Conheça o Iabloko, único partido antiguerra que tenta desafiar Vladimir Putin na Rússia

A condenação de Lev Chlosberg a mais de 11 anos de prisão e a exclusão do partido Iabloko das eleições legislativas representam mais um capítulo do encolhimento do espaço destinado à oposição na Rússia. Saiba quem é esse partido e por que suas lideranças estão sendo alvo da Justiça de Moscou.

18 ago 2026 - 12h58

O político russo Lev Chlosberg, vice-presidente do partido Iabloko, foi condenado a 11 anos e um mês de prisão na segunda-feira (17) por declarações críticas à guerra na Ucrânia. A sentença ocorre em meio a uma nova ofensiva das autoridades contra o único partido legalmente registrado no país que mantém uma posição abertamente contrária ao conflito iniciado por Moscou em fevereiro de 2022.

Segundo a Justiça russa, Chlosberg divulgou "informações falsas" sobre as Forças Armadas e promoveu ações destinadas a "descredibilizar" o Exército. De acordo com o partido, as acusações têm como base uma publicação feita no Telegram e a defesa pública, durante um debate, de um cessar-fogo na Ucrânia.

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Aos 63 anos, Lev Chlosberg é uma das figuras mais conhecidas da oposição democrática russa atual que decidiu permanecer no país após o início da guerra. Ex-deputado regional e dirigente do Iabloko, ele ganhou notoriedade por suas investigações sobre a participação de militares russos em conflitos externos e por suas críticas à concentração de poder no governo de Vladimir Putin.

Organizações de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, classificaram sua condenação como uma retaliação política contra uma das poucas vozes oposicionistas ainda ativas na Rússia. 

Chlosberg não é um caso isolado. Em junho, outro dirigente do Iabloko, Maxim Krouglov, foi condenado a sete anos de prisão por razões semelhantes.

Um novo Alexei Navalny?

Embora frequentemente colocados no mesmo campo da oposição ao Kremlin, Lev Chlosberg e Alexei Navalny representam correntes diferentes da dissidência russa. Navalny, que foi várias vezes excluído das disputas eleitorais, construiu sua trajetória como líder de um movimento nacional anticorrupção, apostando em mobilizações populares e investigações sobre a elite governante. Sua morte em uma prisão russa, em 2024, transformou-o no principal símbolo da oposição ao presidente Vladimir Putin.

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Já o Iabloko e Chlosberg representam uma tradição mais antiga da política liberal russa, baseada na atuação partidária institucional, na participação eleitoral e na defesa de reformas graduais.

O que os aproxima é o destino comum enfrentado por grande parte da oposição russa nos últimos anos: prisão, exílio, inelegibilidade ou severa restrição à atividade política.

Iabloko, uma exceção no cenário político russo

Fundado em 1993, após o colapso da União Soviética, o Iabloko (que significa "maçã" em russo) nasceu como um partido liberal, pró-democracia e defensor da aproximação com o Ocidente. Durante os anos 1990, a legenda teve presença relevante na política russa, mas foi perdendo espaço gradualmente à medida que o sistema político passou a ser dominado por forças alinhadas ao Kremlin.

Há mais de 20 anos o partido não consegue eleger representantes para a Duma, a Câmara baixa do Parlamento russo. Ainda assim, tornou-se uma exceção no cenário político atual por manter posição crítica à guerra na Ucrânia, enquanto praticamente todas as demais siglas autorizadas apoiam ou evitam questionar a política externa do governo.

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Neste ano, a Suprema Corte da Rússia decidiu impedir o Iabloko de participar das eleições legislativas previstas para setembro. Mesmo antes da proibição, pesquisas indicavam que o partido tinha cerca de 3% das intenções de voto, abaixo dos 5% necessários para obter representação parlamentar pelo sistema proporcional. Mas, na prática, a medida elimina oficialmente da disputa nacional a única legenda que defende explicitamente negociações de paz e o encerramento da guerra por meios políticos.

A decisão da Suprema Corte foi celebrada por grupos nacionalistas próximos ao Kremlin, mas criticada pela ONU e por entidades internacionais de direitos humanos, que argumentam que ela restringe ainda mais o pluralismo político no país. A exclusão do partido nas eleições também provocou reação nas ruas. Em Moscou, dezenas de apoiadores do Iabloko foram detidos durante um ato em frente à Suprema Corte, que analisava o recurso da legenda contra sua exclusão do pleito. 

A condenação de Chlosberg, a retirada do partido da disputa eleitoral e a punição de seus dirigentes ampliam as dúvidas sobre o nível de competição política permitido no país às vésperas de mais uma eleição legislativa. Com os principais líderes oposicionistas presos, exilados ou mortos, o Iabloko era visto por muitos eleitores como uma das últimas alternativas legais para expressar insatisfação com a guerra por meio do voto.

(Com agências)

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