Ataques no Líbano deixam mais de 300 mortes; Israel anuncia negociações com Beirute

Irã afirma que bombardeios no Líbano violam acordo de cessar-fogo, enquanto EUA e Israel alegam que país não estava incluído na trégua.

9 abr 2026 - 18h23
(atualizado às 19h38)
Pessoas fazendo resgates no meio dos escombros no Líbano
Pessoas fazendo resgates no meio dos escombros no Líbano
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Após a retomada de bombardeios no Líbano nesta quinta-feira (9/4), o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, determinou que seu gabinete incie negociações com o Beirute "o mais rápido possível".

Segundo Netanyahu, as conversas terão como foco "desarmamento do Hezbollah" — partido político islâmico xiita e grupo paramilitar apoiado pelo Irã — e o "estabelecimento de relações pacíficas" entre Israel e o Líbano.

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O anúncio ocorre um dia depois das Forças de Defesa Israelenses (IDF) terem lançado uma série de ataques aéreos em Beirute, deixando centenas de mortos e hospitais lotados. Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, mais de 300 pessoas morreram e cerca de 1.000 ficaram feridas.

O Irã alega que os ataques israelenses "violam flagrantemente" o acordo de cessar-fogo temporário feito com os EUA na terça-feira (7/4), e ameaçou retaliar caso os bombardeios não sejam interrompidos.

De acordo com Israel, esta foi "a maior operação aérea" contra o Hezbollah desde o início do conflito, atinginfo mais de 100 alvos em 10 minutos.

O presidente libanês, Joseph Aoun, classificou a situação como um "massacre" e seu governo declarou a quinta-feira um dia de luto em memória das vítimas.

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Após Trump dizer que Israel iria reduzir os ataques em Beirute, Netanyahu comunicou que não há "cessar-fogo" no Líbano
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Pouco depois do anúncio de Netanyahu desta quinta, Donald Trump, disse, em entrevista à NBC News, que Israel vai "reduzir" os ataques contra o Líbano antes das próximas negociações entre Irã e EUA.

"Falei com o Bibi e ele vai baixar o tom. Acho que também precisamos ser um pouco mais discretos", afirmou.

Horas depois, contudo, o primeiro-ministro israelense divulgou uma mensagem aos moradores do norte do país, afirmando que "não há cessar-fogo no Líbano".

"Continuamos atacando o Hezbollah com força e não vamos parar até restabelecer a sua segurança", diz o comunicado publicado pelo gabinete do primeiro-ministro.

Ele emitiu uma ordem de evacuação de moradores de vários subúrbios do sul de Beirute, após anunciar que planeja novos ataques contra a "infraestrutura militar" do Hezbollah.

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Netanyahu reiterou que os objetivos de Israel é desarmar o Hezbollah e "garantir um acordo de paz histórico e duradouro entre Israel e o Líbano".

Nesta quinta, Israel afirmou ter matado Naim Qassem, líder do Hezbollah desde 2024, em um dos seus ataques. O grupo ainda não confirmou a informação.

A situação no estreito de Ormuz

EUA e Irã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas na noite de terça condicionado à reabertura do Estreito de Ormuz e ao fim dos bombardeios, mas surgiram relatos conflitantes sobre o que exatamente foi acordado.

Tanto os EUA quanto Israel negam que o Líbano estivesse incluído no acordo de trégua, algo que contradiz a declaração do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que vinha mediando as negociações.

Segundo Sharif, o cessar-fogo também passaria a valer no Líbano.

Com os ataques no Líbano, a mídia iraniana afirmou que o estreito foi novamente fechado e petroleiros pararam de passar pela rota. Inicialmente, os EUA haviam dito que a informação era falsa.

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Nesta quinta, Trump publicou na rede Truth Social um alerta ao Irã de que "os tiros começarão, maiores, melhores e mais fortes do que qualquer um jamais viu" se o "acordo real" não for totalmente cumprido.

"Todos os navios, aeronaves e militares dos EUA, com munição, armamento e tudo o mais que for apropriado e necessário para a perseguição e destruição letal de um inimigo já substancialmente enfraquecido, permanecerão em suas instalações no Irã e arredores até que o acordo real seja totalmente cumprido."

