Classificado como "Super Niño", o fenômeno climático causa graves impactos na América Latina com previsão de durar até 2027. No Peru, o aquecimento das águas colapsou a pesca da anchova, forçando trabalhadores à informalidade. Na América Central, a seca extrema devastou as safras de subsistência no "corredor seco", impulsionando a inflação dos alimentos, a insegurança alimentar e a migração internacional, enquanto outras regiões enfrentam inundações históricas e severos prejuízos econômicos.
Paola Ariza, Raphael Moran e Géraud Bosman-Delzons, de Paris, e Martin Chabal, correspodente da RFI em Lima.
No porto de Callao, na periferia de Lima, capital peruana, os pelicanos esperam em vão pelos barcos carregados de peixe. Dezenas de embarcações continuam imóveis nas águas acinzentadas, sem atividade. Pedro Martin, 62 anos, representa um dos sindicatos de pescadores. Ele está desolado: "chegamos a este ponto, os barcos estão parados no cais por causa de El Niño".
O retorno do fenômeno climático, o "filho terrível" do Pacífico, que nasce nessa região, vem sendo apontado desde a primavera pelos climatologistas. Apenas sua intensidade permanecia incerta, mas ela não para de se confirmar. O El Niño, que ocorre a cada dois a sete anos, combina o aquecimento das águas (até cerca de 300 metros de profundidade) ao longo do Equador com uma mudança no regime dos ventos e da pressão atmosférica. Seus efeitos se espalham pelo planeta e provocam eventos meteorológicos que variam conforme a região: seca ou inundações, calor extremo e furacões mais numerosos e mais fortes.
Uma queda vertiginosa na pesca
Os pescadores peruanos são a sentinela desse fenômeno oceano‑climático. Eles foram os primeiros, há muito tempo, a perceber que a pesca se tornava menos abundante quando as águas ao largo do país se aqueciam em dezembro, período do Natal cristão, o nascimento do "Menino" (El Niño) Jesus.
No Peru, o Instituto do Mar (Imarpe) registrou recentemente temperaturas até 6 °C acima da média em algumas áreas marítimas. Os peixes são sensíveis a qualquer variação térmica. As anchovas, que se reproduzem em águas frias e ricas em nutrientes, migram então da costa para zonas profundas, inacessíveis às redes. Principal recurso pesqueiro do Peru, elas são a matéria‑prima da farinha de peixe, usada na alimentação de animais de criação e na nutrição dos solos.
O governo encerrou a temporada de pesca da anchova em 19 de agosto. Mas as embarcações industriais já não se aventuravam no mar desde maio, por falta de estoques. O resultado foi um colapso nas capturas: apenas 32.800 toneladas de anchova foram pescadas em maio de 2026 no país, maior produtor mundial. O volume representa uma queda brutal em relação às 1,3 milhão de toneladas de maio de 2025.
Para os pescadores, trata‑se de uma verdadeira catástrofe. O emprego e a economia são afetados. Cerca de 8 mil pescadores industriais estão registrados, e essa atividade também gera milhares de postos de trabalho em terra.
A pesca da anchova sofre um "golpe muito duro", confirmou Jessica Luna, presidente da Sociedade Nacional de Pesca. Em condições normais, uma segunda temporada começaria em novembro. Mas agora ela é incerta, explica a representante do setor. "Como já sabemos pelas projeções", nesse mês o "El Niño começará com força e fúria", lamenta.
Super Niño
A pescadora tem razão, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), que vem emitindo alertas mensais desde a primavera. "O El Niño está solidamente instalado e vai se tornar um fenômeno de intensidade muito forte nos próximos meses", declarou em 3 de setembro Celeste Saulo, secretária‑geral da OMM, em entrevista coletiva. O pico é esperado para dezembro.
"As previsões indicam uma probabilidade excepcionalmente alta, próxima de 100%, de que o fenômeno El Niño se mantenha até fevereiro de 2027. As temperaturas da camada subsuperficial do oceano estão excepcionalmente elevadas. Em algumas áreas, observam‑se índices 8 °C acima da média para agosto. Isso significa que há uma grande quantidade de água muito quente que alimentará a intensidade do El Niño", indicou a secretária‑geral da OMM. Os especialistas já o classificam como "Super Niño". Apenas três episódios do tipo foram registrados desde o início das medições modernas: 1982‑83, 1997‑98 e 2015‑16.
Quando pescadores viram pedreiros ou taxistas
O continente latino‑americano ilustra bem esses contrastes meteorológicos. Calor e seca predominam na América Central, no Caribe e no norte da Colômbia e da Venezuela, com um déficit hídrico particularmente grave no corredor seco centro‑americano. No Panamá, as autoridades do Canal reduziram o tráfego marítimo por falta de chuvas, afetando o ritmo do transporte global de mercadorias.
Na direção oposta, chuvas fortes e inundações são frequentes ao longo das costas do Equador e do Peru, no centro do Chile e no sul do Brasil, no Uruguai, no Paraguai e no norte da Argentina. Em julho deste ano, esses países foram atingidos por tempestades e precipitações intensas. Santiago, capital do Chile, registrou 101,5 mm de chuva em dois dias, o maior volume para julho em quarenta anos, segundo o jornal francês Le Monde.
Embora seja difícil prever com precisão a magnitude das catástrofes, a agência meteorológica da ONU pede que os governos se preparem. "O El Niño pode representar um golpe duro às comunidades e às economias do mundo inteiro", alertou Celeste Saulo.
