Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Portugal
A PrEP (profilaxia pré-exposição) é um medicamento de uso regular por pessoas HIV-negativas que estão em maior risco de exposição ao vírus. Quando tomada corretamente, a proteção pode chegar a 99%.
Ele faz parte de uma estratégia de prevenção amplamente recomendada por entidades como a ONUSIDA e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças. Mas em Portugal, a cobertura atual do medicamento está muito abaixo das necessidades identificadas por especialistas.
A denúncia é feita por organizações do setor, que alertam para um bloqueio financeiro que impede a resposta a centenas de pessoas em risco. No centro desta crítica está Luis Mendão, diretor do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamentos), que descreve um cenário de procura crescente e capacidade limitada. "O projeto foi aprovado, mas não teve financiamento. E sem financiamento não é possível avançar", resume o responsável.
Três organizações, o GAT, Grupo de Ativistas em Tratamentos, a Abraço e a Liga Portuguesa Contra a Sida, propõem criar um modelo de acompanhamento comunitário da PrEP, mais próximo da população e menos dependente da estrutura hospitalar do Serviço Nacional de Saúde. Segundo as organizações, o dispositivo permitiria aumentar rapidamente o número de pessoas em prevenção ativa.
Estima-se que entre 6.000 e 6.500 pessoas estejam em PrEP em Portugal. No entanto, os dados indicam que seria necessário alcançar pelo menos 20.000 pessoas para começar a reduzir de forma significativa a transmissão do HIV, e até 40.000 pessoas para atingir objetivos alinhados com metas internacionais até 2030. Um investimento total de cerca de € 3 milhões por ano.
"Estamos muito longe do mínimo necessário para ter impacto na epidemia", afirma Luís Mendão.
O projeto de expansão da PrEP prevê o acompanhamento descentralizado de pessoas em risco através de equipes especializadas em contexto comunitário, reduzindo pressão hospitalar e acelerando o acesso. Na prática, o bloqueio é financeiro.
O GAT estima que o custo de acompanhamento comunitário por pessoa seja de € 300, num total de 10 mil pessoas por ano, dependendo do modelo de implementação. Ainda assim, não houve alocação de verba específica para iniciar o programa em 2025.
As organizações insistem nas vantagens do dispositivo, que tornam-se ainda mais evidentes quando se compara com o custo do tratamento do HIV, que é vitalício e recai integralmente sobre o sistema público de saúde.
"É mais barato prevenir do que depois tratar pelo resto da vida o HIV", sublinha Luís Mendão.
Lista de espera crescente e capacidade limitada
Enquanto o projeto não avança, a resposta existente está sobrecarregada. O GAT acompanha atualmente cerca de 400 pessoas em PrEP, mas já tem mais de 700 pessoas em lista de espera. A organização foi obrigada a suspender novas admissões devido à falta de financiamento para equipes médicas e de enfermagem.
"Temos mais de 700 pessoas à espera e não conseguimos abrir novas vagas porque não temos condições financeiras para expandir a resposta", explica o responsável.
Este bloqueio acontece num contexto em que a procura continua aumentando, especialmente entre populações consideradas mais expostas ao risco de infeção.
No modelo atual, o acesso à PrEP no SNS (sistema nacional de saúde português), depende sobretudo de consultas hospitalares especializadas. Segundo as organizações, os tempos de espera podem atingir até um ano para a primeira consulta. Na prática, isso cria um sistema desigual: quem consegue pagar recorre ao setor privado e acede mais rapidamente ao tratamento preventivo; quem depende do sistema público entra numa fila de espera prolongada.
Além do projeto comunitário bloqueado, as organizações alertam para a ausência de financiamento estável para atividades essenciais de prevenção e rastreio.
Em 2024, o GAT realizou mais de 40 mil testes rápidos de HIV, representando mais de metade dos 68 mil testes oficiais realizados no país. Em 2025, ultrapassou os 45 mil testes, mas teve de limitar a sua atividade por falta de recursos.
Segundo os responsáveis, a dependência das ONG para o rastreio e prevenção evidencia uma fragilidade estrutural do sistema.
Meta distante até 2030
Portugal comprometeu-se com metas internacionais (ONUSIDA) para reduzir drasticamente novas infeções por HIV até 2030. No entanto, com a cobertura atual de PrEP muito abaixo do necessário e projetos de expansão sem financiamento, organizações alertam para um desequilíbrio crescente entre objetivos e realidade.
"Se queremos cumprir as metas de saúde pública, precisamos de escala. E escala exige investimento", resume Mendão.
Enquanto isso, centenas de pessoas continuam em lista de espera para um tratamento preventivo já reconhecido como altamente eficaz - mas ainda fora do alcance de todos os que dele necessitam.