Estreito de Bab al-Mandab: novas ameaças dos houthis podem gerar crise de transporte no Mar Vermelho?

Cerca de 12% do transporte marítimo de petróleo do mundo passam através do Estreito de Bab al-Mandab. Com o Estreito de Ormuz fechado, aliados do Irã ameaçam prejudicar ainda mais o comércio global.

21 jul 2026 - 17h43
(atualizado às 17h48)
O Estreito de Bab al-Mandab tem cerca de 36 km de largura e liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden
O Estreito de Bab al-Mandab tem cerca de 36 km de largura e liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden
Foto: Gallo Images via Getty / BBC News Brasil

Ameaças de aliados do Irã contra uma rota comercial de fundamental importância pelo Mar Vermelho trouxeram o receio de uma nova ruptura do comércio global.

O Irã já fechou com sucesso o Estreito de Ormuz, impedindo que navios saíssem do Golfo Pérsico. Agora, seus principais aliados no Oriente Médio ameaçam abrir outro front marítimo, no outro lado da Península Arábica.

Publicidade

Os houthis são um grupo rebelde apoiado pelo Irã, que controla o norte do Iêmen.

Eles anunciaram um "embargo marítimo" contra a Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos, no Estreito de Bab al-Mandab, uma importante via marítima que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho.

Pela rota, que leva ao Canal de Suez, passam cerca de 12% de todo o petróleo transportado por via marítima do mundo.

Na segunda-feira (20/7), o porta-voz militar dos houthis, Yahya Sarea, afirmou que o embargo foi declarado em retaliação ao bloqueio saudita de portos e aeroportos localizados em áreas controladas pelo grupo.

Publicidade

Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita condenou a acusação, declarando que o país "tomará todas as medidas necessárias para proteger seus navios, de acordo com a legislação internacional".

O Iêmen foi devastado por uma guerra civil que começou em 2014, quando os houthis depuseram o governo do país.

O conflito se intensificou em 2015, após a intervenção da coalizão de Estados árabes liderada pela Arábia Saudita, em uma tentativa de restaurar o governo.

Segundo as Nações Unidas, os combates deixaram mais de 150 mil mortos e desencadearam uma das piores crises humanitárias do mundo, com mais de 22 milhões de pessoas precisando de algum tipo de ajuda humanitária.

Mas será que os houthis realmente podem fechar o Estreito de Bab al-Mandab para os navios sauditas?

Mapa mostra a localização do Estreito de Bab al-Mandab, ao sul do Mar Vermelho, entre o Djibuti e o Iêmen. Ao norte do Mar Vermelho, o mapa destaca ainda o Canal de Suez, localizado no nordeste do Egito.
Foto: BBC News Brasil

Farea al-Muslimi é especialista em Oriente Médio do centro de estudos Chatham House, com sede em Londres. Ele declarou ao Serviço Mundial da BBC que o grupo detém poder de fogo suficiente para causar transtornos.

Publicidade

"Os houthis têm minas e desenvolveram a capacidade de operar drones marítimos nos últimos anos", segundo ele. E podem criar problemas, mesmo sem exercer um bloqueio total sobre o estreito.

"Tudo o que eles precisam é atingir um alvo", explica Muslimi.

"Mesmo se for simbólico, aquilo irá criar o pânico necessário entre as seguradoras, companhias de navegação e fornecedores de petróleo. Já são mais danos do que as pessoas podem imaginar."

"A estratégia iraniana após a guerra é prejudicar os aliados regionais dos Estados Unidos", prossegue ele. "Eles estão tentando carregar todos para o conflito."

O Irã já ameaçou "abrir outros fronts" na guerra. E o especialista em assuntos iemenitas Anwat al-Ansi concorda que os houthis estão cumprindo ordens de Teerã para tentar arrastar os sauditas para o conflito.

Publicidade

"O Irã deseja esta escalada porque é a sua única opção no momento", segundo Ansi.

"Os sauditas evitaram lutar contra Teerã, mas, agora, precisarão agir para defender seus interesses, se os houthis realmente atacarem", explicou ele ao Serviço Mundial da BBC.

Por que Bab al-Mandab é tão importante?

O Estreito de Bab al-Mandab fica entre o Iêmen, no lado árabe do Mar Vermelho, e Djibouti e Eritreia, no lado africano.

O tráfego marítimo proveniente do Oceano Índico e do Golfo de Áden precisa passar pelo estreito para ter acesso ao Canal de Suez.

Com 115 km de comprimento e 36 km de largura, Bab al-Mandab passou a ser uma conexão indispensável para o comércio mundial desde a abertura do Canal de Suez, em 1869, criando a rota marítima mais curta entre a Europa e a Ásia.

O corredor do Mar Vermelho, agora, é um dos mais movimentados do mundo. Cerca de 25% do tráfego marítimo global passam por ali.

Publicidade

O Estreito de Ormuz, praticamente fechado pela guerra, representa 20% do transporte mundial de petróleo. E o fechamento do Estreito de Bab al-Mandab prejudicaria outros 12% do petróleo global.

Cerca de 5 milhões de barris de petróleo, originários de países do Oriente Médio e da Ásia, passam pelo estreito diariamente com destino ao Ocidente, segundo a Administração de Informações de Energia dos Estados Unidos.

