O primeiro sábado do ano foi marcado pelo ataque dos Estados Unidos à Venezuela para captura do então líder do país, Nicolás Maduro. O cenário é de instabilidade, mas de que forma tudo isso gera impactos ao Brasil? Entenda o que apontam especialistas ouvidos pelo Terra.
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Se tratou de um ataque muito grave, violento, e que remonta à política internacional do século 19. É o que avalia Arthur Murta, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mesmo assim, por enquanto, os impactos seguem pequenos ao que diz respeito ao Brasil.
Com relação ao preço da gasolina, por exemplo, não houve nenhuma alteração no padrão que pudesse ser relacionado ao evento de sábado pra cá. O risco de guerra ele também avalia como “particularmente baixo”. A justificativa, como aponta, é que Trump entrou neste último mandato com o objetivo de ser o presidente dos Estados Unidos que mais acabou com guerras.
“Ele tentou acabar com a guerra do Irã contra Israel, do Israel contra Hamas, vem tentando acabar com a guerra da Rússia com a Ucrânia, e ele tentou mediar o conflito do Camboja contra a Tailândia. Então, eu acho muito difícil que o governo Trump, apesar de sua imprevisibilidade e do intervencionismo, entre numa guerra, de fato, com a Venezuela, e ocupe o país”, afirma Murta.
O que pode mudar o cenário, aponta Murta, é caso se inicie uma nova crise humanitária na Venezuela, que pode gerar um aumento do fluxo migratório para o Brasil e uma consequente sobrecarga no sistema de saúde e de outros sistemas brasileiros de seguridade social. “Mas eu não vejo isso acontecendo agora, principalmente porque a diáspora venezuelana já foi muito grande”, considera, apontando que a Venezuela passou por um processo de relativa estabilização econômica nos últimos anos.
Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), também entende que os impactos para a população brasileira devem ser mínimos por terem sido “praticamente amortecidos pelo posicionamento muito pragmático e diplomático do governo brasileiro” frente ao ocorrido.
Ele cita a nota divulgada pelo Itamaraty em conjunto com o México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha que rechaçou as ações militares executadas de forma unilateral no território da Venezuela de forma contrária aos princípios do direito internacional. Para ele, o modo como agiram buscou evitar “qualquer tipo de impacto econômico, financeiro, comercial e geopolítico” aos respectivos países.
“O Brasil olha com muita preocupação [a situação], porque esse precedente aberto pelos Estados Unidos pode se aplicar daqui a pouco para qualquer líder. Ou seja, se algum país entrar em choque com aquilo que preconiza a doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos e com os interesses do presidente Trump, isso pode motivar uma incursão no local, a violação da soberania e a captura daquele líder”, diz.
Agora, para ele, é preciso olhar para o futuro: “Entender como vai ser o governo venezuelano, se Delcy Rodríguez vai suportar essa pressão dos Estados Unidos, vai conseguir ter governabilidade e se vai conseguir também controlar essa produção de petróleo na Venezuela sob tutela dos Estados Unidos”.
‘Remonta à política do século 19’
Não é a primeira vez que os Estados Unidos faz algo similar. Em 1989 o então presidente do Panamá, Manuel Noriega, também foi capturado e levado aos EUA para ser julgado sob acusações de narcotráfico. A diferença, como aponta Arthur Murta, é que ele foi obrigado a se render.
“Maduro não teve nem o cerco e, digamos, a pressão para que ele se rendesse que o Noriega teve. Maduro foi um presidente sequestrado, capturado para ser julgado nos Estados Unidos. Então realmente foi algo muito grave, violento e que remonta à política internacional do século 19, nem mesmo a política internacional do século 20”, complementa o especialista.
Isso porque, como aponta, desde a Primeira Guerra Mundial os países começaram a entender a importância de se criar um direito internacional comum. “Os países criam o sistema internacional. E esse sistema internacional, ele só vai ter credibilidade, ou seja, essas instituições, esses tratados, as convenções internacionais, só vão ter validade internacional se houver um pacto entre todos os países de que esses instrumentos jurídicos vão ser seguidos. O que os Estados Unidos fizeram foi abandonar esse pacto”.