Brasil participa de reunião do G7 na França, marcada por tensões crescentes com os EUA

Os ministros das Relações Exteriores do G7 se reúnem nesta quinta (26) e sexta-feira (27) na França para discutir, entre outros assuntos, o conflito no Oriente Médio. O Brasil participa como país convidado.

26 mar 2026 - 09h27

Lúcia Mûzell, da RFI em Paris

Chanceler francês, Jean-Noël Barrot, comanda reunião de ministros das Relações Exteriores do G7 em Abbaye des Vaux-de-Cernay, na França. (24/03/2026)
Chanceler francês, Jean-Noël Barrot, comanda reunião de ministros das Relações Exteriores do G7 em Abbaye des Vaux-de-Cernay, na França. (24/03/2026)
Foto: AFP - THOMAS SAMSON / RFI

O chanceler Mauro Vieira está no país para os encontros, que acontecem em Abbaye de Vaux-de-Cernay, a 50 quilômetros de Paris. A prioridade para o Brasil são as discussões sobre "reforma da governança global, reconstrução, ameaças transversais e soberania", informou o Itamaraty. Ao lado da União Europeia, Vieira tomará a palavra na sessão de abertura, sobre estes temas.  

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O chanceler francês, Jean-Noël Barrot, dará início à reunião ministerial do G7 na tarde desta quinta-feira, com os representantes da Alemanha, Reino Unido, Canadá, Itália e Japão, mas sem a presença do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que está em Washington. Ele se juntará ao encontro apenas na manhã de sexta-feira, segundo e último dia de discussões.

A postura cada vez mais unilateral do governo americano sobre as grandes questões geopolíticas e econômicas globais deixam pouca esperança para avanços na agenda de reforço do multilateralismo e reforma das instituições internacionais, pauta tradicional do Brasil em reuniões como essa. Entretanto, "os ganhos são incrementais, acontecem passo a passo", indicou uma fonte da diplomacia brasileira. 

O G7 reúne as maiores potências desenvolvidas e acontece em formato ampliado, com a participação de outros países, há vários anos. Além do Brasil, os ministros das Relações Exteriores da Índia, Ucrânia, Arábia Saudita e Coreia do Sul foram convidados, assim como a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas.

Um dos objetivos de Paris será "abordar os principais desequilíbrios globais, que explicam, em grande parte, o nível de tensão e rivalidade que estamos testemunhando, com consequências muito concretas para os nossos cidadãos", disse Barrot à AFP.

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A cúpula de chefes de Estado e de Governo do G7 ocorrerá em junho, na cidade francesa de Evian. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve participar. Ele foi convidado e compareceu a todas as cúpulas do G7 desde que voltou ao Planalto, em 2023. 

Desescalada no Oriente Médio

Nas conversas nestes dois dias, o conflito em curso no Oriente Médio estará em foco. Os países do G7, com exceção dos Estados Unidos, continuam a pedir a desescalada na guerra, recusando envolvimento militar em um confronto com repercussões econômicas globais.

A França, que possui bases militares nos países do Golfo, está se esforçando para manter uma postura exclusivamente defensiva. A diplomacia italiana, por sua vez, "reafirmará o compromisso do país em promover a desescalada, bem como a disposição do governo italiano em contribuir para os esforços destinados a garantir a passagem segura pelo Estreito de Ormuz", enfatizou uma fonte diplomática italiana.

O Reino Unido e a França reunirão cerca de 30 países esta semana, dispostos a formar uma coalizão para garantir a segurança no Estreito de Ormuz, cujo trânsito comercial está praticamente paralisado desde o início do conflito. A guerra começou em 28 de fevereiro pelos ataques israelenses e americanos contra o Irã.

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Além de abordarem o Oriente Médio, os ministros do G7 e convidados dedicarão uma sessão de trabalho à guerra na Ucrânia, com a expectativa de que reafirmem seu apoio a Kiev. Jean-Noël Barrot garantiu à AFP que o apoio "à resistência ucraniana" e a pressão sobre a Rússia continuarão.

Divergências com os EUA

No passado, o grupo conseguia chegar a um amplo consenso sobre os desafios econômicos e geopolíticos que enfrentava. Essa união, entretanto, enfraqueceu desde que Donald Trump assumiu a Casa Branca, em 2025.

Os Estados Unidos pressionaram tanto seus aliados, quanto seus adversários a se adaptarem às mudanças de política decididas por Washington em questões diversas, como tarifas comerciais e o conflito na Ucrânia. Eles agora enfrentam um cenário semelhante com a guerra no Oriente Médio - que, segundo diplomatas e autoridades europeias, ainda não apresenta objetivos claros, nem uma estratégia de saída por parte de Washington.

O chefe do Estado-Maior da Defesa francês, Fabien Mandon, afirmou na quarta-feira que a imprevisibilidade de Washington está afetando os interesses e a segurança de seus aliados. "A postura dos Estados Unidos é um elemento desestabilizador no sistema internacional para todos os seus atores, não apenas para os membros do G7, mas também para a China e muitos outros países ao redor do mundo", disse Thomas Gomart, diretor do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri).

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Com AFP e Reuters

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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