Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
Para o especialista em segurança e crime organizado Robert Muggah, do Instituto Igarapé, a medida não chega a ser uma surpresa e faz parte de uma mudança mais ampla na forma como Washington passou a tratar o crime organizado na América Latina.
Segundo ele, os Estados Unidos vêm deixando de enxergar grandes facções criminosas apenas como um problema de polícia e passaram a tratá-las como ameaças à segurança nacional, estratégia que já foi aplicada a grupos na Colômbia, no Equador, no México, no Haiti e na Venezuela.
"Drogas, migração, finanças ilícitas e segurança estão sendo incorporados a uma estratégia muito mais dura dos Estados Unidos."
Na avaliação de Muggah, o Brasil passa agora a ser incorporado a essa nova estratégia americana, baseada em sanções, designações terroristas e pressão financeira contra organizações criminosas.
O especialista afirma, porém, que o impacto mais imediato pode não ser necessariamente sobre o PCC e o Comando Vermelho, mas sobre a economia brasileira.
Isso porque, segundo ele, as duas facções estão profundamente infiltradas em diferentes setores econômicos e investigações recentes apontaram a presença de recursos ligados ao crime organizado em áreas como transporte, distribuição de combustíveis, construção civil, agronegócio e até fintechs.
A preocupação é que a nova classificação dê aos Estados Unidos mais instrumentos para perseguir ativos, fluxos financeiros, intermediários e empresas que possam ter algum tipo de vínculo com essas estruturas.
Segundo ele, essas organizações sobreviveram a operações policiais, repressões no sistema prisional e grandes investigações de lavagem de dinheiro. Por isso, para alguns setores, a pressão dos Estados Unidos pode parecer uma das poucas ferramentas capazes de aumentar o custo de fazer negócios com essas facções.
Mas o especialista alerta para um possível efeito colateral sobre empresas legítimas.
"Os bancos nos Estados Unidos vão se tornar mais cautelosos. Investidores estrangeiros podem passar a ser mais seletivos. E multinacionais provavelmente vão exigir mais garantias de que fornecedores e prestadores de serviço estejam livres de qualquer ligação com o crime organizado."
Acirramento da disputa política
Para Muggah, a medida também deve gerar uma forte disputa política dentro do Brasil.
"Para a direita brasileira, isso é visto como uma vitória política, pelo menos por enquanto. Isso permite dizer que os Estados Unidos estão sendo mais duros contra o PCC e o Comando Vermelho do que o governo Lula."
O especialista acredita que o debate político deve girar em torno de duas narrativas opostas: de um lado, a defesa de uma postura mais dura contra o crime organizado; do outro, críticas ao que pode ser interpretado como interferência americana em assuntos internos brasileiros.
Muggah alerta ainda que o impacto econômico da medida pode acabar ampliando a disputa política no Brasil.
"Se empresas brasileiras começarem a enfrentar custos mais altos, atrasos em pagamentos ou dificuldades para acessar o sistema financeiro internacional, o cenário político pode ficar bastante turbulento."
Segundo o cientista político, setores empresariais podem apoiar um combate mais duro ao crime organizado, mas dificilmente aceitarão se tornar "dano colateral" de uma estratégia americana de repressão financeira.
Na avaliação dele, o governo Lula deve tentar transformar o tema em um debate sobre soberania nacional e possível interferência americana em assuntos internos do Brasil.
"Lula pode argumentar que Washington está interferindo nos assuntos do Brasil e expondo empresas brasileiras a sanções sem necessariamente tornar os brasileiros mais seguros", avalia.
Consequências para PCC E CV
Apesar do endurecimento da postura americana, Muggah avalia que os efeitos sobre as facções podem ser limitados.
Segundo ele, PCC e Comando Vermelho são organizações altamente adaptáveis, capazes de criar novos intermediários, descentralizar operações e movimentar recursos por canais alternativos para escapar da fiscalização.
O anúncio do Departamento de Estado ocorreu um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado Marco Rubio, em Washington. Segundo o parlamentar, Rubio teria se mostrado favorável à classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. Flávio Bolsonaro também afirmou ter discutido o tema com Donald Trump durante um encontro na Casa Branca.
Em comunicado, o governo americano afirmou que PCC e Comando Vermelho serão designados como "Terroristas Globais Especialmente Designados" e também como "Organizações Terroristas Estrangeiras", classificação que passa a valer oficialmente em 5 de junho.