No Festival de Biarritz, a produtora Mariana Genescá destacou o cinema como ferramenta de transformação social ao apresentar dois documentários brasileiros que debatem políticas públicas. Enquanto Pau D’Arco expõe a violência agrária e a luta por justiça após o massacre de trabalhadores rurais no Pará em 2017, A Fabulosa Máquina do Tempo adota um tom lúdico e esperançoso ao retratar crianças beneficiadas por programas sociais no Piauí, contrastando dor e avanços do Brasil contemporâneo.
Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz
Enquanto um documentário revisita uma das mais violentas disputas fundiárias da história recente do Brasil, o outro mergulha no universo lúdico de crianças que descobrem o direito de imaginar o próprio futuro. Os dois longas documentários brasileiros em competição no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz têm em comum a produtora Mariana Genescá, que vê nas obras uma reflexão sobre o impacto das políticas públicas.
"São dois filmes muito diferentes entre si, mas que falam de coisas muito caras para a gente", resume a produtora. "Um é muito duro, muito difícil. O outro traz esse frescor e essa esperança."
Justiça após o massacre
Exibido em Biarritz na segunda-feira (28), Pau D'Arco, da jornalista e diretora Ana Aranha, acompanha os sobreviventes da chacina ocorrida em 2017 na Fazenda Santa Luzia, no Pará, quando uma operação policial terminou com a morte de dez trabalhadores rurais.
Segundo Mariana Genescá, o público francês demonstrou interesse tanto pela história quanto pelo contexto político brasileiro. O debate após a sessão permitiu discutir os desafios da reforma agrária, mas também avanços alcançados nos últimos anos.
Uma das principais conquistas destacadas pela produtora foi a regularização da terra ocupada pelas famílias que protagonizam o documentário. "O assentamento foi conquistado pelas famílias que ocuparam a terra. As famílias estão recebendo a posse da terra. Isso a gente considera uma importante vitória", comemora.
Além da questão fundiária, o filme acompanha a longa batalha judicial em torno do caso. Genescá destaca que a repercussão da obra contribuiu para manter o tema em evidência e ampliar a mobilização em torno do julgamento.
"Depois de oito anos parado, o julgamento foi agendado. Os policiais vão a júri popular e poderão finalmente ser julgados", afirma. Ela ressalta, porém, que ainda existem desafios importantes, entre eles a identificação e responsabilização dos mandantes do massacre.
Uma infância no sertão
O segundo documentário apresentado por ela em Biarritz, A Fabulosa Máquina do Tempo, da diretora Elisa Capai, troca o cenário dos conflitos agrários pelo cotidiano de crianças do município de Guaribas, no interior do Piauí.
Narrado por uma menina de dez anos, o filme acompanha a passagem da infância para a adolescência e nasceu de uma relação de longa duração entre a diretora e a comunidade. Guaribas ficou conhecida por ter sido a cidade-piloto do programa Bolsa Família.
Para Genescá, a obra oferece uma perspectiva otimista sobre o Brasil contemporâneo. "Esse filme é um sopro de esperança", define.
A partir do olhar infantil, o documentário aborda temas complexos como desigualdade social, machismo estrutural e alcoolismo. "A partir do olhar das crianças, de uma forma muito lúdica, a gente discute temas muito complexos e muito sérios", explica a produtora.
A história acompanha uma geração que cresceu com acesso a oportunidades antes inacessíveis para muitas famílias da região. "É uma geração de meninas que pela primeira vez tem o direito de sonhar, que tem comida na mesa, que pode frequentar a escola", destaca.
Da Berlinale para a França
Depois de estrear em fevereiro deste ano na mostra Generation do Festival de Berlim, na Alemanha, A Fabulosa Máquina do Tempo chega agora ao público francês.
A recepção na Berlinale, segundo a produtora, foi marcada por sessões lotadas e forte participação do público. A expectativa é que o interesse europeu pelo Brasil e pela América Latina contribua para ampliar o alcance da obra.
"Eu acho que eles vão aproveitar muito. Vão poder viajar com a gente nessa máquina do tempo", diz.
Cinema como transformação social
Para Mariana Genescá, a presença simultânea de dois documentários brasileiros na competição de Biarritz representa mais do que um reconhecimento profissional. É também uma oportunidade de mostrar como o audiovisual pode contribuir para o debate público.
"Eu acredito realmente no audiovisual como ferramenta de reflexão e de transformação social", afirma.
Em sua avaliação, Pau D'Arco e A Fabulosa Máquina do Tempo se complementam ao retratar duas faces do país: de um lado, a violência provocada pela ausência de direitos e políticas públicas; de outro, as possibilidades abertas quando essas políticas chegam à população.
"Que a gente possa usar os filmes como ferramentas de memória para não esquecer o que aconteceu", diz a produtora. "E que a gente possa também, com o audiovisual, sonhar futuros", conclui.