França alerta para superexposição da população ao metal tóxico cádmio nos alimentos

Um relatório publicado na quarta-feira (25) pela Agência Nacional de Segurança Sanitária (Anses) da França mostra que as taxas de contaminação dobraram na última década no país e já atingem uma "parcela significativa" dos franceses, de crianças pequenas a adultos, em níveis considerados "preocupantes". Embora o novo alerta chame atenção, o problema não é recente: o metal pesado é classificado desde 2012 como cancerígeno, mutagênico e nocivo à reprodução.

26 mar 2026 - 10h21

O jornal Le Monde lembra que, segundo a Saúde Pública da França, o cádmio é "suspeito" de contribuir para o aumento acentuado da incidência de câncer de pâncreas no país desde 2021. A Anses pede uma ação urgente do governo para reduzir os limites permitidos de cádmio em materiais fertilizantes - especialmente os fosfatados, amplamente utilizados na agricultura francesa. Para a agência, essa é a única estratégia capaz de controlar a poluição dos solos, limitar a transferência do metal para os alimentos e reduzir a chance de a população ficar "impregnada" do material a longo prazo.

Cereais, pães, batatas: metade da população francesa está exposta a níveis excessivos de cádmio, será esta uma nova ameaça à saúde?
Cereais, pães, batatas: metade da população francesa está exposta a níveis excessivos de cádmio, será esta uma nova ameaça à saúde?
Foto: ASSOCIATED PRESS - Carolyn Kaster / RFI

O Les Echos também destaca os riscos associados à substância e lembra que a superexposição ao cádmio pode provocar efeitos graves, como fragilidade óssea, cardiovascular e renal. O metal, classificado como cancerígeno por inalação em ambiente profissional, também está associado a cânceres de bexiga, próstata e mama.

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O jornal explica ainda que a contaminação não se limita aos alimentos mais consumidos, como cereais, pães, batatas, massas e legumes: o cádmio pode ser inalado ou absorvido pela pele, conforme aponta o estudo mais recente da Anses.

Um "problema francês"

O tema é matéria de capa desta quinta-feira do Libération, que reforça a especificidade do caso na França: segundo o editorial, intitulado "Problema francês", os franceses estão entre os mais expostos da Europa, com níveis até três ou quatro vezes superiores aos registrados em países como Bélgica, Inglaterra e Itália, devido ao consumo elevado de produtos à base de trigo. "O alerta não deve ser minimizado", salienta o editorial. 

O Libération também contextualiza a preocupação atual com debates recentes sobre o modelo agrícola do país. O jornal cita as tensões que marcaram a votação da polêmica lei Duplomb, que permitia a reintrodução de certos agrotóxicos e motivou uma petição assinada por 2 milhões de franceses.

Para o diário, os sucessivos alertas mostram os riscos da agricultura intensiva e que são necessárias mudanças em todo o sistema alimentar — não apenas no uso de fertilizantes fosfatados.

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