Gina Marques, correspondente na Itália da RFI
O principal objetivo de Marco Rubio é "reconciliar os laços" com o papa após os ataques de Donald Trump a Leão XIV. Mas o presidente dos Estados Unidos não está facilitando a missão do Secretário de Estado. Dois dias atrás, em entrevista ao Salem News Channel - uma rede conservadora de base cristã - Trump afirmou que o papa "está colocando muitos católicos e muitas pessoas em perigo", insinuando que Leão XIV é favorável a um possível arsenal nuclear para Teerã. O presidente disse: "Imagino que, se dependesse dele, seria perfeitamente aceitável que o Irã possuísse uma arma nuclear".
Leão XIV não tardou a responder. Sem citar o nome do presidente, o papa disse: "Se alguém quiser me criticar por pregar o Evangelho, que o faça com a verdade. A Igreja se manifesta contra todas as armas nucleares há anos, portanto, não há dúvidas quanto a isso", declarou o pontífice na terça-feira (5) no encontro com os jornalistas em frente do Castel Gandolfo, nos arredores de Roma. O papa enfatizou que "a missão da Igreja é pregar o Evangelho, pregar a paz". Ele concluiu: "Espero simplesmente ser ouvido pelo valor da palavra de Deus".
Impacto no eleitorado republicano
Na manhã desta quarta-feira (6) durante a audiência geral na Praça de São Pedro, Leão XIV disse que a Igreja Católica "deseja instaurar o seu Reino de justiça, amor e paz para toda a humanidade".
O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, também reagiu às declarações de Trump, sublinhando que o Papa mantém a sua linha de atuação centrada na mensagem evangélica e na promoção da paz.
"O Papa segue o seu caminho, no sentido de pregar o Evangelho, de pregar a paz", afirmou ontem o cardeal Parolin, acrescentando que essa missão se mantém independentemente das críticas.
No mês passado, Trump chamou o primeiro papa americano na história da Igreja de "fraco" e "terrível em política exterior" porque Leão XIV criticou a guerra no Irã. Depois das investidas, o pontífice respondeu que não tinha medo do governo Trump.
Estes ataques têm afastado grande parte do eleitorado católico americano do presidente. Os eleitores republicanos católicos representam cerca de 20% e podem lhe virar as costas nas eleições de meio de mandato em novembro.
Batizado católico logo após seu nascimento - e não convertido ao catolicismo na vida adulta como o vice-presidente J.D. Vance - Marco Rubio vai tentar remediar a crise provocada por Trump.
Leão XIV completa nesta sexta-feira (8) seu primeiro ano como líder da Igreja Católica, que conta com 1,4 bilhão de fiéis. Ele manteve um perfil relativamente discreto no cenário global nos primeiros meses de seu papado, mas emergiu nas últimas semanas como um crítico declarado da guerra dos EUA e Israel contra o Irã.
Cuba na agenda do Vaticano
Após a audiência com Leão XIV, no Palácio Apostólico, no Vaticano, o chefe da diplomacia dos Estados Unidos encontrará o Secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin.
Segundo o porta-voz do Departamento de Estado americano, Tommy Pigott, "o secretário Rubio se reunirá com a liderança da Santa Sé para discutir a situação no Oriente Médio e os interesses mútuos no Hemisfério Ocidental", mas as tensões entre os EUA e Cuba poderão fazer parte das conversações de Rubio com o papa.
Leão XIV também desaprovou as políticas anti-imigração do governo Trump e pediu diálogo entre os EUA e Cuba, país de maioria católica.
Em fevereiro, quando o governo Trump intensificou o bloqueio ao fornecimento de petróleo a Cuba, o sumo pontífice disse estar profundamente preocupado com as tensões entre os dois países.
O Vaticano tem agido como mediador e canal de diálogo entre os dois países, e teve um papel-chave no degelo das relações entre Cuba e Estados Unidos em 2015 promovido pelo Papa Francisco. Graças a um acordo com a Santa Sé, Cuba libertou 51 prisioneiros no último mês de março, num gesto que classificou como "espírito de boa vontade".
No ano passado, o governo cubano libertou 553 prisioneiros devido a um acordo com o Vaticano, após o ex-presidente Joe Biden anunciar a retirada de Cuba da lista americana de "Estados patrocinadores do terrorismo".
Trump rescindiu o acordo de Biden ao assumir o cargo, colocando o país caribenho novamente na lista, aplicando novas sanções à ilha.
Marco Rubio é filho de imigrantes cubanos nos EUA. Ele já havia se encontrado com o pontífice, nascido em Chicago, durante a Missa que marcou o início de seu papado. Naquela ocasião, também estava presente o vice-presidente Vance. No dia seguinte, 19 de maio, foi realizado um encontro bilateral entre Leão XIV, Vance e Rubio.
Encontro com Giorgia Meloni
O ataque do presidente dos Estados Unidos ao papa também desencadeou uma crise diplomática com a primeira-ministra Giorgia Meloni. Até então a premiê, líder do partido de extrema-direita Irmãos da Itália (Fratelli d'Italia) era considerada por Trump como uma grande aliada europeia.
No entanto, a guerra no Irã iniciada pelos Estados Unidos e Israel, com os danos econômicos do conflito, causou desaprovação no eleitorado conservador italiano. Por consequência, Meloni acabou se distanciando das posições do presidente americano.
Diante das agressões de Trump a Leão XIV, a primeira-ministra chamou as palavras do presidente de "inaceitáveis". O resultado é a Itália acabou na lista dos "vilões". Trump acusou Meloni de "falta de coragem".
"Não estou feliz com a Itália, ela não nos ajudou, acha que está tudo bem o Irã ter armas nucleares", atacou o presidente, usando as mesmas palavras que também dirigiu à Espanha.
Enquanto isso, na Alemanha, depois que o chanceler Friedrich Merz falou que os Estados Unidos estão sendo "humilhados" pelo Irã, o Pentágono anunciou a retirada de 5.000 soldados das bases no país. A Itália quer evitar que o governo de Trump decida aplicar uma medida semelhante e remover militares das bases estadunidenses na península que atualmente, conta com a presença de cerca de 12 mil militares americanos.
Pauta com governo italiano
O comunicado do Departamento de Estado dos EUA enfatiza que as reuniões com as autoridades italianas se concentrarão nos "interesses de segurança compartilhados e alinhamento estratégico" dos dois países. Isso significa que discutirão sobre a Otan e as bases militares americanas na Itália.
Em março deste ano, a Itália impediu os Estados Unidos de usarem a base aérea de Sigonella, na Sicília, para uma operação no Oriente Médio porque aviões americanos planejavam pousar sem autorização nem consulta prévia. Após verificar que não eram voos rotineiros, o chefe do Estado-Maior informou o ministro da Defesa, Guido Crosetto, que ordenou negar o pouso.
Entre outros temas na agenda está o Líbano — tendo em vista um possível encontro em Washington, no dia 11 de maio, entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o presidente libanês Josef Aoun, ainda a ser confirmado por ambas as partes.
Além disso, o papel da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) liderada pelo general italiano Diodato Abagnara. A retomada das tarifas também está na pauta, após o anúncio do presidente dos EUA, em 1º de maio, de um possível aumento de 25% nas tarifas sobre carros e caminhões provenientes da União Europeia.