"Foi acordado, há muito tempo, e apesar de toda a retórica falsa em contrário, que não haverá armas nucleares e o estreito de Ormuz permanecerá aberto e seguro. Enquanto isso, nossas grandes Forças Armadas estão se reabastecendo e descansando, ansiosas, na verdade, por sua próxima conquista. A América está de volta!"

Mais tarde, Trump fez uma nova publicação, dizendo que era "melhor o Irã não estar" cobrando taxas de navios que atravessam o Estreito de Ormuz.

"Há relatos de que o Irã está cobrando tarifas de petroleiros que passam pelo Estreito de Ormuz", escreveu Trump na rede Truth Social. "É melhor que não esteja — e, se estiver, é melhor parar imediatamente", ameaçou.

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O BBC Verify confirmou que pelo menos nove navios passaram pelo importante estreito ao longo do dia de hoje.

Ataques no Líbano se intensificaram na quarta-feira; Irã afirma que cessar-fogo está sendo violado
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Enquanto isso, o programa Today, da BBC, na manhã desta quinta, trouxe uma entrevista com o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Saeed Khatibzadeh, na qual ele disse que o Irã enviou uma mensagem ao Salão Oval na noite anterior, dizendo que "não se pode ter tudo".

"Não se pode pedir um cessar-fogo e depois aceitar os termos e condições, aceitar todas as áreas às quais o cessar-fogo se aplica, mencionar o Líbano, e então seu aliado [Israel] simplesmente inicia um massacre."

Ele acrescentou que os EUA "devem escolher" se querem guerra ou paz. "Eles não podem ter as duas coisas ao mesmo tempo."

Questionado se o Irã vai se retirar das negociações caso os ataques israelenses continuem, ele afirmou que o país "está muito focado no bem-estar de todo o Oriente Médio".

Ele ainda foi questionado se o Irã pedirá ao seu aliado militante, o Hezbollah, que pare de disparar foguetes contra Israel a partir do Líbano. Khatibzadeh respondeu que o acordo inclui o Líbano e que o Irã e seus aliados estavam dispostos a "aceitar o cessar-fogo".

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O ministro afirmou que o Irã "garantirá a segurança da passagem" pelo estreito de Ormuz, mas a reabertura só ocorrerá "depois que os Estados Unidos de fato retirarem essa agressão", aparentemente referindo-se aos ataques de Israel ao Líbano.

*Esta reportagem está sendo atualizada

A guerra entre Israel e Hezbollah

Autoridades libanesas afirmam que mais de 1.700 pessoas foram mortas desde que Israel lançou sua mais recente campanha no Líbano, em março. Israel alega que suas operações visam enfraquecer o Hezbollah e alcançar o que chama de "objetivos militares restantes".

A guerra começou com ataques dos EUA e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, o que provocou retaliação de Teerã contra os aliados dos EUA no Golfo e dos grupos apoiados pelo Irã — o Hezbollah no Líbano e os ohuthis no Iêmen — contra Israel.

Em resposta, Israel começou a atacar o Hezbollah e chegou a ordenar que suas tropas ocupassem grandes partes do Líbano.

No ataque de quarta-feira, classificado pelas autoridades como um dos mais intensos desde que o Hezbollah entrou no conflito, áreas densamente povoadas do centro de Beirute foram atingidas.

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Safa Bleik, enfermeira e coordenadora da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), estava no Hospital Rafik Hariri, em Beirute, quando os ataques aconteceram.

"Os primeiros pacientes chegaram com graves traumatismos cranianos, com fragmentos de vidro, metal e escombros alojados em seus corpos. Muitos estavam inconscientes. Alguns morreram logo após a chegada", disse ela.

Houve relatos de vítimas no Vale do Bekaa, no leste, e nas regiões de Nabatieh, Sidon e Tiro, no sul.

Na quinta-feira, Israel continuou seus ataques, afirmando ter matado "mais de 70 terroristas". O país nega ter como alvo civis.

Benjamin Netanyahu disse que continuará a atacar o Hezbollah "onde quer que seja necessário, até que restabeleçamos a plena segurança dos residentes do norte".

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As Forças de Defesa israelenses também disseram que o Hezbollah lançou cerca de 30 foguetes contra o norte de Israel, sem relatos de feridos ou danos.

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