Após nove dias da tragédia que deixou mais de 1.280 mortos e 5 mil desaparecidos no Nepal, dois operários foram resgatados com vida de um túnel hidrelétrico soterrado. O desastre, causado pelo colapso de uma geleira, gerou uma onda de lama que causou prejuízos de US$ 2,5 bilhões e deixou cerca de 900 trabalhadores presos em seis usinas. Equipes locais e internacionais correm contra o tempo em meio aos escombros, enquanto hospitais sobrecarregados realizam testes de DNA e enterros temporários.
Identificados como Sanjay Shah e Kabir Maharjan, eles são os primeiros sobreviventes retirados com vida do túnel do projeto hidrelétrico Trishuli-3, no norte do Nepal, desde a tragédia ocorrida há nove dias.
Imagens divulgadas pelo Ministério da Energia do Nepal mostram um dos operários sendo retirado consciente em uma maca, enquanto o outro, coberto de lama, conseguiu ficar de pé com a ajuda dos socorristas. Ambos foram levados de helicóptero para Katmandu, onde receberam atendimento médico.
Avançando lentamente entre lama e escombros, os socorristas tinham recuperado apenas alguns corpos até o resgate desta sexta-feira.
Segundo o gabinete do ministro da Energia, as autoridades estimam que cerca de 900 trabalhadores continuem desaparecidos em túneis de seis usinas hidrelétricas afetadas pelas enchentes. Apenas no complexo de Trishuli-3, acredita-se que cerca de uma centena de pessoas ainda possam estar presas.
A tragédia foi provocada pelo colapso de uma geleira e de parte de uma montanha no Himalaia, desencadeando uma gigantesca onda de água, gelo e detritos que devastou áreas dos dois países. De acordo com o balanço oficial mais recente, o desastre deixou ao menos 1.280 mortos e mais de 5 mil desaparecidos.
As enchentes causaram prejuízos materiais de pelo menos US$ 2,56 bilhões no Nepal, informou à Reuters nesta sexta-feira o diretor da agência nacional de gestão de desastres do país.
As primeiras medidas de reconstrução, previstas para os próximos quatro meses, devem custar cerca de US$ 52,6 milhões e incluem a recuperação de estradas, a instalação de abrigos temporários e o restabelecimento dos serviços de água e luz.
Operações de resgate seguem em ritmo intenso
Pouco antes do anúncio oficial, Arnold Dix, especialista australiano em resgates subterrâneos, relatou o primeiro sinal de contato com possíveis sobreviventes.
Segundo ele, as equipes ouviram uma resposta fraca vinda do interior do túnel. A palavra "hunchha", em nepalês, significa "sim" ou "ok". Os socorristas responderam: "Não se preocupem, estamos vindo salvá-los".
Desde então, dezenas de equipes de resgate nepalesas e estrangeiras, incluindo especialistas da Índia, da China e da Coreia do Sul, participam de uma corrida contra o tempo para encontrar sobreviventes em túneis de usinas hidrelétricas e barragens em construção.
Enquanto as buscas continuam, as autoridades também tentam atender dezenas de milhares de moradores afetados pela catástrofe. A enchente destruiu estradas, pontes, edifícios e infraestruturas energéticas.
O ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shisir Khanal, classificou o desastre como um "tsunami himalaio". Segundo a coordenadora das agências da ONU em Katmandu, Lila Pieters Yahia, o acesso às áreas mais isoladas permanece extremamente difícil, e muitos locais só podem ser abastecidos por helicópteros, drones ou carregadores.
Famílias buscam respostas
Após mais de uma semana sem notícias do filho de 22 anos, que havia partido para trabalhar perto da fronteira com o Tibete, a agricultora Kulmaya Tamang procurou um centro de informações em Bharatpur para fornecer uma amostra de sangue. O material será comparado ao DNA das vítimas encontradas pelas equipes de resgate.
Estar ali significa considerar a possibilidade de que o filho esteja morto. O marido dela, Rajkumar, já perdeu a esperança. "Se ele estivesse vivo, acredito que já teria entrado em contato conosco. Por isso, acho que não sobreviveu", lamenta.
A cena se repete entre milhares de famílias afetadas pela tragédia. Muitas seguem percorrendo hospitais e postos de informação em busca de notícias de parentes desaparecidos. Em Bharatpur, para onde foram levados dezenas de corpos retirados dos rios da região, o hospital público local ficou sobrecarregado.
"Em 20 anos de carreira, nunca vi um hospital precisar realizar 350 autópsias em poucos dias", afirmou o diretor da unidade, Bishwabandhu Bagale. "Com essas condições climáticas quentes e úmidas, a decomposição dos corpos acelerou. O cheiro é muito forte, então a decisão de realizar enterros "temporários" foi tomada rapidamente. Não tínhamos outra opção."
RFI com agências