Uma enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete, provocada por um terremoto seguido de avalanche, deixou ao menos 95 mortos, 93 feridos e mais de 400 desaparecidos, a maioria turistas estrangeiros. As águas destruíram estradas, pontes e redes elétricas, afetando gravemente os distritos nepaleses de Rasuwa e Nuwakot e áreas sob controle chinês. Operações de resgate com helicópteros foram mobilizadas por ambos os governos em meio a graves danos de infraestrutura e comunicação.
Uma enchente repentina atingiu a fronteira entre o Nepal e o Tibete na manhã desta quarta-feira (26/8), deixando pelo menos 95 mortos e 93 feridos no lado nepalês, segundo autoridades locais. O balanço foi atualizado às 17h25 no horário local (8h40 no horário de Brasília).
Entre os desaparecidos estão quase 403 viajantes, sendo 341 estrangeiros e 61 nepaleses, segundo o atualização mais recente do Conselho de Turismo do Nepal.
Os estrangeiros são de 26 países diferentes. Há 133 desaparecidos da Índia, 47 dos Estados Unidos e 33 do Reino Unido.
Uma lista preliminar divulgada também incluía17 malaios, quatro sul-africanos, um australiano e um holandês — e outras dezenas de pessoas cuja nacionalidade ainda não foi confirmada.
Segundo o NTB, a maioria seguia rumo ao Kailash Mansarovar, no Tibete, e a rota afetada também dá acesso ao Parque Nacional de Langtang e ao lago sagrado de Gosainkunda.
O Itamaraty afirmou que, até o momento, não há informações sobre brasileiros desaparecidos.
A mídia estatal chinesa CCTV também relatou "grandes perdas de vidas" no lado tibetano da fronteira, controlado pela China.
O que causou a enchente
Segundo o ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shishir Khanal, informações preliminares indicam que um terremoto atingiu a região por volta das 8h37 (horário local) e provocou uma avalanche, que por sua vez desencadeou as enchentes repentinas. Khanal disse ao parlamento que as informações ainda estão sendo verificadas.
Segundo o ministro, os distritos de Rasuwa e Nuwakot foram os mais afetados, com destruição em estradas, pontes, redes de comunicação e infraestrutura hidrelétrica, incluindo danos ao projeto hidrelétrico de Trishuli. Ele afirmou ainda que 26 policiais, 9 policiais militares e 44 militares estão entre os desaparecidos, além de funcionários da alfândega e da imigração.
A polícia nepalesa informou que, das 18 mortes confirmadas até as 15h45 (horário local), uma ocorreu em Rasuwa, sete em Nuwakot, seis em Dhading e quatro em Gorkha — número que subiu para 31 horas depois.
Resgates em andamento
Um porta-voz do Exército do Nepal, Rajaram Basnet, disse à BBC que 88 sobreviventes já haviam sido resgatados, com tropas tentando resgatar outras 115 pessoas na vila de Mailung. Quinze helicópteros foram mobilizados para as operações de busca e resgate.
O Ministério do Interior do Nepal relatou grandes perdas de vidas e propriedades em Timure, Syabrubesi e Betrawati.
Autoridades sul-coreanas informaram que oito cidadãos do país, que trabalhavam na construção de uma usina hidrelétrica na região, estão "incomunicáveis", enquanto outros dez sul-coreanos aguardam resgate. O governo nepalês enviou um helicóptero para socorrê-los.
A embaixada dos EUA no Nepal relatou enchentes severas em Rasuwa e emitiu alertas para comunidades ao longo dos rios Bhote Koshi, Trishuli e Narayani.
Resposta da China
O presidente chinês Xi Jinping ordenou um esforço de resgate "total" para localizar os desaparecidos no Tibete, além de pedir reforço no monitoramento e nos sistemas de alerta antecipado para evitar novos desastres. O governo chinês também determinou o envio de equipes à região para operações de busca e resgate.
Yee Liang, empresário chinês baseado em Kathmandu, disse à BBC que sua empresa de logística tem sete caminhões na área atingida, todos com motoristas nepaleses, e que perdeu contato com todos eles por falta de sinal. Segundo ele, não havia alerta prévio, embora deslizamentos ocasionais fossem comuns na estação chuvosa — desta vez, disse, a situação "parece muito mais grave".
Já Guan Daoxuan, da província chinesa de Sichuan, relatou à BBC ter perdido contato com a esposa, que trabalha para uma construtora estatal envolvida em obras de estradas e pontes no Tibete. Segundo ele, autoridades nepalesas tentaram enviar um helicóptero para inspecionar a área, mas ventos fortes dificultaram o acesso.
O que mostram as imagens verificadas
A equipe de verificação da BBC (BBC Verify) confirmou vídeos que mostram uma ponte sendo arrastada pela correnteza e prédios de vários andares desabando com a força da água, na região de Trishuli Bazaar, distrito de Nuwakot, cerca de 25 km a noroeste de Kathmandu.
As imagens mostram o rio Trishuli aumentando rapidamente de volume e velocidade, carregado de sedimentos, até que a ponte se solta de suas estruturas e é levada pela correnteza — segundos depois, vários prédios desabam.
Um segundo vídeo, filmado no mesmo local, mostra o cenário após a enchente: o nível do rio consideravelmente mais alto, árvores e construções anteriormente visíveis já desaparecidas, e diversos imóveis próximos à margem destruídos, parcialmente desmoronados ou cobertos de lama.
Imagens de satélite comparando a região antes e três dias depois da enchente também mostram o rio Trishuli visivelmente mais volumoso e água espalhada pelas áreas ao redor.
Esta reportagem será atualizada com as informações mais recentes.