"Com sistemas de previsão sazonal entre seis e nove meses de antecedência, os cientistas permitem que diversos atores antecipem e gerenciem riscos climáticos nos trópicos e ao redor do Pacífico", explica Eric Guilyardi, oceanógrafo e climatólogo do CNRS, o Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França. ONGs humanitárias estocam alimentos no leste da África, indonésios antecipam o plantio do arroz, e o Peru regula a pesca.
Em nota publicada no fim de julho, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou para "o desafio maior para o emprego" imposto por El Niño 2026‑27 na América Latina, onde grande parte das economias é informal. "A dimensão de seus efeitos dependerá da capacidade dos países de antecipá‑los, com instituições de trabalho sólidas, sistemas de proteção social e diálogo social capazes de proteger os mais vulneráveis", afirma Fabio Bertranou, diretor‑adjunto da OIT para a América Latina e o Caribe. Construção, logística, transportes, turismo e produção de energia: poucos setores escapam às consequências de um clima desregulado. E o fenômeno pode ainda "aumentar o risco de trabalho infantil nos lares mais vulneráveis, devido à deterioração dos meios de subsistência".
Mas entre os alertas científicos e a reação política necessária para a adaptação, há um abismo. Embora o número de mortes tenda a cair graças à prevenção, os custos seguem na casa dos bilhões de dólares. No Peru, as primeiras enchentes de agosto serviram de aviso a um país que não parece preparado.
Entre os pescadores, o sentimento de abandono é generalizado. "As empresas não nos ajudam. Não recebemos nada, nem do Estado", diz Pedro Martin. "Era preciso antecipar, criar subsídios durante o período de El Niño para que pudéssemos sobreviver", reforça. Muitos pescadores peruanos já tiveram de se reinventar: alguns viraram taxistas, outros entregadores de comida.
O mesmo desalento aparece em Chimbote, grande cidade pesqueira a mais de 400 quilômetros ao norte de Lima. "Alguns de nós agora trabalham no transporte público, na construção civil, nas minas", relata à AFP o pescador Santiago Bocanegra, mencionando os membros do sindicato que dirige.
Guatemala: perdas agrícolas massivas e generalizadas
Outro relatório, conduzido em julho e agosto por Oxfam e Ação Contra a Fome e publicado no fim de agosto, descreve a situação humanitária já crítica no "corredor seco" da América Central, que abrange Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua. Cerca de 10 milhões de pessoas vivem ali, a maioria dependente da agricultura de subsistência.
Entre os 354 grupos comunitários analisados (91 mil famílias rurais) em 58 municípios dos três primeiros países, a questão já não é quanto as famílias vão produzir, mas por quanto tempo conseguirão resistir sem novas perdas.
Das 73 mil propriedades que plantaram milho no primeiro ciclo de 2026, cerca de 70 mil relataram colheitas devastadas às duas ONGs e seus parceiros locais. A cultura do feijão também foi severamente afetada. Além disso, mais de 23 mil famílias informaram acesso reduzido às fontes de água.
"Observamos uma perda generalizada das colheitas devido à seca provocada pelo El Niño", resume Iván Aguilar, responsável humanitário da Oxfam na América Central. "Focamos sobretudo nas lavouras de milho e feijão, base da alimentação no corredor seco. 78,6% das famílias das comunidades avaliadas perderam praticamente 100% de suas colheitas." Plantações de café também foram destruídas. Por consequência, a oferta de trabalho rural diminui, acrescenta Aguilar.
Inflação nos alimentos e migrações em alta
É o caso de José Hernández, agricultor de milho e feijão em Jocotán, no sul da Guatemala. Ele espera pela chuva com ansiedade, porque hoje não pode trabalhar.
"Em junho, só choveu durante duas tempestades. Em julho, agosto e setembro, não caiu uma única gota. Algumas lavouras de milho chegaram a florescer, enquanto outras apenas germinaram, as que foram plantadas mais tarde. Depois, tudo secou completamente. Este ano, a colheita foi totalmente perdida na minha comunidade", resume.
Iván Aguilar ressalta que essa seca vai muito além dos fenômenos observados anteriormente. "Na temporada de colheita do fim do ano, que é o segundo ciclo agrícola anual para as famílias da zona árida, as chuvas foram muito escassas, e as previsões não são animadoras. Os institutos meteorológicos estimam que setembro e outubro continuarão bastante secos. Isso vai dificultar a retomada do ciclo de fim de temporada em comparação com outros anos. Em geral, pelo menos um dos dois ciclos rende alguma colheita, mas este ano nenhum deles será produtivo. Isso é o mais duro", avalia o responsável humanitário da Oxfam na América Central.
No fim da cadeia, a inflação pesa no carrinho de compras: os preços dos alimentos básicos subiram de 11% a 54% na Guatemala, de 12% a 40% em Honduras, e até 85% (açúcar) em El Salvador, entre julho‑agosto de 2025 e julho‑agosto de 2026. Dezenas de milhares de famílias precisam de ajuda alimentar ou financeira, afirma o relatório. Isso leva a outra consequência: 6.212 movimentos migratórios envolvendo ao menos um membro da família foram registrados entre maio e julho de 2026. Vinte por cento deles tinham "caráter internacional".
Fenômeno natural, o El Niño amplifica os efeitos da mudança climática, que aquece o oceano devido ao acúmulo de calor na atmosfera: 90% desse calor é absorvido pelo mar. Ainda há incertezas sobre o papel do aquecimento global na intensidade dos episódios de El Niño. O oceano deve ultrapassar, em 10 de setembro, a marca de 100 dias consecutivos de recorde de temperatura da superfície. O último El Niño ocorreu em 2023‑2024, sendo 2024 o ano mais quente da história.