Ao lado de novo prefeito, brasileira integra a gestão municipal de Saint‑Denis

A historiadora franco-brasileira Silvia Capanema, professora da Universidade Sorbonne Paris Nord, foi eleita para mais um mandato público: ela volta ao conselho municipal de Saint‑Denis, em função equivalente à de vereadora no Brasil. Integrante da equipe do prefeito recém‑eleito Bally Bagayoko, do partido A França Insubmissa (LFI), Silvia falou à RFI sobre a vitória expressiva conquistada por esse filho de imigrantes do Mali, que irá comandar uma cidade marcada por desigualdades, mas de forte identidade multicultural.

27 mar 2026 - 11h09

Silvia Capanema tem uma trajetória política consolidada em Saint‑Denis. Ela já havia sido vereadora de 2014 a 2020 e exerce, desde 2021, o segundo mandato como conselheira departamental de Saint‑Denis - instância administrativa que reúne mais cidades nesse território ao norte da capital francesa, onde fica o Stade de France. 

A vereadora franco-brasileira Silvia Capanema e o prefeito eleito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, na sede da prefeitura ao norte de Paris.
A vereadora franco-brasileira Silvia Capanema e o prefeito eleito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, na sede da prefeitura ao norte de Paris.
Foto: © Arquivo pessoal/Silvia Capanema / RFI

A eleição de Bally Bagayoko - com 50,7% dos votos, ainda no primeiro turno - marcou o fim da gestão de Mathieu Hanotin, prefeito do Partido Socialista (PS) que tentava a reeleição. A rejeição a Hanotin se enraízou sobretudo na recusa do projeto de gentrificação e transformação urbana da periferia que sua administração tentou impor à cidade.

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Durante seis anos, o governo socialista defendeu operações imobiliárias que, segundo Silvia, iam "aumentar o custo da moradia e expulsar a população mais pobre da cidade para outros bairros mais longe e 'emburguesar', de alguma forma, a população de Saint‑Denis". Ela afirma que o projeto provocou uma ruptura profunda entre a prefeitura e os moradores.

Resistência organizada

"A população sentiu isso como uma agressão muito violenta aos habitantes históricos" do município, diz Silvia. "Saint‑Denis não está à venda, não é uma cidade para ser privatizada, loteada com operações imobiliárias e a substituição de uma população."

Para ela, ao insistir nessa transformação urbana, o prefeito do Partido Socialista acabou indo contra a alma do território. "É uma cidade que conta muito com o movimento associativo, com o movimento político, com as classes populares que fazem parte de uma história marcada por trabalhadores, migrantes e imigrantes."

Silvia reforça que Saint‑Denis tem um tecido social resistente e organizado: "É uma população que luta, que se organiza, muito diversa e muito ativa. A cidade deve viver e existir em função dessa população que tem relação histórica com ela."

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Esse afastamento entre o governo municipal e seus habitantes abriu espaço para a ascensão de Bagayoko, cuja ligação com o território foi decisiva em sua vitória.

"Uma cria de Saint‑Denis"

Bally Bagayoko, 52 anos, é conhecido em toda a cidade. Educador esportivo, jogador de basquete e executivo da empresa de transporte público RATP, ele sempre atuou em associações, movimentos locais e encarna - aos olhos de muitos moradores - o espírito da cidade.

"Ele é aquilo que chamamos de uma cria de Saint‑Denis", diz Silvia. "Cresceu aqui, estudou na escola pública, treina clubes de basquete até hoje. É uma figura muito popular."

Essa identificação reflete também o perfil da população local. Saint‑Denis reúne mais de 140 nacionalidades, fruto de diversas ondas migratórias vindas, em grande parte, do antigo império colonial francês. "É uma população totalmente francesa, essa Nova França, muito diversa e muito ativa", afirma.

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Ataques racistas na campanha

Foi nesse cenário multicultural que as tensões da campanha se agravaram. Segundo Silvia, durante a disputa eleitoral, o prefeito socialista insinuou que Bagayoko - um homem negro - teria ligações com o tráfico de drogas. A relação implícita entre criminalidade e origem racial provocou revolta imediata. "Foi um escândalo. A população rejeitou imediatamente essa associação", relata a historiadora.

O episódio expôs um racismo estrutural ainda presente na política francesa. A ofensiva cresceu quando veículos de extrema direita começaram a sugerir que o candidato estaria "nas mãos de traficantes". "Foi chocante, mas mostrou como essa visão racista continua presente", diz.

No entanto, os ataques tiveram efeito contrário: reforçaram a legitimidade de Bagayoko e o transformaram em símbolo para uma nova geração de jovens franceses de origem imigrante.

"Com a astúcia e a inteligência dele, Bally mostra como é necessário denunciar esse racismo e, ao mesmo tempo, ser uma figura simbólica para as novas gerações", afirma Silvia. "Ele diz aos meninos negros e meninas da imigração que eles também podem ter responsabilidades políticas na França."

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Fusão de municípios contestada

Outro ponto sensível herdado da gestão anterior é a polêmica fusão entre Saint‑Denis e Pierrefitte‑sur‑Seine, que transformou as duas cidades vizinhas em um único município, com cerca de 150 mil habitantes. A medida foi tomada sem consulta, contrariando o forte apego dos moradores à noção francesa de "comuna" - base da democracia local. "Essa fusão foi feita sem consultar a população. É uma redução da democracia de proximidade", critica Silvia.

A nova administração pretende corrigir esse déficit democrático logo no início do mandato. "Nós vamos fazer o referendo que o antigo prefeito se recusou a fazer."

Três opções serão oferecidas: manter a fusão, desfazê‑la ou criar um modelo intermediário. Para Silvia, devolver essa escolha aos moradores é parte da identidade política da nova gestão de esquerda de ruptura. "Somos por mais democracia, por uma democracia mais direta. Isso faz parte da nossa visão: a revolução cidadã."

Contribuição brasileira

Além de sua experiência acadêmica e institucional, Silvia leva para a política local uma marca essencial de sua trajetória: sua formação brasileira. "Eu estou nesse lugar também por causa do Brasil, da criatividade, da força e da capacidade de resolver problemas que nossa experiência nos dá."

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Há 24 anos vivendo na França, ela vê sua presença na política como oportunidade para fortalecer a representação brasileira e ampliar pontes culturais e acadêmicas. "Eu sempre trago a cultura brasileira. Mostro que o povo brasileiro tem dignidade, conhecimento e peso internacional."

Para Silvia, sua presença no governo municipal também ajuda a abrir caminhos. "As mulheres brasileiras também podem ocupar cargos de responsabilidade e contribuir intelectualmente no exterior."

Ela observa ainda a crescente visibilidade da comunidade brasileira, presente em universidades, empresas, centros culturais e até nas mensagens do metrô parisiense, traduzidas em português. "Nós estamos aqui para abrir esses espaços coletivamente."

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