A Cúpula Ibero-Americana começou em Madri sob forte tensão entre o premiê espanhol, Pedro Sánchez, e o presidente argentino, Javier Milei, que não terão reuniões bilaterais após sucessivos atritos diplomáticos. O evento busca revitalizar o diálogo regional e debater temas como inteligência artificial e educação, servindo também como termômetro da ascensão conservadora latino-americana, em meio a ausências de líderes de esquerda como Lula e Claudia Sheinbaum.
O encontro reúne os 22 países da comunidade ibero-americana, formada por 19 nações latino-americanas, além de Espanha, Portugal e Andorra. Os organizadores esperam revitalizar esse espaço de diálogo político, abalado nos últimos anos pela baixa participação de chefes de Estado e pelas dificuldades para alcançar consensos. Na edição anterior, realizada no Equador, apenas quatro presidentes participaram e não houve declaração final.
Desta vez, a expectativa é aprovar um documento conjunto e avançar em acordos sobre temas como inteligência artificial, cooperação diante de desastres naturais e educação. Entre os projetos em discussão está o desenvolvimento de modelos de linguagem treinados com dados em espanhol, reduzindo a dependência de sistemas baseados predominantemente no inglês.
Desde que chegou ao poder, no fim de 2023, o presidente argentino Javier Milei tem multiplicado os ataques contra o governo socialista espanhol. Há duas semanas, durante uma visita a Madri, ele chamou o primeiro-ministro Pedro Sánchez de "ditador inaceitável", "ladrão" e "corrupto", além de incentivar os espanhóis a derrotarem os socialistas nas urnas, às vésperas das eleições legislativas antecipadas de 29 de novembro.
As declarações provocaram forte reação do governo espanhol, que denunciou uma tentativa de ingerência estrangeira na campanha eleitoral. Em resposta, Sánchez, que costuma se apresentar como um político de esquerda "sem complexos", criticou a política econômica do argentino. "Motosserra e cortes orçamentários não constroem nada, destroem", afirmou recentemente.
Apesar da presença de ambos na cúpula, não está prevista qualquer reunião bilateral entre Milei e as autoridades espanholas. Segundo fontes do governo, o presidente argentino também não deverá se encontrar com o rei Felipe VI. Desde que assumiu a presidência da Argentina, Milei já visitou a Espanha diversas vezes sem manter contatos oficiais com os dois principais representantes do Estado espanhol.
O presidente argentino protagonizou ainda uma grave crise diplomática em 2024 ao chamar de "corrupta" a esposa de Pedro Sánchez, então investigada por suposto tráfico de influência. Em suas viagens mais recentes ao país, ele também demonstrou apoio à extrema direita espanhola e à presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, uma das principais figuras do campo conservador.
Lula não participa
Ao todo, sete presidentes latino-americanos deverão participar da cúpula em Madri. Além de Milei, estarão presentes vários líderes identificados com a direita latino-americana, entre eles o chileno José Antonio Kast, a costa-riquenha Laura Fernández, o boliviano Rodrigo Paz e o hondurenho Nasry Asfura.
Por outro lado, importantes nomes da esquerda regional não participarão do encontro. Entre as ausências mais notadas estão o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, segundo confirmou o Itamaraty. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum, que recentemente encerrou uma crise diplomática com Madri após o reconhecimento, pelo rei espanhol, dos abusos cometidos durante a conquista da América, também estará ausente. A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, não comparecerá ao encontro.
Para além dos debates sobre cooperação regional, a cúpula servirá de termômetro das novas relações de força na América Latina e do crescente peso das lideranças conservadoras no espaço ibero-americano, tendo Javier Milei como principal protagonista.
Com AFP