Segundo as autoridades espanholas, a organização realizou 64 travessias e transportou cerca de 2.000 pessoas. A investigação levou à prisão de 78 suspeitos ligados a um esquema que associava o transporte irregular de migrantes ao tráfico de ecstasy (MDMA).
Na frente diplomática, Madri classificou os controles italianos como "injustos, contrários aos interesses da União Europeia e discriminatórios", argumentando que nenhum dos migrantes que chegaram irregularmente a Ceuta pôde circular pelo espaço Schengen. A medida italiana, adotada após o fluxo inédito de migrantes no enclave espanhol, reacendeu tensões dentro da UE e provocou ameaça de retaliação por parte da Espanha. O episódio expôs divergências sobre a gestão de fronteiras e sobre o impacto político da migração irregular.
Paralelamente, a polícia espanhola detalhou a operação que desmontou uma organização criminosa transnacional responsável por 64 travessias marítimas entre Espanha e Argélia. O grupo transportou cerca de 2.000 pessoas e lucrou mais de € 24 milhões, utilizando embarcações rápidas que também levavam drogas sintéticas para o norte da África. Os migrantes eram submetidos a travessias "extremamente perigosas", sem coletes salva-vidas e, em alguns casos, amarrados para não cair no mar.
A investigação, conduzida desde 2023 com apoio de Europol e das polícias francesa, portuguesa e polonesa, resultou na apreensão de 18 embarcações avaliadas em até € 5 milhões. Segundo os investigadores, o valor dos barcos levava os traficantes a adotar "nível elevado de violência" contra agentes que tentavam interceptá-los. Quatro líderes da organização foram identificados entre os detidos, reforçando a avaliação de que o grupo operava há anos no Mediterrâneo.
Pressão política e impacto regional
Os controles italianos, instaurados em 31 de julho pelo governo de Giorgia Meloni, ampliaram o contencioso diplomático entre Roma e Madri. Críticos afirmam que a medida é sobretudo simbólica e voltada a satisfazer setores do eleitorado italiano que exigem ações mais duras contra a imigração irregular. A pressão interna sobre Meloni cresceu com o avanço do partido de extrema direita Futuro Nazionale, cujo discurso anti-imigração tem ganhado espaço entre conservadores.
A rota utilizada pela rede de tráfico coincide com o aumento das chegadas às ilhas Baleares, que se tornaram uma das principais portas de entrada para migrantes vindos do norte da África. O fluxo crescente tem pressionado autoridades locais e nacionais a reforçar operações de vigilância e combate a redes criminosas. A combinação entre tensões diplomáticas e ações policiais evidencia a complexidade da crise migratória no Mediterrâneo, onde decisões políticas e atividades ilícitas se retroalimentam.
O atrito entre Roma e Madri ocorre em um momento de sensibilidade para a UE, que enfrenta desafios internos ligados à segurança de fronteiras e à coordenação entre Estados-membros. A expectativa é que negociações ocorram nos próximos dias para evitar que o impasse se transforme em crise diplomática mais ampla, enquanto a Espanha tenta demonstrar capacidade de resposta tanto no plano policial quanto político.
Com AFP