Brasileiro detido em Israel tem prisão prorrogada e pode ser enquadrado na lei antiterrorismo do país

A justiça israelense prorrogou até o próximo domingo (10) a prisão preventiva dos ativistas da "Flotilha de Gaza", detidos na costa da Grécia: o espanhol Saif Abu Keshek e o brasileiro Thiago Ávila. A decisão foi anunciada na audiência judicial realizada nesta terça-feira (5) em Ashkelon, no norte do país, onde os ativistas estão detidos.

5 mai 2026 - 07h48

Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel

O tribunal israelense aprovou, no domingo, uma primeira prorrogação de dois dias da prisão preventiva dos dois ativistas que faziam parte da flotilha, que buscava romper o bloqueio de Israel e do Egito à Faixa de Gaza. No total, 20 embarcações foram interceptadas e todos os ativistas foram enviados à Grécia, à exceção de Thiago Avila e de Saif Abu Keshek.

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Keshek é suspeito de filiação a uma organização terrorista, segundo o Ministério das Relações Exteriores de Israel; já Thiago Ávila é suspeito de "atividade ilegal". 

Em resposta à RFI, o Ministério das Relações Exteriores israelense declarou que "Ávila expressou publicamente apoio a diversas organizações terroristas, incluindo o Hezbollah, o Hamas e o regime iraniano". 

Em fevereiro de 2025, Thiago Ávila compareceu ao funeral do secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, morto no final do ano anterior por Israel.

"Ávila foi implicado em múltiplas alegações de corrupção e enfrentou acusações de conduta inadequada com mulheres que participavam da flotilha. Ele também foi detido brevemente para interrogatório nos últimos meses em aeroportos da Bélgica, Panamá, Tunísia e Argentina", declarou o ministério israelense. 

Em nota, os Ministérios das Relações Exteriores do Brasil e da Espanha descreveram a situação como "sequestro" de seus cidadãos. 

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"Os governos do Brasil e da Espanha exigem do governo de Israel o retorno imediato de seus cidadãos, com plenas garantias de segurança, e que se facilite o acesso consular imediato para sua assistência e proteção".

Brasileiro diz ter sofrido tortura

A Adalah, organização de direitos humanos em Israel que defende os dois ativistas detidos, informou que ambos estão sofrendo maus-tratos e abusos psicológicos. Segundo os relatos das advogadas da organização, Thiago Ávila contou ter sido submetido a interrogatórios de até oito horas de duração.  

Ainda de acordo com a Adalah, os interrogadores o ameaçaram explicitamente, afirmando que ele seria "morto" ou "passaria cem anos na prisão". Os ativistas são mantidos em isolamento total. Suas celas têm iluminação constante de alta intensidade 24 horas por dia, uma prática conhecida do Serviço Prisional Israelense projetada para induzir privação de sono e causar desorientação. 

A RFI conversou com Lubna Tuma, advogada da Adalah que esteve com Thiago Ávila e que é responsável pela defesa do brasileiro. Segundo ela, a organização de direitos humanos israelense continua a exigir a libertação imediata dos dois ativistas e o fim dos procedimentos legais. 

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Tuma explicou também que, segundo a acusação israelense, Thiago Ávila é suspeito de cinco ofensas de segurança que se enquadram na lei antiterrorismo de Israel, como filiação a uma organização terrorista e assistência ao terrorismo durante período de guerra. 

"É importante deixar claro que a acusação está buscando enquadrá-lo como alguém realmente perigoso. Isso é uma tentativa de exagerar a situação", explicou. 

Se a Justiça israelense condenar os ativistas, o tempo de prisão pode variar entre cinco a até mais de 20 anos. 

Pessoas se reúnem em frente ao escritório da Comissão Europeia em Barcelona em apoio aos ativistas Saif Abu Keshek e Thiago Avila, membros da Frota Global Summud detidos por Israel, em Barcelona, Espanha, em 2 de maio de 2026.
Pessoas se reúnem em frente ao escritório da Comissão Europeia em Barcelona em apoio aos ativistas Saif Abu Keshek e Thiago Avila, membros da Frota Global Summud detidos por Israel, em Barcelona, Espanha, em 2 de maio de 2026.
Foto: RFI

As posições dos governos de Israel e Brasil

Diante da abordagem e captura das embarcações em águas internacionais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel disse à RFI que isso ocorreu devido ao "grande número de embarcações" e "à necessidade de evitar o rompimento de um bloqueio legal". Israel considera que a ação ocorreu "em conformidade com o direito internacional". 

Sobre a acusação de violência contra os ativistas, o ministério disse à RFI que são "alegações falsas e infundadas preparadas previamente" e que Thiago Ávila e Saif Abu Keshek "não foram submetidos à tortura em momento algum". Mas que causaram "obstrução física contra funcionários israelenses" que, por sua vez, "tiveram de agir para impedir tais ações". 

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Ainda de acordo com a resposta de Israel aos questionamentos da RFI, "todas as medidas foram tomadas em conformidade com a lei". 

A RFI também entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil que, em resposta, afirmou "estar prestando toda a assistência consular ao cidadão brasileiro e acompanhado as audiências na Justiça". 

Espanha e Brasil pediram a libertação dos dois. Madri criticou duramente a prisão, ocorrida em águas internacionais e a centenas de quilômetros de Israel, classificando-a como "completamente ilegal" e "inaceitável". O Ministério das Relações Exteriores espanhol afirmou ainda que Israel não apresentou "nenhuma prova" de vínculos com o Hamas, que governa Gaza.

A flotilha contava inicialmente com cerca de 50 embarcações e tem como objetivo, segundo os organizadores, romper o bloqueio israelense ao território palestino devastado pela guerra, onde o acesso da ajuda humanitária segue fortemente restrito.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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