Após protestos e batalha judicial, jovem paraplégica é submetida a eutanásia na Espanha

Uma jovem paraplégica foi submetida à eutanásia nesta quinta-feira (26), na Espanha, a seu pedido, após quase dois anos de batalha judicial com o pai, que se opunha à decisão. Noelia, 25, morreu no início da noite em um hospital de Sant Pere de Ribes, a 40 quilômetros de Barcelona (nordeste), informaram a TV espanhola e outros veículos, depois de a Justiça rejeitar, até as últimas horas, recursos apresentados por seu pai.

27 mar 2026 - 07h27

"Quero partir em paz agora, parar de sofrer. E ponto final", disse a jovem em sua última entrevista, exibida na quarta-feira pela Antena 3. Ela relatou ter tido uma vida marcada pelo sofrimento e por agressões sexuais na infância, quando estava sob tutela do Estado.

Manifestantes vestidos representando a morte protestam contra a lei que legaliza a eutanásia, em Madri, em março de 2021
Manifestantes vestidos representando a morte protestam contra a lei que legaliza a eutanásia, em Madri, em março de 2021
Foto: AFP - JAVIER SORIANO / RFI

"Não aguento mais. Não aguento mais esta família, não aguento mais estas dores", afirmou, acrescentando que "a felicidade de um pai, de uma mãe ou de uma irmã não deve estar acima da felicidade de uma filha".

O caso gerou debates no país sobre o fim da vida. A Espanha, marcada por forte tradição católica, é um dos poucos países da Europa que descriminalizaram a eutanásia, em 2021, mas as condições para sua aplicação continuam rígidas.

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A eutanásia de Noelia foi autorizada após uma longa batalha judicial com o pai, contrário ao pedido da filha, que se tornou paraplégica depois de se jogar do quinto andar durante uma tentativa de suicídio, em 2022.

"Não estamos diante de um caso de eutanásia. Estamos diante de um suicídio assistido", disse, pouco antes do procedimento, diante do hospital, o advogado da associação ultraconservadora Abogados Cristianos (Advogados Cristãos), José María Fernández, que representava o pai de Noelia.

Desde abril de 2024, Noelia havia iniciado os trâmites administrativos para pedir a eutanásia. "Ninguém na minha família é favorável à eutanásia", afirmou na entrevista ao canal espanhol. Ela disse que queria "partir em paz" e que não buscava "ser exemplo para ninguém".

A Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha considerou que o pedido estava de acordo com a lei, que permite que qualquer pessoa com plena capacidade mental, portadora de "doença grave e incurável" ou de sofrimento "crônico e incapacitante", solicite ajuda para morrer, desde que cumpra determinados requisitos.

Brecha jurídica

Poucos dias antes do procedimento previsto para agosto de 2024, a Justiça aceitou um recurso apresentado pelo pai, alegando que a filha sofria de transtornos mentais que poderiam "afetar sua capacidade de tomar uma decisão livre e consciente".

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Em março de 2025, Noelia reiterou, em audiência a portas fechadas, sua decisão de morrer. No fim de fevereiro, o Tribunal Supremo, em Madri, a mais alta instância da Espanha, rejeitou um novo recurso apresentado pelo pai, confirmando a autorização da ajuda para morrer. Tentativas posteriores de bloquear o processo em caráter emergencial foram rejeitadas, inclusive pela Corte Europeia de Direitos Humanos (CEDH), em Estrasburgo, que não se pronunciou sobre o mérito.

"Ver a lei ser contornada para algo como fizeram os Abogados Cristianos — encontrar uma brecha para tentar derrubar a legislação — nos deixou indignados e preocupados", afirmou à AFP Cristina Vallès, presidente da associação Direito de Morrer com Dignidade da Catalunha.

A entidade defende uma pequena alteração na lei para evitar que recursos desse tipo se arrastem e que terceiros interfiram em um processo já autorizado.

"A resposta verdadeiramente humana à dor não pode ser provocar a morte, mas oferecer proximidade, acompanhamento, cuidados adequados e apoio integral", criticou, em comunicado, a Conferência Episcopal Espanhola (CEE).

O Parlamento espanhol aprovou em 2021 a lei que descriminalizou a eutanásia, tornando a Espanha um dos poucos países que permitem que um paciente incurável receba ajuda para morrer para evitar "sofrimento insuportável". Desde a entrada em vigor da lei até o fim de 2024, 1.123 pessoas foram eutanasiadas no país, segundo dados do Ministério da Saúde.

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Com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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