a sequência no plano eleitoral é muito clara: é preciso um novo sistema, um novo Conselho Nacional Eleitoral e um conjunto de condições que garantam que o voto realmente decida", afirmou.

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Ela insistiu que o processo deve assegurar liberdade plena ao eleitor. "Tem de ser um processo no qual todos os venezuelanos possam se expressar sem medo e em que cada voto seja contado um a um", disse. Ao mesmo tempo, reconheceu a complexidade do cenário político. "As demais condições no campo político ainda estão por se definir em um processo complexo e muito dinâmico, em que a situação se acelera a cada dia. Por isso, não posso afirmar outros elementos além daqueles que garantem que o voto realmente decida", declarou. Ainda assim, fez um alerta direto contra possíveis atrasos.

"O que não podemos aceitar são adiamentos ou desculpas, porque, no fundo, eles têm medo do povo. E foi pelo povo, para o povo e graças ao povo que chegamos até aqui", afirmou.

Sobre seu retorno à Venezuela, Machado indicou que a decisão dependerá do avanço de uma estratégia internacional e da mobilização da diáspora. "Saí da Venezuela com o objetivo de cumprir uma série de metas. Temos trabalhado intensamente, sem descanso, para alcançá-las", disse. Entre essas metas, destacou o contato com venezuelanos no exterior.

"Tenho me reunido com milhares de venezuelanos em diferentes partes do mundo, que sonham em voltar ao país", afirmou. Segundo ela, esse movimento está ganhando força. "Toda essa energia, toda essa organização está criando um impulso enorme, que cresce a cada dia e está configurando condições únicas para o meu retorno", declarou.

A volta, no entanto, ainda não tem data definida. "Assim que esses objetivos forem alcançados, estarei de volta à Venezuela, ao lado dos venezuelanos que permanecem no país, travando uma luta incrível e irreversível. Espero que isso aconteça muito em breve", concluiu.

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RFI com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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