A demissão de Sigfrido Ranucci do programa investigativo Report pela emissora estatal italiana RAI gerou forte crise política. A oposição denunciou o ato como um ataque à liberdade de imprensa articulado pelo governo de Giorgia Meloni antes das eleições, enquanto aliados governistas apoiaram a saída. A decisão ocorreu após polêmicas envolvendo um atentado contra o jornalista, e a equipe do programa já ameaça uma debandada caso a direção da emissora pública não reverta o afastamento de Ranucci.
Os partidos de oposição da Itália denunciaram um ataque à liberdade de imprensa depois que a emissora estatal RAI afastou um jornalista veterano do cargo de apresentador de seu principal programa de investigação, enquanto os aliados do governo saudaram a medida.
O caso reacendeu um debate de longa data sobre a independência da RAI, cujo conselho é nomeado pelo Parlamento e pelo governo e cuja linha editorial, segundo os críticos, é moldada pela coalizão governista de momento.
Na noite de sexta-feira, a RAI anunciou a destituição de Sigfrido Ranucci após nove anos à frente do "Report", um dos programas de atualidades mais assistidos e influentes da Itália.
"Não apresentarei mais o 'Report', mas liderarei a batalha mais importante da minha vida: a luta pela liberdade de imprensa", disse Ranucci após tomar conhecimento da decisão.
O "caso Ranucci" tem dominado a cobertura da mídia italiana há semanas, e sua demissão foi a manchete dos principais jornais da Itália neste sábado.
O caso teve início com um ataque a bomba em frente à casa de Ranucci em outubro do ano passado, o que inicialmente gerou mensagens de apoio a ele de todo o espectro político.
A primeira-ministra Giorgia Meloni, cujo partido havia sido frequentemente alvo de investigações do "Report", condenou o "grave ato de intimidação", e o governo afirmou que a escolta policial de Ranucci seria reforçada.
No entanto, a postura dos políticos do governo mudou abruptamente quando o empresário Valter Lavitola, um antigo colaborador de Ranucci, foi preso neste mês e, segundo seu advogado, disse aos promotores que havia ordenado o ataque.
As autoridades não encontraram evidências de que Ranucci tivesse conhecimento prévio do atentado, mas a prisão de Lavitola desencadeou uma enxurrada de artigos na mídia pró-governo alegando uma conspiração para aumentar a popularidade de Ranucci antes de uma possível entrada na política.
A reação política à sua destituição reflete profundas divisões em relação à RAI, cuja governança, segundo críticos, há muito é considerada vulnerável à influência do governo.
O "Report" é um dos poucos programas de investigação da televisão italiana, onde o cenário da radiodifusão privada está historicamente ligado à política de centro-direita.
Elly Schlein, líder do Partido Democrático, de centro-esquerda, estava entre várias figuras da oposição que afirmaram que a demissão de Ranucci mostrava que enfraquecer o "Report" vinha sendo um objetivo de longa data do governo de direita, antes das eleições previstas para o próximo ano.
Os aliados de Meloni adotaram uma visão diferente. O vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, líder do partido nacionalista Liga, elogiou a decisão, afirmando que era a "correta" e pedindo esclarecimentos sobre as questões envolvendo Ranucci.
O presidente do Senado, Ignazio La Russa, do partido Irmãos da Itália, de Meloni, também expressou satisfação, tendo criticado frequentemente a linha editorial do programa.
A RAI não fez nenhuma referência às recentes controvérsias, limitando-se a afirmar que desejava fortalecer seu jornalismo investigativo e promover jovens talentos. A emissora ofereceu a Ranucci um cargo em outros programas de notícias ou como correspondente no exterior.
Mas, aumentando a pressão sobre a emissora estatal, jornalistas que trabalham no "Report" divulgaram um comunicado descrevendo a decisão como "inaceitável" e alertando que muitos membros da redação deixariam a emissora caso a direção não revertesse a decisão.