Itália: imigrantes são queimados vivos na Calábria e crime expõe escravidão moderna ligada à máfia

Em um crime que chocou a região da Calábria, no sul da Itália, quatro trabalhadores agrícolas imigrantes - três de nacionalidade afegã e um paquistanês - foram queimados vivos dentro de um veículo em Corigliano-Rossano, no dia 1º de junho de 2026. As autoridades prenderam dois suspeitos paquistaneses, identificados como "caporali", termo utilizado para designar intermediários que controlam de forma abusiva a mão de obra precária no país. O episódio brutal reacendeu o debate sobre o fenômeno do "caporalato" e a persistente exploração de imigrantes.

3 jun 2026 - 15h15

Anne Le Nir, correspondente da RFI em Roma

No sul da Itália, nos campos de frutas e hortaliças, os fazendeiros dependem cada vez mais da mão de obra estrangeira (foto ilustrativa).
No sul da Itália, nos campos de frutas e hortaliças, os fazendeiros dependem cada vez mais da mão de obra estrangeira (foto ilustrativa).
Foto: © Aldo Pavan/Gettyimages / RFI

Os detalhes do ataque revelam uma crueldade extrema. Segundo as investigações, os agressores teriam bloqueado as portas do automóvel e despejado gasolina no interior do veiculo, antes de atear fogo com um isqueiro. A identificação dos suspeitos foi possível graças às imagens de câmeras de segurança de um posto de gasolina e ao relato de um sobrevivente afegão, que conseguiu escapar das chamas ao pular por uma das janelas do carro.

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O jovem testemunhou que o motivo da violência seria uma cobrança de dinheiro feita pelos intermediários para cobrir os custos de transporte até as fazendas, valor que as vítimas não podiam pagar devido aos salários miseráveis e irregulares que recebiam.

O sistema de "caporalato" é descrito como uma forma de escravidão moderna, na qual esses intermediários recrutam trabalhadores para grandes explorações agrícolas, operando frequentemente com o apoio ou sob o controle de organizações mafiosas. Relatórios do sindicato CGIL apontam que aproximadamente 70% dos operários agrícolas nessas condições trabalham sem contrato formal.

Inspeção precária

Embora uma lei rigorosa tenha sido aprovada em 2025, prevendo até seis anos de prisão e confisco de bens para quem explora trabalhadores, a aplicação da norma enfrenta obstáculos logísticos. Atualmente, a Itália carece de pelo menos 6 mil inspetores do trabalho adicionais para fiscalizar as propriedades e garantir o cumprimento da legislação.

A exploração, contudo, não é exclusividade dos campos de frutas e vegetais do sul da Itália. O fenômeno se estende para setores como logística, indústria têxtil e construção civil, inclusive nas regiões mais ricas do norte e centro do país.

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Um caso recente em Milão envolveu a prisão de um dirigente de uma empresa de construção acusado de empregar clandestinamente centenas de trabalhadores indianos nas obras do novo consulado americano. De acordo com o Ministério Público, os operários eram submetidos a jornadas de 12 horas diárias, mesmo em períodos de doença, recebendo apenas dois euros por hora trabalhada.

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