"Os italianos se manifestaram. Respeitamos essa decisão. Mas isso não muda nosso compromisso de continuar, com seriedade e determinação, trabalhando pelo bem da nação e honrando o mandato que nos foi confiado", declarou Meloni em vídeo publicado na rede social X, após o fechamento das urnas.
O referendo, realizado domingo (22) e segunda-feira (23), tinha como objetivo, segundo o governo italiano, de separar as funções de juízes e procuradores e reformar o Conselho Superior da Magistratura (CSM), órgão que supervisiona todos os magistrados. Meloni apresentou as medidas como essenciais para garantir a imparcialidade do sistema judicial, enquanto a oposição criticou a iniciativa, considerando-a uma tentativa de "controle político" e afirmando que não se enfrentava problemas estruturais, como a lentidão dos processos e a superlotação das prisões.
Segundo dados oficiais, mais de 58% dos eleitores compareceram às urnas, um índice muito acima das previsões. Especialistas políticos avaliaram o impacto do resultado.
"É um resultado muito ruim. Mostra que Meloni perdeu o apoio do eleitorado italiano em um ponto central de seu programa e em uma das propostas de destaque da direita dos últimos 30 anos", disse Daniele Albertazzi, professor de ciência política da Universidade de Surrey, no Reino Unido.
Ele acrescentou que, embora a imagem de invencibilidade da primeira-ministra tenha sido abalada, isso não significa que ela perderá automaticamente as próximas eleições.
Reação da oposição
Elly Schlein, líder do principal partido de centro-esquerda, o Partido Democrático, criticou a "arrogância" de Meloni, afirmando que ela deveria "ouvir o país e suas verdadeiras prioridades".
"Quando um líder perde sua autoridade, todos ao seu redor começam a duvidar, e ele simplesmente não pode agir como se nada tivesse acontecido", declarou à Rádio Leopolda Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro que renunciou há quase dez anos após perder um referendo.
Segundo o jornal de esquerda La Repubblica, essa derrota representa "a primeira derrota real" de Meloni.
Galeazzo Bignami, líder do partido Fratelli d'Italia (FdI), de Meloni, reafirmou na Câmara dos Deputados que o referendo não teria impacto sobre a permanência do governo. Já Giuseppe Conte, à frente do Movimento 5 Estrelas (M5S), comemorou o resultado em X: "Conseguimos! Viva a Constituição!". Conte classificou o voto como um "aviso de expulsão" ao governo e afirmou que seu movimento tem o direito de desempenhar um papel de destaque nesta nova fase política.
Lorenzo Castellani, professor da Universidade Luiss, em Roma, afirmou que "o governo terá de se esforçar para se manter diante dessa situação, e Meloni certamente sai enfraquecida". Segundo ele, a primeira-ministra poderá tentar alterar a lei eleitoral e organizar eleições antecipadas, o que, de forma realista, poderia ocorrer no início de 2027.
Com a derrota no referendo, Meloni enfrenta um desafio político importante, que altera o cenário para a oposição e abre espaço para negociações e estratégias antes das próximas eleições legislativas, testando a estabilidade de seu governo e a força de sua coalizão.
Ligação com Trump prejudicou Meloni
Embora a economia italiana continue fortemente endividada, o crescimento se manteve, principalmente graças à chegada maciça de recursos do plano de recuperação pós-Covid da União Europeia. No cenário internacional, Meloni buscou posicionar a Itália como uma voz de moderação diante da retórica às vezes agressiva entre o presidente norte-americano Donald Trump e a UE.
No entanto, sua proximidade com Trump também gerou críticas crescentes, especialmente em relação às ações do ex-presidente no Oriente Médio. A Itália, fortemente dependente das importações de energia, preocupa-se particularmente com o impacto da guerra nos preços dos combustíveis. Carlo Calenda, senador da oposição, escreveu em X que, em sua opinião, "a proximidade com Trump prejudicou muito Meloni e seu governo", explicando em parte a derrota no referendo.
Apesar disso, seu partido, Fratelli d'Italia (FdI), permanece à frente nas pesquisas, e Meloni conseguiu conquistar muitos críticos graças ao seu estilo de governar intenso e pragmático. A imigração irregular - tema central da última campanha eleitoral de Meloni e de seus aliados - está em queda, mas o governo também aumentou o número de vistos para trabalhadores legais não pertencentes à UE.
Roma reduziu alguns impostos, endureceu sanções contra manifestantes, mas ainda não enfrentou os problemas estruturais que muitos consideram um obstáculo ao desenvolvimento da Itália. Pesquisas indicam que os italianos estão mais preocupados com o poder de compra e com a estagnação dos salários. Outra reclamação importante refere-se ao estado do sistema de saúde pública, cujos investimentos não acompanharam a inflação.
A dívida permanece em um nível vertiginoso de 137% do Produto Interno Bruto, e o crescimento foi de apenas 0,5% no ano passado.
Com AFP