Além disso, 8% do transporte global de gás natural liquefeito (GNL) transitam pelo estreito, fazendo dele uma artéria fundamental para o abastecimento mundial de energia.

Desde o fechamento do Estreito de Ormuz, o Mar Vermelho ganhou ainda mais importância no comércio mundial.

A Arábia Saudita começou a usar Bab al-Mandab como ponto de trânsito para o fluxo do petróleo saudita a partir do porto de Yanbu. Riad transporta para lá por oleoduto milhões de barris de petróleo bruto por dia, dos seus campos no leste do país.

Publicidade

Além do petróleo bruto e do gás, o Estreito de Bab al‑Mandab é parte da principal conexão comercial entre o Oriente e o Ocidente. Dezenas de navios de carga passam por suas águas todos os dias.

O navio Ever Given bloqueou o Canal de Suez em 2021
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O eventual fechamento da passagem teria efeito similar ao que ocorreu em 2021, quando o navio de bandeira panamenha Ever Given encalhou, bloqueando o Canal de Suez.

O evento criou enormes gargalos em todas as cadeias globais de abastecimento, aumentando custos e gerando atrasos no fornecimento de petróleo e uma enorme variedade de mercadorias.

O papel dos houthis

Eventuais ataques ao Estreito de Bab al-Mandab provavelmente serão realizados pelos houthis, grupo político e militar apoiado pelo Irã no Iêmen.

Em declaração à agência de notícias Reuters em condição de anonimato, um líder dos houthis afirmou que o grupo está "militarmente pronto" para atingir o Estreito de Bab al-Mandab, em apoio a Teerã.

Publicidade

No dia 28 de março, os houthis lançaram um ataque contra Israel pela primeira vez desde o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Israel confirmou ter interceptado dois mísseis lançados do Iêmen.

Os houthis controlam o litoral iemenita do Mar Vermelho e atacaram o Estreito de Bab al-Mandab durante a guerra na Faixa de Gaza.

Atuando sozinho, o grupo atacou mais de 100 navios comerciais com mísseis e drones, afundando duas embarcações e matando quatro marinheiros.

Os houthis sequestraram o navio de carga Galaxy Leader em 2023
Foto: Houthi Military Media via Reuters / BBC News Brasil

Em novembro de 2023, o grupo usou um helicóptero para sequestrar um navio de carga britânico, com operadores japoneses, no Mar Vermelho.

Embora os houthis alegassem mirar apenas navios com vínculos israelenses, os ataques foram amplamente descritos como indiscriminados, forçando algumas das maiores companhias marítimas e petrolíferas do mundo a suspender o trânsito por aquela rota.

Os ataques acabaram diminuindo em meio a afirmações americanas de que os houthis haviam capitulado. O grupo respondeu dizendo que os Estados Unidos é que haviam se retirado.

Publicidade

Mas analistas receiam que as hostilidades possam recomeçar.

"Sempre se esperou que os houthis do Iêmen entrassem nesta guerra se ela se arrastasse", comenta a correspondente-chefe internacional da BBC, Lyse Doucet.

"Os houthis, que dominam o noroeste do Iêmen, até agora não fizeram uso da sua arma mais poderosa: a capacidade de interromper o tráfego por Bab al-Mandab, o gargalo na conexão marítima entre o Mar Vermelho e as rotas comerciais globais."

No dia 26 de fevereiro, a Administração Marítima do Departamento de Transporte dos Estados Unidos afirmou em declaração que, "embora o grupo terrorista houthi não tenha atacado navios comerciais desde o acordo de cessar-fogo entre Israel e Gaza, em outubro de 2025, os houthis continuam representando ameaça ao patrimônio dos Estados Unidos na região, incluindo navios comerciais".

O transporte global sob tensão

Dezenas de navios cruzam o estreito todos os dias, carregando milhares de toneladas de carga
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Bab al-Mandab significa "o portão das lágrimas", ou "o portão da dor", em árabe.

O nome é uma referência aos perigos enfrentados no local, que vão desde fortes correntes e ventos imprevisíveis até a pirataria e conflitos.

Publicidade

Entre 2008 e 2012, o Estreito de Bab al-Mandab e as águas que o cercam presenciaram numerosos ataques de piratas, principalmente de grupos somalis, que sequestraram tripulações inteiras, pedindo resgate.

Estes incidentes levaram a comunidade internacional e as companhias de navegação a ampliar a segurança na região.

O eventual bloqueio da passagem agravaria ainda mais a crise do mercado de energia, que já sofre tensões devido à situação no Estreito de Ormuz.

A interrupção da navegação no Golfo elevou os preços do petróleo tipo Brent de cerca de US$ 70 por barril, antes da crise, para mais de US$ 115.

O comércio global de uma vasta série de mercadorias também está sentindo os impactos, como produtos de consumo e commodities agrícolas.

Uma nova interrupção de mais uma rota marítima poderá elevar os preços ainda mais e aprofundar as consequências econômicas do conflito com o Irã.

Mohammed Albasha, da consultoria de riscos americana Basha Report, afirma que ainda não se sabe ao certo se os houthis começarão a atacar os navios que se dirigem à Arábia Saudita.

Publicidade

"Mesmo se não houver ataques, o anúncio em si provavelmente irá prejudicar a navegação e criar incertezas para os portos sauditas", declarou ele à agência Reuters.

"A questão crítica ainda é se os houthis partirão das ameaças para a ação direta."

BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações