'Coração de Lona': filme brasileiro em Biarritz destaca a resistência do circo itinerante nordestino

Único representante brasileiro na competição oficial de longas-metragens de ficção do Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz, o filme Coração de Lona, da diretora Tuca Siqueira e produzido por Rayssa Costa, teve sua estreia mundial nesta segunda-feira (28) no sudoeste da França. A RFI acompanhou.

29 set 2026 - 10h29
(atualizado às 10h56)
Resumo
Exibido no festival de Biarritz, o filme brasileiro "Coração de Lona", dirigido por Tuca Siqueira e gravado em Garanhuns (PE), retrata a resistência dos circos itinerantes nordestinos e a força das tradições populares. A trama acompanha Inês, mulher em luto que busca novos sentidos para viver, enquanto aborda transformações no interior causadas por parques eólicos. Usando um circo real e estética contemplativa, o longa reflete sobre sobrevivência, silêncio e a busca pelos próprios sonhos.

Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz

Ambientada no universo dos circos itinerantes do Nordeste, a obra acompanha a jornada de Inês, uma mulher que, após a perda de um filho, parte em busca de novos sentidos para a vida.

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Para Tuca Siqueira, o filme nasceu da admiração pelos artistas circenses e por sua capacidade de resistir às adversidades. "Os artistas são os grandes resistentes do mundo", afirma a diretora em entrevista à RFI em Biarritz. Segundo ela, o universo do circo traduz essa resistência de maneira particularmente intensa. "Os circenses se apresentam hoje para conseguir o que a gente chama do cuscuz, da refeição do dia seguinte", acrescenta. 

A diretora explica que o fascínio pelo universo circense não se baseia apenas no espetáculo do picadeiro, mas na capacidade de sobrevivência dos artistas. "Eu me encantei muito mais pela arte da sobrevivência dos circenses do que pelo próprio picadeiro", afirma. "Eles são grandes artistas da vida."

Mais do que um retrato de uma tradição cultural ameaçada pelas mudanças do mundo contemporâneo, Coração de Lona propõe uma reflexão sobre os sonhos individuais. "É um filme que fala sobre sonhos e provoca as pessoas a pensarem o quanto elas têm sido fiéis aos seus próprios sonhos", resume a cineasta. A protagonista, diz ela, "convoca a gente a pensar sobre isso".

Ao longo da narrativa, Inês encontra personagens inspirados em práticas populares do interior nordestino. Uma das cenas marcantes envolve uma benzedeira que utiliza leite materno para curar dores de ouvido. A inspiração veio das experiências de Tuca no documentário, área em que atua há mais de duas décadas.

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"Foi através da pesquisa de um documentário que eu ouvi sobre essa prática de mulheres benzedeiras que utilizam leite materno para sarar uma dor de ouvido", conta. Incorporar essa passagem à história teve um significado importante. Mesmo após não conseguir levar uma gravidez adiante, a personagem redescobre a força do próprio corpo. "Ela ainda carrega o leite em si no seu próprio corpo, e isso dá para ela uma força muito grande, um poder de seguir adiante", explica.

Tuca Siqueira, diretora de cinema. Em Biarritz, em 28 de setembro de 2026.
Tuca Siqueira, diretora de cinema. Em Biarritz, em 28 de setembro de 2026.
Foto: RFI

De Garanhuns para o mundo

O filme também aborda transformações recentes do interior nordestino. Em determinado momento, Inês retorna à casa da mãe e encontra a paisagem profundamente modificada pela instalação de parques eólicos.

Segundo a diretora, a situação retratada reflete uma realidade observada em partes do agreste pernambucano. Embora a energia eólica seja associada à transição energética, sua implantação também provoca impactos na vida cotidiana das comunidades locais. "As pessoas passam a tomar remédio porque têm que lidar com o ruído à noite, não conseguem dormir. Os animais se comportam de um jeito diferente. A rotina vai mudando", relata.

As filmagens aconteceram em Garanhuns, no interior de Pernambuco. A produtora Rayssa Costa explica que o circo retratado no longa não foi construído para a ficção, mas faz parte de uma pesquisa desenvolvida há anos pela diretora.

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"A gente procurou agregar valor àquelas pessoas que viviam realmente disso. Então o circo é real", afirma. 

A presença do filme na competição oficial de Biarritz representa um marco para a equipe. Rayssa destaca a emoção de ver uma história baseada na realidade brasileira alcançar um público internacional.

"Ver o Coração de Lona ganhando o mundo num lugar tão distante de onde ele foi gravado é motivo não só de orgulho, mas também de entender que a gente precisa sempre nutrir os nossos sonhos", diz.

Questionada sobre a possibilidade de conquistar um prêmio no festival, a produtora respondeu sem hesitar: "Sonhar a gente pode sempre. Isso é o que nos alimenta, é o que nos fortalece."

A diretora Tuca Siqueira vê uma coincidência entre a trajetória da personagem Inês e a estreia internacional do filme. Assim como a protagonista deseja mostrar o mundo ao filho, a equipe agora acompanha o percurso do longa para além das fronteiras brasileiras. "Faz todo sentido estrear esse filme aqui em Biarritz, tão longe de onde a gente filmou", observa.

Além da força visual das paisagens nordestinas, Coração de Lona apresenta momentos de silêncio e imagens contemplativas. O vento, elemento recorrente ao longo da narrativa, funciona quase como um personagem invisível. Para a diretora, a escolha estética é uma resposta ao ritmo acelerado da vida contemporânea.

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"Muita coisa é dita em silêncio", diz. "O mundo exige que a gente performe tanto, o tempo todo. E eu acho que Coração de Lona faz um convite para o inverso", ela propõe, definindo o longa como "um filme que costura para dentro".

Coração de Lona leva Pernambuco e o universo dos circos itinerantes a um dos principais festivais dedicados ao cinema latino-americano na Europa. E, como os próprios personagens do filme, sua equipe parece determinada a continuar sonhando.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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