Com a dívida pública no maior nível desde a Segunda Guerra Mundial e temores de uma crise na zona do euro, a França reacendeu o debate sobre a Previdência. O ex-primeiro-ministro Édouard Philippe propôs elevar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos e o tempo de contribuição para 45 anos, visando reequilibrar as contas e preservar investimentos estatais. A medida é defendida por especialistas como essencial, mas enfrenta forte resistência de sindicatos e da oposição de esquerda.
A dívida francesa atingiu o nível mais elevado desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O jornal Le Monde aponta que o fenômeno resulta de um processo de longo prazo, marcado pela queda do crescimento econômico e pelo aumento dos gastos ligados ao envelhecimento da população, especialmente com aposentadorias e saúde.
A mesma preocupação aparece no Le Figaro, que descreve a França como o "elo fraco da Europa". O jornal afirma que Bruxelas e outras capitais europeias observam com inquietação as finanças francesas.
A combinação de dívida recorde, crescimento fraco, aumento dos custos de financiamento e incertezas políticas leva alguns especialistas a não descartarem o risco de uma crise financeira com repercussões em toda a zona do euro.
Nesse contexto, ganha força o debate sobre a reforma da Previdência. O Le Figaro comenta o plano apresentado por Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro e candidato do partido Horizons à Presidência. Ele propõe elevar gradualmente a idade mínima de aposentadoria para 65 anos e ampliar o tempo de contribuição para 45 anos.
Segundo ele, a medida permitiria gerar cerca de € 30 bilhões em excedentes anuais e restaurar o equilíbrio financeiro do sistema de aposentadorias sem aumento de impostos ou redução de benefícios. No editorial do Le Parisien, sob o título Marges de manœuvre ("Margens de manobra"), o jornal argumenta que o peso crescente da dívida reduz a capacidade do Estado de investir em prioridades como educação, pesquisa, defesa ou transição ecológica.
"Não há plano B"
O editorial destaca que as aposentadorias representam quase um quarto de toda a despesa pública francesa e afirma que uma reforma previdenciária poderia ser hoje uma forma de recuperar o equilíbrio orçamentário. Segundo o texto, aceitar esforços nessa área seria também uma forma de solidariedade entre gerações, permitindo preservar investimentos voltados para os mais jovens.
Em entrevista ao mesmo jornal, Philippe afirma que "não há plano B" diante da pressão demográfica e do risco de desequilíbrio financeiro. O candidato sustenta que, sem uma reforma, será impossível financiar adequadamente áreas como saúde, serviços públicos, segurança e transição ecológica.
Já o Libération observa que o candidato tenta convencer os franceses da necessidade de um "remédio amargo" em meio à deterioração das contas públicas e destaca as reações contrárias de sindicatos e da esquerda. O líder da esquerda radical no país, Jean-Luc Mélenchon, acusou o ex-primeiro-ministro de querer fazer os franceses "trabalharem até morrer".