Apesar do cessar-fogo firmado em junho, Israel mantém e expande o controle sobre cerca de 5% do sul do Líbano. Segundo a Unifil e relatos locais, forças israelenses constroem bases, estradas e executam demolições sistemáticas de vilarejos inteiros, impedindo o retorno de civis. Israel alega criar uma zona de segurança contra o Hezbollah e exige o desarmamento do grupo para recuar. O impasse diplomático paralisa os acordos, consolidando a ocupação por tempo indeterminado.
A estrada que acompanha o litoral do mediterrâneo no sul do Líbano, perto da fronteira com Israel, atravessa uma região de belas paisagens que hoje está deserta e devastada. Plantações foram abandonadas, e é praticamente incontável o número de prédios destruídos por ataques aéreos feitos por Israel.
Perto da cidade de Naqoura, um posto de controle do Exército libanês, pintado com as cores da bandeira nacional branco e vermelho, é o último sinal visível da presença do Estado. Soldados permanecem atrás de barreiras de concreto, mas não há movimento na estrada. Alguns minutos mais ao sul, cerca de uma dezena de bandeiras israelenses marca o início do território ocupado. Ninguém pode entrar sem autorização de Israel.
Essa região é o principal reduto da comunidade muçulmana xiita do Líbano, que constitui a principal base de apoio do Hezbollah, milícia e partido político apoiado pelo Irã.
Nas últimas duas décadas, o Exército israelense invadiu a região três vezes durante guerras contra o grupo. A invasão mais recente começou em março, depois que o Hezbollah lançou foguetes contra Israel após a morte do líder supremo do Irã, no início da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
No mês passado, uma equipe da BBC acompanhou uma missão humanitária da Unifil, uma das poucas formas de visitar a área sob controle israelense. Assim como fez em Gaza, Israel arrasou vilarejos inteiros. Ataques aéreos e demolições continuaram mesmo depois do anúncio de um cessar-fogo, em junho.
O comboio, liderado por militares finlandeses da Unifil, escoltava civis que entravam e saíam de vilarejos cristãos próximos à fronteira. Essas comunidades não foram atingidas pelos ataques nem pela invasão israelense durante a guerra, mas ficaram isoladas do restante do país depois que as áreas ao redor passaram a ser ocupadas. Os militares israelenses autorizaram a presença da equipe da BBC por meio de um mecanismo de coordenação com a Organização das Nações Unidas (ONU) destinado a evitar incidentes entre as partes.
A faixa de terra atualmente controlada por Israel corresponde a cerca de 5% do território libanês e, em alguns pontos, avança 10 km para dentro do país a partir da fronteira. Ao percorrermos a região junto ao muro que separa os dois países, vimos estradas de serviço construídas por Israel depois da invasão, intensa movimentação de soldados israelenses e prédios residenciais ocupados por eles. Alguns estavam cobertos por redes para protegê-los dos drones explosivos do Hezbollah.
Também ouvimos drones israelenses de vigilância sobrevoando a região e explosões à distância, possivelmente causadas por demolições realizadas por Israel nos vilarejos ocupados.
Durante uma visita ao sul do Líbano ocupado no mês passado, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou ter ordenado aos militares que "tomem todas as medidas necessárias para se preparar para permanecer na região por um longo período". Autoridades israelenses dizem que pretendem criar o que chamam de "zona de segurança" para proteger as comunidades do norte de Israel de foguetes e drones lançados pelo Hezbollah a partir do sul do Líbano e também de uma possível invasão por terra.
Segundo a Unifil, o Exército israelense instalou quatro novas bases nas áreas invadidas, elevando o total para nove. As forças israelenses já haviam permanecido em cinco pontos após a invasão do sul do Líbano durante a guerra anterior contra o Hezbollah, em 2024, contrariando o acordo que encerrou o conflito.
"Nos últimos meses, vimos Israel consolidar e reforçar suas posições, construir estruturas de proteção e realizar outras obras de engenharia", disse Kandice Ardiel, porta-voz da Unifil. "Também observamos pessoas que parecem ser civis israelenses realizando demolições e obras de engenharia em apoio às operações militares no sul do Líbano."
Organizações de direitos humanos afirmam que algumas ações de Israel no sul do Líbano representam a destruição deliberada de infraestrutura civil, o que pode configurar crime de guerra. Centenas de milhares de libaneses continuam fora de casa, sem saber quando, ou mesmo se, poderão voltar.
Questionado pela BBC, o Exército israelense afirmou que os prédios destruídos eram usados pelo Hezbollah para fins militares e que as operações militares de Israel respeitavam o direito internacional. Os militares não responderam às demais perguntas específicas sobre suas ações nas áreas ocupadas.
Em junho, os EUA e o Irã anunciaram um acordo preliminar para tentar encerrar o conflito entre os dois países. O entendimento previa também o fim da violência no Líbano.
Desde então, segundo um integrante da inteligência libanesa ouvido pela BBC, o Exército do Líbano registrou mais de 5 mil violações do acordo cometidas por Israel, entre ataques aéreos, ataques com drones, bombardeios e incursões quase diárias de soldados israelenses além da área ocupada, em território libanês, do outro lado da chamada Linha Amarela.
Assim como em Gaza, o Exército israelense justifica alguns dos ataques no Líbano afirmando que são operações contra o que considera ameaças imediatas. Mas em muitos casos não está claro até que ponto essas supostas ameaças são realmente imediatas — ou mesmo se há alguma ameaça.
O Hezbollah, considerado uma organização terrorista por países como o Reino Unido e os EUA, não atacou Israel desde que o cessar-fogo entrou em vigor, mas realizou ataques contra tropas israelenses em território libanês.
"[Os israelenses] estão ampliando a sua presença [no Líbano]. [Também] vêm incendiando áreas e demolindo casas, enquanto os bombardeios continuam, apesar do cessar-fogo", afirmou o integrante da inteligência libanesa. "Está claro que eles não querem que ninguém volte [a esses vilarejos] no próximo ano, ou mesmo nos próximos anos. Não se trata apenas do Hezbollah. Trata-se de impedir a volta das pessoas."
Autoridades israelenses afirmam que só retirarão suas forças do Líbano se o Hezbollah for desarmado, algo que o governo libanês não tem condições de fazer sem o consentimento do grupo. Segundo observadores, apesar das perdas sofridas nas guerras recentes, o Hezbollah ainda dispõe de uma força militar significativa.
Os dois países mantiveram negociações diretas que resultaram em um acordo mediado pelos EUA. Pelo plano, Israel deixaria determinadas áreas, chamadas de "zonas-piloto", que passariam a ser ocupadas por soldados do Exército libanês. O desarmamento do Hezbollah nesses locais seria então verificado.
O Hezbollah se opõe à iniciativa. Na semana passada, o líder do grupo, Naim Qassem, chamou o plano de "rendição com humilhação" e afirmou que qualquer discussão sobre as armas do Hezbollah só deve ocorrer depois da retirada completa de Israel.
Israel, por sua vez, afirma que o Exército libanês não fez o suficiente. As Forças Armadas do Líbano descartam o uso da força contra o Hezbollah, sob o argumento de que isso poderia colocar libaneses em confronto entre si.
O plano não avançou, e não há expectativa de mudanças significativas antes das eleições israelenses, no fim de outubro.
"A ideia das 'zonas-piloto' parece estar morta enquanto o contexto não mudar", disse à BBC um diplomata europeu que acompanha a situação. "Parece que estamos caminhando para uma situação semelhante à de Gaza. Os israelenses estão se entrincheirando… e, por enquanto, pretendem ficar."