A moção obteve 281 votos favoráveis, superando com folga os 233 necessários em um Parlamento de 464 cadeiras. O resultado derruba um governo empossado há menos de um ano e reacende temores quanto ao fortalecimento da extrema direita em um país considerado estratégico para a Otan e para a União Europeia.
As forças democráticas acusaram o PSD de "brincar com fogo" ao legitimar um partido ultranacionalista em rápida ascensão eleitoral.
Aliança que fortalece a extrema direita
Segundo o cientista político Costin Ciobanu, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, ouvido pela AFP, ao se associar à AUR o PSD transformou o partido de extrema direita em "um ator político central", rompendo um isolamento que vigorava até então.
O movimento ocorre em um contexto eleitoral desfavorável aos social-democratas: a AUR registra atualmente 37% de avaliações favoráveis nas pesquisas, superando o PSD nas intenções de voto. Ainda assim, o PSD segue como a maior bancada do Parlamento desde as eleições de dezembro de 2024, com 130 deputados.
Logo após a votação, o líder da AUR, George Simion, comemorou nas redes sociais o que chamou de "o fim de dez meses de impostos, guerra e pobreza impostos pelos falsos pró‑europeus".
Crise dentro do PSD e rejeição à austeridade
O PSD havia deixado oficialmente a coalizão de governo há cerca de duas semanas, em protesto contra o programa de austeridade fiscal implementado por Ilie Bolojan. O pacote buscava conter o déficit orçamentário da Romênia — o maior da União Europeia.
Após a aprovação da moção, o presidente do PSD, Sorin Grindeanu, declarou que seria "apropriado que Ilie Bolojan renunciasse imediatamente" para permitir a formação rápida de um novo governo.
Bolojan, de 57 anos, reagiu duramente, classificando a moção como "mentirosa e cínica". Ele afirmou que, ao assumir o cargo, aceitou enfrentar medidas impopulares, mas necessárias:
"Não fiz o que era popular, fiz o que era correto. Os problemas graves do país não vão desaparecer comigo", declarou.
Contexto político recente
A chegada de Ilie Bolojan ao poder, em junho de 2025, foi apoiada por quatro partidos pró‑europeus, incluindo o próprio PSD, e pôs fim a semanas de negociações após um período de grande turbulência iniciado com a anulação da eleição presidencial de novembro de 2024.
Aquela eleição havia sido marcada pelo avanço inesperado de um candidato de extrema direita até então desconhecido, em meio a suspeitas de interferência russa — um tema sensível para a Romênia, país na linha de frente oriental da Otan desde o início da guerra na Ucrânia, sua vizinha.
Garantia presidencial e impasse à vista
Na segunda-feira, 4 de maio de 2026, o presidente Nicusor Dan, também pró‑europeu, afirmou que a Romênia manterá sua orientação ocidental independentemente da crise parlamentar.
"As negociações serão difíceis, mas é minha responsabilidade — e a dos partidos — manter a Romênia no rumo correto", disse à imprensa.
Especialistas preveem longas negociações para formar um novo governo. Segundo Ciobanu, o cenário mais provável é a reconstrução da mesma coalizão pró‑UE, mas sem Ilie Bolojan no comando.
Reação internacional
Partidos de centro‑direita criticaram duramente o PSD por colaborar com a extrema direita, acusando-o de comprometer o futuro europeu do país. Cerca de 30 organizações não governamentais pediram que o Partido dos Socialistas Europeus (PSE) exclua o PSD caso a cooperação com a AUR continue.
O PSD, por sua vez, nega qualquer acordo duradouro com a extrema direita e afirma que o único objetivo comum foi a derrubada do governo Bolojan.
Para Ciobanu, o episódio revela sobretudo uma "crise de angústia existencial" no PSD, que perdeu parte de sua base eleitoral para a extrema direita e hoje não encontra uma estratégia clara para recuperar sua posição histórica.
A instabilidade política ocorre em um momento econômico sensível. O déficit romeno chegou a 7,9% do PIB no quarto trimestre de 2025, e o país está sob procedimento europeu por déficit excessivo desde 2020. Bruxelas já alertou para o risco de suspensão de fundos europeus caso não haja correção fiscal consistente.
Com AFP