Uma nova onda de protestos liderada pela juventude ganha força globalmente, unida por pautas antifascistas e sociais. Na França, manifestações estudantis contra a precariedade da educação expandiram-se nacionalmente, unindo sindicatos e a esquerda radical sob forte repressão policial. O fenômeno reflete atos semelhantes na Espanha e no Brasil, recolocando as ruas no centro da política e mostrando o poder imprevisível das mobilizações populares para transformar o debate público internacional.
Thomás Zicman de Barros, analista político
"Sou fã dos franceses porque qualquer coisa eles vão lá e queimam carros". Esse era o nome de uma antiga página brasileira numa plataforma digital, que chegou a reunir mais de 130 mil seguidores. A brincadeira captava a velha tradição francesa de levar a indignação para as ruas.
A França está novamente em ebulição. Desta vez, como parte de uma nova onda de protestos simultâneos em diferentes países, cujas consequências políticas ainda são imprevisíveis. Em muitas dessas manifestações, o antifascismo aparece como bandeira comum, mesmo que os movimentos tenham origens e reivindicações diferentes.
Quando escrevi meu livro sobre os Gilets jaunes, os coletes amarelos, acompanhei um movimento que surpreendeu o país e desafiou o poder. Recentemente, alguns grupos que se reivindicam herdeiros dos coletes amarelos anunciavam querer voltar às ruas. Mas foram os estudantes que passaram na frente.
O movimento começou em meados de setembro, no liceu Saint-Exupéry de Créteil, na periferia de Paris. Professores protestavam contra a falta de pessoal e recursos. No dia seguinte, cerca de 200 estudantes bloquearam a escola em solidariedade. As imagens circularam nas redes sociais, outras escolas aderiram e, em poucos dias, a mobilização ganhou dimensão nacional. À reivindicação inicial somaram-se denúncias de salas superlotadas, prédios deteriorados e desigualdades no acesso à educação.
A expansão veio acompanhada de novas pautas, numa cadeia de solidariedade horizontal - o que os franceses chamam de "convergência de lutas". Estudantes de diferentes escolas, universitários, sindicatos e outros movimentos passaram a reconhecer suas próprias reivindicações nas demandas dos jovens. A precariedade da escola, a desigualdade social e a falta de perspectivas passaram a fazer parte de uma mesma contestação.
A essa mobilização, parte do governo e da mídia responde com um desdém paternalista, o mépris francês: como se, por serem jovens, os manifestantes não soubessem do que estão falando.
E se fosse um regime "autoritário"?
As imagens da repressão chocam - ou deveriam chocar. Jovens arrastados por policiais, mutilados por disparos e granadas, detenções em massa. O governo invoca a necessidade de manter a ordem diante de episódios pontuais de depredação. Mas fica a pergunta: se essas mesmas cenas viessem de um país considerado autoritário, como seriam recebidas pela imprensa internacional?
Um dos personagens que emergiram dessa crise é Bally Bagayoko, prefeito de Saint-Denis, ligado ao partido França Insubmissa. Imagens dele se colocando entre policiais e estudantes, tentando protegê-los, marcaram as redes. A mobilização pode acabar favorecendo a esquerda radical, que encontra nessa juventude descontente e temerária da extrema direita uma oportunidade de ampliar sua influência política a 7 meses das eleições.
A França não está sozinha. Na Espanha, jovens protestam contra a crise da habitação e o custo de vida. No Brasil, as enormes manifestações contra Flávio Bolsonaro expressam uma reação ao avanço da extrema direita. São movimentos diferentes mas que mostram como as ruas voltaram a ocupar um lugar central na política.
A experiência dos coletes amarelos e outras manifestações ensina que o que começa como pequenos protestos pode surpreender e transformar o debate nacional, ou até global. E também que ninguém controla inteiramente os rumos da revolta. A esperança reside no inesperado.