Acusado de tráfico de drogas juntamente com a esposa, Cilia Flores, de 69 anos, o ex-líder venezuelano, de 63, demonstrou estar relaxado: sorriu, fez anotações, conversou com seus advogados por meio de um intérprete, observando a imprensa. Ele vestia o uniforme cinza de presidiário.
Retirados antes do amanhecer da prisão no Brooklyn, onde estão detidos desde 3 de janeiro, Maduro e a esposa chegaram ao Tribunal Federal do Distrito Sul de Manhattan, onde algumas dezenas de opositores e apoiadores já aguardavam.
"Estamos buscando desesperadamente qualquer forma de justiça por tudo o que passamos", disse à AFP o educador venezuelano Carlos Egana, 30 anos, segurando um manequim representando Maduro com expressão sombria. "E o fato disso estar acontecendo, seja aqui nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar, é algo a se comemorar".
Perto dali, ativistas de pequenas organizações de esquerda exibiam cartazes criticando as políticas de Donald Trump: "Da Venezuela ao Irã, chega de sanções e bombas!". Pela manhã, uma breve confusão ocorreu entre membros dos dois grupos.
Apoiadores em Caracas
Enquanto isso, em Caracas, centenas de apoiadores do ex-presidente se reuniram na Praça Simón Bolívar, no centro da capital, para demonstrar solidariedade.
Presente ao protesto, o filho do ex-líder, o deputado Nicolás Maduro Guerra, declarou confiar "no sistema jurídico dos Estados Unidos", embora afirmasse que seu pai deveria gozar de "imunidade" devido ao seu status.
Apesar de Maduro e Cilia Flores terem se declarado inocentes, seus advogados pediram o arquivamento do processo, alegando que as sanções internacionais impostas pelos EUA impedem o Estado venezuelano de pagar os honorários da defesa. Segundo eles, isso viola um direito garantido pela Sexta Emenda da Constituição americana. A promotoria, por sua vez, sustenta que o casal possui recursos suficientes para custear sua defesa. "Não vou retirar as acusações", afirmou o juiz Alvin Hellerstein, sem definir uma nova data para a próxima audiência.
Maduro não se pronunciou publicamente desde sua audiência inicial, em 5 de janeiro, no mesmo tribunal, quando ele e a esposa foram formalmente indiciados. Na ocasião, adotou um tom desafiador, apresentando-se como "presidente em exercício da República da Venezuela", declarando-se "sequestrado" pelos EUA e afirmando ser um "prisioneiro de guerra."
Bíblia
Também nesta quinta-feira, em reunião na Casa Branca, Donald Trump disse à imprensa que "outros casos serão levados aos tribunais" contra o ex-chefe de Estado da Venezuela, sem fornecer detalhes.
Desde sua chegada aos EUA, Maduro e a esposa estão detidos no Metropolitan Detention Center (MDC), no Brooklyn, uma prisão federal conhecida por condições insalubres e problemas de gestão. Isolado em sua cela, sem acesso à internet ou a jornais, o ex-presidente — chamado de "o presidente" por alguns detentos — passa o tempo lendo a Bíblia, segundo pessoas próximas.
Enfrentando quatro acusações nos EUA, incluindo narcoterrorismo, Maduro é acusado de proteger e promover uma ampla operação de tráfico de drogas, principalmente por meio de alianças com grupos guerrilheiros e cartéis considerados "terroristas" por Washington. Sua esposa enfrenta três acusações.
Desde a captura do casal, o ex-motorista de ônibus que sucedeu Hugo Chávez e governou a Venezuela por 12 anos foi obrigado a ceder o poder à sua vice-presidente Delcy Rodríguez. Desde então, ela tem feito diversas concessões e gestos conciliatórios em direção aos Estados Unidos, enquanto Trump repete que agora é ele quem exerce, de fato, a liderança venezuelana a partir de Washington.
Com AFP