Ataque à Parada Gay de Berlim expõe despreparo alemão para lidar com o terrorismo

Três dias após o ataque terrorista que matou uma cidadã polonesa de 65 anos e deixou 29 feridos na Parada Gay de Berlim, começa a vir à tona o perfil detalhado do principal suspeito. Abdul Ballout, de 21 anos, foi morto em confronto com a polícia no domingo (26), 24 horas depois de supostamente ter atropelado os participantes da parada. Ele tinha um histórico de radicalização ao islamismo conhecido da polícia, mas mesmo assim não encontrou dificuldades para planejar e executar o atentado.

28 jul 2026 - 07h58

Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf

Abdul Ballout era monitorado. Poucas semanas antes do ataque, o Departamento Federal de Polícia Criminal tinha classificado o suspeito como um "indivíduo de alto risco". Havia inclusive uma câmera secreta filmando a entrada da casa dele no bairro de Schöneberg, em Berlim. Isso porque o histórico desfavorável de Abdul Ballout era bastante claro.

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Em 2020, ainda na adolescência, ele se radicalizou ao frequentar uma mesquita no bairro de Neukölln, em Berlim. Em 2024, a polícia identificou postagens dele nas redes sociais promovendo o grupo terrorista Estado Islâmico. Em 2025, ele tentou duas vezes viajar à Síria para se juntar ao grupo. Na primeira vez, foi impedido pela polícia no aeroporto. Na segunda tentativa, ele conseguiu. No Líbano, foi preso e condenado por "incitação ao conflito religioso e sectário".

Cumpriu três meses lá e voltou a Berlim, onde foi preso novamente e condenado por planejar um grave ato de violência. Mas a condenação ocorreu em um tribunal juvenil, onde as penas são mais brandas. Na Alemanha, quando o réu tem entre 18 e 21 anos, o tribunal pode condená-lo de acordo com a legislação penal juvenil se estiver convencido de que o autor do crime se encontrava na fase de desenvolvimento de um menor de idade no momento do delito. Por outro lado, o mesmo se aplica: se um menor estiver no estágio de desenvolvimento de um adulto, o tribunal deverá aplicar a lei penal para adultos.

Seis meses depois da condenação, Abdul Ballout estava nas ruas novamente, solto sob custódia, mesmo constando em uma lista de 450 islamistas radicais monitorados pela polícia alemã. No dia do atentado, a polícia não identificou nada suspeito na saída dele de casa através das câmeras de segurança.

Leis de combate ao terrorismo em debate

A palavra que alguns políticos alemães estão usando para classificar o processo penal contra Abdul Ballout é "incompreensível". O prefeito de Berlim, Kai Wegner, disse que é preciso respeitar a independência do Judiciário em sua decisão, mas que, neste caso, ele está "sem palavras" para descrever o que foi decidido.

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O governador da Saxônia-Anhalt, Sven Schulze, que também é do CDU, o partido conservador do chanceler Friedrich Merz, disse que é preciso questionar por que uma pessoa como esta estava solta. Segundo ele, já que a deportação não é possível no caso de cidadãos alemães, então alterações na legislação penal devem ser consideradas. Vale lembrar que o acusado tinha de fato cidadania alemã, embora fosse filho de libaneses.

Segundo suspeito teria sido liberado

O próprio ministro do Interior, Alexander Dobrindt, reconheceu que é preciso discutir como foi possível suspender o cumprimento de pena de alguém identificado como uma ameaça potencial.

O Sindicato da Polícia Alemã também está pedindo poderes mais amplos para investigar arquivos em computadores e smartphones. Atualmente, a polícia tem acesso a isso apenas depois que um crime é consumado. Segundo o sindicato, as autoridades policiais simplesmente não possuem as ferramentas necessárias para detectar esses ataques com antecedência. "O problema é que, na Alemanha, a proteção de dados têm prioridade sobre a proteção das vítimas", disse o presidente do sindicato da polícia, Heiko Teggatz.

Segundo apuração do jornal Bild, um segundo suspeito do ataque à parada gay de Berlim, chamado Taymaz S., foi detido logo depois do atentado e liberado, já que não havia provas suficientes da sua participação. Taymaz é um iraniano que tem condenações por agressão qualificada, agressão a policiais, roubo em grupo e extorsão, e aguarda processo de deportação desde 2024. Logo após ser solto, ele desapareceu do monitoramento, e agora é considerado foragido.

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Associação gay evita críticas

A Associação do Orgulho Gay de Berlim alertou contra a exploração do ataque contra muçulmanos. A diretoria declarou que o terrorismo islamista deve ser identificado de forma clara e inequívoca, mas sem "qualquer tentativa" de explorar o ataque para incitar o ódio contra muçulmanos e pessoas de determinadas origens.

Já o Conselho Central de Muçulmanos na Alemanha condenou o ataque dizendo que "este seria mais um caso em que uma ideologia extremista utiliza indevidamente referências religiosas para justificar o ódio e a violência".

A próxima grande Parada do Orgulho Gay, que na Alemanha é conhecida por Desfile do Dia da Rua Christopher, está marcada para o dia 1° de agosto em Hamburgo e certamente terá segurança reforçada. Segundo o serviço alemão de inteligência, existem cerca de 9 mil pessoas na Alemanha que, assim como Abdul Ballout, fazem parte do meio islamista considerado violento.

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