O Conselho Europeu aprovou o acordo comercial com o Mercosul após 25 anos de negociações, mas o tratado ainda enfrenta resistência de alguns países e precisa da aprovação do Parlamento Europeu para vigorar.
A maioria dos países-membros da União Europeia aprovaram nesta sexta-feira, 9, em Bruxelas, o acordo de livre comércio com o Mercosul. Essa aprovação abre caminho para a aguardada assinatura do tratado, que é negociado pelos dois blocos há mais de 25 anos.
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Os embaixadores dos 27 Estados-membros da UE indicaram as posições de seus governos hoje, com pelo menos 15 países representando 65% da população total do bloco votando a favor, conforme exigido para a aprovação, disseram as fontes e os diplomatas da UE. As capitais da UE receberam um prazo até as 17h, horário de Bruxelas (13h em Brasília), para fornecer a confirmação por escrito de seus votos.
Com essa aprovação, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá viajar a Assunção para assinar na segunda-feira, 12, o acordo comercial que ligará o bloco à Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. A proposta também precisará da aprovação do Parlamento Europeu para entrar em vigor, mas a existência de maioria ainda é considerada incerta.
A nova zona de livre comércio, com mais de 700 milhões de habitantes, será a maior do seu tipo no mundo, de acordo com a Comissão Europeia. O acordo sobre o controverso tratado foi possível graças a novas concessões ao lobby agrícola, que vê a concorrência dos quatro países membros do Mercosul como uma ameaça aos agricultores europeus. Na América do Sul, produtos agrícolas como a carne bovina podem ser produzidos a um custo menor do que na Europa.
Embora o acordo tenha sido aprovado com a maioria necessária, alguns países-chave não o apoiaram. A França é um dos membros contra o acordo. Na noite de quinta-feira, 8, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que não apoiaria o tratado.
"A França é favorável ao comércio internacional, mas o acordo UE-Mercosul é um acordo de outra época, negociado por muito tempo com base em princípios já ultrapassados", disse Macron em uma publicação no X.
La France est favorable au commerce international, mais l’accord UE-Mercosur est un accord d’un autre âge, négocié depuis trop longtemps sur des bases trop anciennes (mandat de 1999).
Si la diversification commerciale est nécessaire, le gain économique de l’accord UE-Mercosur…
— Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) January 8, 2026
O acordo UE-Mercosul deveria ter sido assinado inicialmente no Brasil, em dezembro do ano passado. A proposta, porém, encontrou resistência por parte dos Estados-membros, entre eles a Itália, a França e a Polônia, e teve de ser adiada.
O que poderia acontecer após o acordo entrar em vigor?
A Comissão Europeia e países como a Alemanha e a Espanha argumentam que o acordo é uma parte vital do esforço da UE para abrir novos mercados, a fim de compensar as perdas comerciais decorrentes das tarifas dos EUA e reduzir a dependência da China, garantindo o acesso a minerais essenciais. O acordo aproximaria os Estados-membros da UE do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, eliminando as tarifas de importação sobre mais de 90% dos produtos.
Os opositores, liderados pela França, o maior produtor agrícola da União Europeia, afirmam que o acordo aumentará as importações de produtos alimentares baratos, incluindo carne bovina, aves e açúcar, prejudicando os agricultores nacionais. Por causa disso, os agricultores iniciaram protestos em toda a UE, bloqueando estradas francesas na quinta-feira.
O acordo de livre comércio seria o maior da União Europeia em termos de redução tarifária, eliminando 4 bilhões de euros em impostos sobre suas exportações. Os países do Mercosul têm tarifas altas, como 35% sobre peças automotivas, 28% sobre laticínios e 27% sobre vinhos.
A UE e o Mercosul esperam expandir o comércio de mercadorias divididas igualmente no valor de 111 bilhões de euros em 2024. As exportações da UE são dominadas por maquinário, produtos químicos e equipamentos de transporte, enquanto as do Mercosul se concentram em produtos agrícolas, minerais, celulose e papel.
Para convencer os céticos em relação ao acordo, a Comissão Europeia implementou instrumentos de salvaguardas que permitem suspender as importações de produtos agrícolas sensíveis. Reforçou os controles de importação, principalmente no que diz respeito aos resíduos de pesticidas, criou um fundo de crise, acelerou o apoio aos agricultores e comprometeu-se a reduzir os direitos de importação sobre os fertilizantes.
As concessões não foram suficientes para conquistar a Polônia ou a França, mas a Itália parece ter mudado de um "não" em dezembro para um "sim" nesta sexta-feira.
A ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, disse que a batalha ainda não terminou e prometeu lutar pela rejeição na assembleia da UE, onde a votação poderá ser apertada. Grupos ambientalistas europeus também se opõem ao acordo. Já o social-democrata alemão Bernd Lange, presidente do comitê de comércio do Parlamento, expressou confiança de que o acordo seria aprovado, com uma votação final provavelmente em abril ou maio.
(*Com informações das agências de notícias Ansa, Reuters, Estadão Conteúdo e DW).