A capital da Rússia, Moscou, sofreu o maior ataque ucraniano desde o início da guerra em larga escala em 2022.
Cerca de 200 drones atingiram alvos nos arredores da cidade russa, provocando colunas de fumaça espessa que se elevaram ao céu.
Dezessete pessoas ficaram feridas na região de Moscou, segundo o governador local, Andrei Vorobyov. Um depósito de petróleo foi atingido na região sul de Rostov, no sul do país, onde uma pessoa morreu.
O Ministério da Defesa da Rússia afirmou ter interceptado e destruído quase 1.000 drones e quatro mísseis de cruzeiro ucranianos em todo o país em um período de 24 horas.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse que o país voltou a atingir a região de Moscou com "sanções de longo alcance", um eufemismo usado pelas autoridades ucranianas para ataques de longa distância contra a Rússia.
"Está na hora de encerrar esta guerra, e a Rússia precisa tomar as medidas diplomáticas necessárias", acrescentou Zelensky.
Segundo Zelensky, o ataque em larga escala com drones foi uma resposta ao bombardeio russo da semana passada contra Kiev, capital da Ucrânia, que incendiou um marco religioso da capital ucraniana.
"Não queríamos esta guerra e nunca a quisemos", disse Zelensky. "Mas se a Ucrânia queimar, Moscou também vai queimar."
Incêndios atingiram a refinaria de Kapotnya, no sudeste de Moscou, alvo de um ataque pela terceira vez em um mês e pela segunda vez nesta semana. Uma espessa fumaça preta cobriu o céu.
Diversos vídeos mostraram a tampa de um grande tanque de armazenamento de petróleo sendo lançada dezenas de metros para o alto pela força de uma explosão.
Um shopping center próximo também pegou fogo, supostamente após destroços de um drone atingirem o prédio. Vários edifícios residenciais altos foram evacuados.
Os quatro aeroportos de Moscou foram temporariamente fechados durante os ataques ucranianos, e mais de 500 voos foram cancelados ou sofreram atrasos.
Embora autoridades locais em toda a Rússia tenham proibido a divulgação de imagens mostrando as consequências de ataques com drones, dezenas de vídeos foram publicados nas redes sociais mostrando drones cruzando o céu em plena luz do dia e explosões sobre áreas industriais nos arredores de Moscou.
Uma tática recorrente da Ucrânia tem sido lançar um grande número de drones de reconhecimento e iscas para mapear a densidade das defesas antiaéreas e identificar áreas vulneráveis antes do início dos ataques principais.
Quatro anos e meio após Moscou iniciar a invasão em larga escala da Ucrânia, a guerra de atrito (ou de exaustão) continua na linha de frente, longe dos olhos de muitos russos.
Por isso, os ataques ucranianos de longa distância contra alvos em toda a Rússia, incluindo Moscou e São Petersburgo, refletem o objetivo de Zelensky de "levar a guerra para dentro de casa", tornando-a mais presente no cotidiano da população russa.
Os ataques de drones contra Moscou, situada a cerca de 500 km da fronteira ucraniana, tornaram-se mais frequentes à medida que a Ucrânia ampliou sua capacidade de realizar operações de longo alcance. Os primeiros ataques bem-sucedidos de drones ucranianos chegaram à capital russa na primavera de 2023, embora fossem esporádicos e geralmente envolvessem apenas um pequeno número de drones.
Desde então, extensos sistemas de defesa aérea foram instalados ao redor de Moscou. Ao mesmo tempo, a quantidade de drones utilizada pela Ucrânia aumentou significativamente, e alguns deles conseguiram atravessar essas defesas.
Nenhum sistema de defesa aérea é capaz de garantir proteção total contra ataques em massa realizados com drones de alta tecnologia. A proporção dos que conseguem ultrapassar as defesas é muito pequena, mas existe o risco de destroços de mísseis interceptadores caírem sobre as áreas habitadas.
Ainda assim, apesar das dificuldades conhecidas para impedir ataques dessa escala, a ofensiva com drones desta quinta-feira (18/6) deve levantar questionamentos sobre a eficácia dos sistemas de defesa aérea que protegem infraestruturas estratégicas em Moscou.
Por sua vez, a Rússia lançou mais de 200 drones e vários mísseis balísticos contra a Ucrânia durante a noite, segundo autoridades de Kiev.
Vladimir Putin, que recebe líderes do Sudeste Asiático para uma cúpula na cidade de Kazan, não comentou o ataque em larga escala contra a capital russa.
Em publicação na rede social X, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, afirmou: "Uma das perguntas mais frequentes feitas pelos moradores de Moscou nesta manhã é: 'O que está acontecendo?'"
"Eu posso responder. O seu país iniciou uma guerra de agressão contra o nosso. Durante anos, ele matou o nosso povo", escreveu Sybiha. "Agora que vocês sabem o que está acontecendo, perguntem a Putin quando ele pretende acabar com isso."
'Pássaro ucraniano'
Em uma entrevista rara, o comandante de todos os sistemas não tripulados da Ucrânia disse à BBC no mês passado que esses ataques vão aumentar e afirmou que as forças dos drones também estão contendo o avanço russo na linha de frente, causando um número recorde de baixas entre seus soldados.
"Entre 1,5 mil e 2 mil km dentro do território russo já não existe a 'retaguarda pacífica'", alerta Robert Brovdi. "O 'pássaro' ucraniano, amante da liberdade, voa para lá quando e para onde bem entender."
As Forças de Sistemas Não Tripulados de Brovdi representam apenas 2% do exército ucraniano, mas, segundo ele, são atualmente responsáveis por um terço de todos os alvos destruídos. Sua taxa de baixas, diz, não é segredo: menos de 1% ao ano.
O aumento desses ataques se deve, em parte, à tecnologia. Os drones de fabricação nacional estão cada vez mais baratos e voam mais longe: o modelo que vemos decolar agora pode percorrer mais de 1 mil km, e outros já alcançam o dobro dessa distância.
Mas também tem a ver com a concentração de alvos. Além dos militares e das instalações de produção, as exportações de energia da Rússia foram identificadas como um alvo prioritário.
Cada ataque, de qualquer tipo, é filmado para verificação e registrado, e nos monitores de uma das paredes aparece um placar detalhado, atualizado em tempo real.
Reportagem adicional de Ilya Abishev e Sarah Rainsford