Sindicatos, estudantes e coletes amarelos mobilizaram centenas de milhares de pessoas na França para pressionar o governo por reajustes salariais, aumento do salário mínimo e preservação dos serviços públicos, em meio à perda do poder de compra e cortes orçamentários. Com forte aparato de segurança, os atos geraram impactos limitados no transporte parisiense, além de críticas sindicais a restrições nos trajetos. Novas manifestações contra o custo de vida já estão previstas para as próximas semanas.
Esta é a primeira grande convocação sindical desde o fim das férias de verão. Segundo as centrais, a mobilização deve atingir níveis comparáveis aos observados durante os protestos contra a reforma da Previdência, em 2023, quando algumas jornadas reuniram até 1,3 milhão de manifestantes em todo o país, de acordo com as autoridades.
Para esta quinta-feira, a estimativa oficial aponta para a participação de 500 mil a 700 mil pessoas nas regiões fora de Paris e entre 40 mil e 80 mil na capital francesa.
Na véspera da mobilização, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou o deslocamento de 70 mil policiais em todo o país. O governo prometeu agir com "extrema firmeza" diante de eventuais episódios de violência ou vandalismo.
Apesar da greve, os impactos no transporte público da região parisiense eram considerados limitados nas primeiras horas da manhã. Alguns passageiros relataram atrasos e cancelamentos de trens, enquanto outros conseguiram se deslocar sem maiores dificuldades.
Salários e poder de compra no centro das reivindicações
Os sindicatos reivindicam a valorização do salário mínimo francês (Smic), reajustes salariais mais amplos, maior justiça fiscal, preservação de serviços públicos e melhores condições de ensino para os estudantes.
O debate sobre o salário mínimo ganhou destaque após o ministro do Trabalho afirmar esta semana que espera fazer anúncios sobre o tema "por volta de 5 de novembro", sem informar se haverá aumento real do benefício.
Para Frédéric Souillot, dirigente da central sindical Force Ouvrière (FO), o governo precisa acelerar as decisões sobre o salário mínimo e abrir rapidamente negociações salariais mais abrangentes. O sindicalista já menciona a possibilidade de novas manifestações e até de uma greve por tempo indeterminado.
Insatisfação cresce desde o fim do verão
A mobilização ocorre em meio ao aumento dos preços dos combustíveis e à apresentação de um projeto de orçamento marcado por cortes nas despesas públicas, fatores que alimentam o sentimento de perda de poder de compra.
Uma pesquisa divulgada na quarta-feira (4) por organizações de trabalhadores reunidas no chamado "Pacto pelo Poder de Viver", entre elas a central sindical CFDT, aponta que uma em cada duas pessoas afirma ter dificuldades para viver com a renda do próprio domicílio.
O movimento social vem crescendo desde o início de setembro. Além das reivindicações econômicas, parte dos manifestantes passou a denunciar restrições ao direito de protesto, após autoridades locais proibirem ou limitarem percursos de manifestações em várias cidades.
Disputa sobre percursos dos protestos
A questão dos trajetos autorizados para as marchas tornou-se um dos principais pontos de tensão entre organizadores e autoridades.
Em Toulouse, os sindicatos decidiram manter o percurso inicialmente planejado. Em Bordeaux, houve acordo entre organizadores e a autoridade local de segurança para a realização da manifestação no centro da cidade, embora algumas ruas comerciais permaneçam fora da área autorizada.
Em Lyon, a Justiça confirmou a decisão da direção regional da polícia que proibiu a realização do protestos no centro urbano e determinou um trajeto alternativo.
Já em Paris, o tribunal administrativo validou na noite de quarta-feira o percurso alternativo proposto pela prefeitura de polícia entre as praças da República e da Nação, contrariando a posição dos organizadores. Mesmo criticando a decisão, lideranças sindicais informaram que orientariam os manifestantes a seguir o trajeto autorizado.
A secretária-geral da CGT, Sophie Binet, acusou o governo de promover uma "deriva autoritária" e de restringir progressivamente as liberdades de manifestação. Críticas semelhantes foram feitas por organizações como o Sindicato da Magistratura, o Sindicato dos Advogados da França e a Liga dos Direitos Humanos, que recorreram ao Conselho de Estado.
Novos protestos já estão previstos
Os organizadores acreditam que a contestação social pode se prolongar nas próximas semanas.
A coordenação dos coletes amarelos convocou uma nova manifestação para sábado na Praça da Concórdia, em Paris, embora o ato esteja proibido pelas autoridades.
O grupo também anunciou a realização de ações coordenadas contra o alto custo de vida no fim de novembro, em conjunto com sindicatos e associações de defesa do direito à moradia de outros seis países europeus: Itália, Portugal, Espanha, Bélgica, Grécia e Reino Unido.
A mobilização desta quinta-feira é vista como um teste para medir a capacidade dos sindicatos de ampliar o descontentamento social além das reivindicações salariais e transformar a questão do poder de compra em uma das principais frentes de pressão sobre o governo francês nas próximas semanas.
Com AFP