Parlamento da Romênia derruba primeiro-ministro pró-UE em aliança entre centro‑esquerda e extrema direita

O Parlamento da Romênia aprovou nesta terça-feira (5) uma moção de censura contra o primeiro‑ministro Ilie Bolojan, líder pró‑União Europeia, abrindo uma nova fase de instabilidade política no país. A iniciativa foi viabilizada por uma aliança pontual entre o Partido Social-Democrata (PSD) e a extrema direita da Aliança para a Unidade dos Romenos (AUR).

5 mai 2026 - 11h03

A moção obteve 281 votos favoráveis, superando com folga os 233 necessários em um Parlamento de 464 cadeiras. O resultado derruba um governo empossado há menos de um ano e reacende temores quanto ao fortalecimento da extrema direita em um país considerado estratégico para a Otan e para a União Europeia.

As forças democráticas acusaram o PSD de "brincar com fogo" ao legitimar um partido ultranacionalista em rápida ascensão eleitoral.

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Aliança que fortalece a extrema direita

Segundo o cientista político Costin Ciobanu, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, ouvido pela AFP, ao se associar à AUR o PSD transformou o partido de extrema direita em "um ator político central", rompendo um isolamento que vigorava até então.

O movimento ocorre em um contexto eleitoral desfavorável aos social-democratas: a AUR registra atualmente 37% de avaliações favoráveis nas pesquisas, superando o PSD nas intenções de voto. Ainda assim, o PSD segue como a maior bancada do Parlamento desde as eleições de dezembro de 2024, com 130 deputados.

Logo após a votação, o líder da AUR, George Simion, comemorou nas redes sociais o que chamou de "o fim de dez meses de impostos, guerra e pobreza impostos pelos falsos pró‑europeus".

Crise dentro do PSD e rejeição à austeridade

O PSD havia deixado oficialmente a coalizão de governo há cerca de duas semanas, em protesto contra o programa de austeridade fiscal implementado por Ilie Bolojan. O pacote buscava conter o déficit orçamentário da Romênia — o maior da União Europeia.

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Após a aprovação da moção, o presidente do PSD, Sorin Grindeanu, declarou que seria "apropriado que Ilie Bolojan renunciasse imediatamente" para permitir a formação rápida de um novo governo.

Bolojan, de 57 anos, reagiu duramente, classificando a moção como "mentirosa e cínica". Ele afirmou que, ao assumir o cargo, aceitou enfrentar medidas impopulares, mas necessárias:

"Não fiz o que era popular, fiz o que era correto. Os problemas graves do país não vão desaparecer comigo", declarou.

Contexto político recente

A chegada de Ilie Bolojan ao poder, em junho de 2025, foi apoiada por quatro partidos pró‑europeus, incluindo o próprio PSD, e pôs fim a semanas de negociações após um período de grande turbulência iniciado com a anulação da eleição presidencial de novembro de 2024.

Aquela eleição havia sido marcada pelo avanço inesperado de um candidato de extrema direita até então desconhecido, em meio a suspeitas de interferência russa — um tema sensível para a Romênia, país na linha de frente oriental da Otan desde o início da guerra na Ucrânia, sua vizinha.

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Garantia presidencial e impasse à vista

Na segunda-feira, 4 de maio de 2026, o presidente Nicusor Dan, também pró‑europeu, afirmou que a Romênia manterá sua orientação ocidental independentemente da crise parlamentar.

"As negociações serão difíceis, mas é minha responsabilidade — e a dos partidos — manter a Romênia no rumo correto", disse à imprensa.

Especialistas preveem longas negociações para formar um novo governo. Segundo Ciobanu, o cenário mais provável é a reconstrução da mesma coalizão pró‑UE, mas sem Ilie Bolojan no comando.

Reação internacional 

Partidos de centro‑direita criticaram duramente o PSD por colaborar com a extrema direita, acusando-o de comprometer o futuro europeu do país. Cerca de 30 organizações não governamentais pediram que o Partido dos Socialistas Europeus (PSE) exclua o PSD caso a cooperação com a AUR continue.

O PSD, por sua vez, nega qualquer acordo duradouro com a extrema direita e afirma que o único objetivo comum foi a derrubada do governo Bolojan.

Para Ciobanu, o episódio revela sobretudo uma "crise de angústia existencial" no PSD, que perdeu parte de sua base eleitoral para a extrema direita e hoje não encontra uma estratégia clara para recuperar sua posição histórica.

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A instabilidade política ocorre em um momento econômico sensível. O déficit romeno chegou a 7,9% do PIB no quarto trimestre de 2025, e o país está sob procedimento europeu por déficit excessivo desde 2020. Bruxelas já alertou para o risco de suspensão de fundos europeus caso não haja correção fiscal consistente.

Com AFP

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