Fernanda Larsen, correspondente da RFI em Copenhague
Segundo a Agência Dinamarquesa de Repatriação, menos de cinco dessas pessoas a serem deportadas são mulheres, mas o número exato não é divulgado por razões de segurança. Para viabilizar as deportações, o governo mantém diálogo com o regime do Talibã, em uma cooperação classificada como técnica.
A iniciativa tem gerado reação de organizações de direitos humanos. "É inaceitável fazer um acordo com os talibãs sobre repatriação neste momento. Quando se descobre que há também mulheres entre eles, torna-se completamente incompreensível", afirmou Paula Larrain, assessora sênior da Anistia Internacional Dinamarca.
Mulheres sem direito
Embora o governo tenha enfatizado que a medida tem como alvo estrangeiros com antecedentes criminais, dados do Serviço de Imigração mostram que pelo menos 11 dos 57 afegãos não foram condenados por nenhum crime. São pessoas que tiveram pedidos de asilo negados, mas que ainda assim podem ser deportadas. As autoridades não informam quantas dessas pessoas são mulheres, nem qual é exatamente a situação jurídica delas.
O Afeganistão ocupa a última posição nos rankings internacionais de direitos das mulheres. No país, elas não podem estudar além do ensino básico, enfrentam restrições severas ao trabalho e não podem circular livremente sem um tutor masculino.
"Eles passam do melhor país do mundo na lista para o pior. Esse é o salto mais longo que se pode dar" afirmou Jens Vesterlund Mathiesen, especialista da Academia de Defesa Dinamarquesa.
Divisão política
A proposta tem provocado divisão no cenário político dinamarquês. "É horrível pensar que a Dinamarca possa enviar mulheres de volta para os braços do Talibã", disse Trine Pertou Mach, porta-voz da Aliança Vermelha-Verde.
Já setores mais duros defendem a deportação independentemente do contexto. "Se você é um estrangeiro com antecedentes criminais, deve voltar para casa, independentemente de ser homem ou mulher", afirmou o deputado Peter Skaarup.
Mas governo mantém a posição de que não deve haver distinção de gênero. "No que me diz respeito, isso se aplica a todos que não têm residência legal na Dinamarca, sejam homens ou mulheres", declarou o ministro da Imigração e Integração, Rasmus Stoklund.
Imigração mais rígida
A medida ocorre em meio ao endurecimento da política migratória no continente. Na cúpula da União Europeia realizada na última quinta-feira (19), em Bruxelas, a primeira-ministra Mette Frederiksen defendeu o reforço das fronteiras externas do bloco. "Nossa sociedade não consegue acomodar as pessoas que querem estar na Europa. Os problemas são muito grandes", afirmou a primeira-ministra dinamarquesa.