Entenda por que o Iraque está sendo arrastado para a guerra no Oriente Médio contra a sua vontade

Por mais de dois anos e meio, desde o início da guerra em Gaza, o Iraque tem tentado se manter fora das tensões regionais. No entanto, o país continua sendo arrastado contra a sua vontade para a guerra travada pelos Estados Unidos e Israel contra seu vizinho, o Irã. Em um episódio recente que ilustra este cenário, pelo menos sete soldados iraquianos morreram na quarta-feira (25) no Iraque, em um ataque atribuído aos EUA.

26 mar 2026 - 15h15
(atualizado às 17h15)

Por Oriane Verdier, da RFI

Forças de segurança iraquianas montam guarda em um veículo blindado durante um cortejo fúnebre organizado em Bagdá em 2 de março de 2026. (Imagem ilustrativa)
Forças de segurança iraquianas montam guarda em um veículo blindado durante um cortejo fúnebre organizado em Bagdá em 2 de março de 2026. (Imagem ilustrativa)
Foto: © AHMAD AL-RUBAYE / AFP / RFI

A atual escalada nos conflitos do Oriente Médio começou no dia 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã com uma campanha de bombardeios massiva. Simultaneamente, outra frente se abriu, ainda que de forma mais extraoficial: diversos ataques aéreos não reivindicados atingiram a base aérea de Jurf al-Nasser. Essa base pertence às Forças de Mobilização Popular (FMP), grupos armados xiitas integrados ao exército iraquiano.

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"Esses grupos têm combatentes que operam fora da estrutura das Forças de Mobilização Popular", explica Robin Beaumont, cientista político e especialista em Iraque do think tank Noria. 

"Assim, uma célula com brigadas oficiais dentro das FMP cria uma facção ligada a elas, mas que não reivindica essa afiliação. Isso permite que realizem operações sem envolver o grupo que tem presença oficial dentro das forças armadas iraquianas. Alguns reconhecem explicitamente sua afiliação ao 'Eixo da Resistência' formado pelo Irã", detalha Beaumont.

Contudo, todos eles permaneceram à margem nos últimos anos, apesar das várias escaladas de tensão na região, inclusive durante a guerra de 12 dias travada por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã em junho de 2025. Desta vez, diante da agressão israelense-americana, o Irã também optou pela estratégia de regionalizar o conflito.

Poucas horas após os ataques às suas bases, grupos armados xiitas iraquianos iniciaram ofensivas contra instalações militares ocidentais no Irã, bem como contra missões diplomáticas e infraestrutura petrolífera. As trocas de tiros já duram um mês.

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"Cada vez menos a perder"

"O principal interesse desses grupos é a sobrevivência", explica o cientista político Robin Beaumont.

"Nos últimos anos, eles entenderam que, para isso, precisavam se transformar, pelo menos temporariamente, para enfatizar sua dimensão política em vez da militar. Mas hoje o cenário é diferente, principalmente devido à pressão norte-americana para desmantelá-los e devido a esta guerra, que lhes oferece a possibilidade de serem completamente aniquilados. Esses grupos, portanto, têm cada vez menos a perder e estão se engajando na guerra de uma forma verdadeiramente existencial", analisa o especialista.

No dia 17 de março, ataques aéreos atribuídos aos Estados Unidos mataram 15 membros das Forças de Mobilização Popular, parte integrante do exército iraquiano. Bagdá, que vinha tentando manter o país fora da guerra, foi forçada a autorizar um "direito de retaliação e autodefesa" para os grupos armados xiitas sob sua autoridade.

Mas na última terça-feira (24), a agressão foi além. Outro ataque aéreo atribuído aos Estados Unidos atingiu um hospital militar em uma base que abriga tanto pessoal das Forças de Mobilização Popular quanto o próprio exército iraquiano.

Sete soldados foram mortos. Isso constitui uma violação flagrante e perigosa do direito internacional, que proíbe "atacar instalações médicas e seu pessoal", afirmou o Ministério da Defesa iraquiano. O primeiro-ministro, Mohammed Chia al-Soudani, afirmou que o Iraque levará esses ataques ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Seu gabinete acrescentou ainda que também convocou o encarregado de negócios dos EUA.

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Curdistão iraquiano alvo do Irã

Mas essa frente não é a única que coloca em risco a estabilidade do país. Ao norte fica a região do Curdistão iraquiano. Esse território abriga bases ocidentais, bem como grupos curdos iranianos no exílio. No início da guerra, Donald Trump anunciou uma iminente ofensiva terrestre contra o Irã, lançada por combatentes curdos iranianos a partir do território curdo iraquiano.

