Na Polônia, militantes desafiam a lei e instalam caixa para disponibilizar pílulas abortivas gratuitas

Uma caixa rosa instalada em frente ao Parlamento da Polônia tornou-se o novo símbolo da disputa em torno do direito ao aborto no país. Criada por ativistas feministas, a estrutura permite que mulheres tenham acesso de forma anônima e imediata a medicamentos usados em abortos, em um dos países com as leis mais restritivas da Europa.

30 set 2026 - 15h50
Resumo
Militantes desafiam a rígida legislação polonesa ao instalar o "abortomat", um dispensador de pílulas abortivas gratuitas em frente ao Parlamento. A iniciativa explora uma brecha jurídica: ajudar no aborto é punível com prisão, mas o autoaborto medicamentoso não é criminalizado. O projeto funciona como apoio e protesto diante de uma das leis mais restritivas da Europa, marcada por mortes maternas evitáveis e por impasses políticos que travam reformas legais no país.

Batizada de abortomat, a caixa possui 22 compartimentos que armazenam envelopes com pílulas abortivas. O equipamento fica dentro de um centro de apoio ao aborto criado por militantes há mais de um ano em um endereço altamente simbólico: do outro lado da rua do Parlamento polonês.

"É uma intervenção feminista destinada a mostrar o quanto tudo está de cabeça para baixo", afirmou à AFP Kinga Jelinska, diretora da fundação Women Help Women e cofundadora da Abortion Dream Team.

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"Estamos constantemente procurando soluções para tornar o acesso ao aborto mais simples, mais acessível, mais acolhedor e mais centrado nas pessoas", disse.

Mais do que uma clínica tradicional, o centro funciona como um espaço de orientação e acolhimento. Além de fornecer informações e apoio, oferece acesso às pílulas abortivas e um local onde mulheres podem realizar o procedimento medicamentoso.

Na Polônia, o aborto é permitido apenas quando a gravidez resulta de estupro ou incesto, ou quando representa risco à vida ou à saúde da gestante. Em 2020, uma decisão do Tribunal Constitucional eliminou a possibilidade de interrupção legal da gravidez em casos de graves anomalias fetais, motivo que até então respondia por quase todos os abortos legais realizados no país.

As restrições provocaram grandes manifestações e continuam gerando controvérsia. Dados do primeiro semestre de 2025 mostram que apenas 846 abortos legais foram realizados na Polônia.

Várias mulheres grávidas morreram em hospitais poloneses nos últimos anos, muitas vezes após médicos se recusarem a realizar abortos apesar de complicações, incluindo casos de sepse.

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Segundo as ativistas, a caixa explora uma brecha na legislação polonesa. Embora ajudar alguém a realizar um aborto possa resultar em até três anos de prisão, mulheres que interrompem a própria gravidez com medicamentos não são punidas pela lei.

"De certa forma, o abortomat contorna a legislação", disse Jelinska. Ela afirma que as pílulas são distribuídas por uma organização sediada fora da Polônia, uma estratégia adotada para reduzir os riscos legais para as pessoas envolvidas na iniciativa.

A criação do centro tem sido alvo de críticas de grupos católicos conservadores. Ao mesmo tempo, as promessas da coalizão governista de flexibilizar as leis sobre o aborto permanecem paralisadas por divisões internas, enquanto qualquer mudança aprovada pelo Parlamento pode enfrentar o veto do presidente conservador Karol Nawrocki.

A caixa rosa, portanto, tornou-se mais do que um meio de acesso a medicamentos: é também um ato de protesto contra uma das legislações sobre aborto mais rigorosas da Europa.

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Com AFP

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