Esses combatentes se recusam a realizar a ofensiva sem garantias norte-americanas e coordenação com outras forças no Irã. Eles continuam sendo uma ameaça para Teerã e foram alvos de diversos grupos armados xiitas iraquianos nas últimas semanas.

Na segunda-feira (23), mísseis iranianos foram disparados diretamente contra bases de combatentes curdos do Iraque. As autoridades regionais, como Bagdá, tentavam manter-se neutras. 

Na opinião de Asso Hassan Zadeh, um dos responsáveis na Europa do Partido Democrático do Curdistão iraniano, os curdos iraquianos estão sendo usados como moeda de troca nas negociações anunciadas por Donald Trump para chegar a um cessar-fogo.

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"Em qualquer guerra, durante as negociações, ambos os lados fazem o possível para manter a pressão militar", explica Zadeh. "O Curdistão iraquiano é uma área de operação natural para o Irã, já que abriga bases americanas. Também é verdade que o regime se sente mais vulnerável do que nunca; sabe muito bem que a resistência curda pode se reposicionar. Atacar os curdos iraquianos é uma mensagem enviada às autoridades regionais para restringir ao máximo nossa margem de manobra."

Após esses ataques, o Irã alegou oficialmente que se tratou de um equívoco. Por sua vez, embora condene o ataque, Erbil continua a reiterar sua vontade de manter boas relações com o vizinho iraniano.

Espiral das Crises

O Iraque foi assolado por esta guerra justamente quando começava a se estabilizar em um período de paz após décadas de destruição. Do conflito Irã-Iraque ao combate ao Estado Islâmico, incluindo as duas Guerras do Golfo, o país parecia estar gradualmente construindo seu futuro, em vez de concentrar seus esforços em curar feridas constantemente.

"Hoje, o Iraque sofre com problemas estruturais, um sistema político travado e com a corrupção, mas, do ponto de vista da segurança, havia uma melhora real", avalia Robin Beaumont.

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"Nos últimos anos, víamos jovens iraquianos da diáspora voltando e cidadãos que poderiam ter se dado ao luxo de partir decidindo ficar no Iraque. Havia uma diminuição da violência e governos que começavam a construir sua identidade política em torno de questões de desenvolvimento, construção de infraestruturas e assim por diante. A população era hostil à guerra. Hoje, toda essa dinâmica está sendo questionada", explica o cientista político.

Especialmente porque o país enfrenta esta guerra sem um líder eficaz. Após as eleições parlamentares do outono passado, a grande coligação de partidos xiitas, o Quadro de Coordenação Xiita, propôs um nome para primeiro-ministro: Nouri al-Maliki, que já ocupou o cargo e tem fortes ligações com grupos armados xiitas. Esta candidatura foi rejeitada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, evidenciando mais uma vez a interferência norte-americana nos assuntos internos do país e mergulhando-o num impasse político.

Atualmente, o primeiro-ministro interino Mohammed Chia al-Soudani permanece no cargo, mas está autorizado apenas a administrar os assuntos rotineiros.

"Esta guerra levou ao extremo as contradições deste regime iraquiano que, desde 2003, está preso entre as exigências contraditórias de seus dois principais aliados, o Irã e os Estados Unidos. Embora se pudesse considerar que o primeiro-ministro conseguiu manter seu país fora da guerra nos últimos dois anos, ele parece cada vez mais isolado e com cada vez menos controle sobre os grupos armados iraquianos que participam da regionalização da guerra", prossegue Robin Beaumont.

Consequências do fechamento de Ormuz

Junto às crises políticas e de segurança soma-se um colapso financeiro devido aos efeitos colaterais da guerra no Oriente Médio. A economia do país depende em 90% da exportação de hidrocarbonetos. Por isso, é particularmente afetada pelo fechamento do Estreito de Ormuz.

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Em um esforço de união nacional, as autoridades regionais do Curdistão iraquiano e as autoridades nacionais conseguiram chegar a um acordo para exportar o petróleo do país pela Turquia, através do oleoduto do Curdistão iraquiano. Mas isso permitirá suprir apenas um décimo das exportações pré-guerra.

"O Iraque pode rapidamente se ver na situação de não conseguir pagar os salários de seus funcionários públicos, incluindo os de suas forças armadas. Uma crise social viria então se somar às outras. Poderíamos ver o ressurgimento de grandes movimentos de mobilização", alerta Robin Beaumont.

O Iraque também é altamente dependente do Irã para muitos bens de uso diário. Ele utiliza o gás iraniano para fornecer eletricidade à sua população. Os ataques ao campo de gás iraniano de South Pars causaram importantes cortes no fornecimento. Embora as entregas de gás iraniano tenham sido retomadas no último fim de semana, elas permanecem abaixo do volume necessário para abastecer o país.

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