"As manhãs e as noites não existem mais": como é viver em um dos lugares mais quentes e úmidos do planeta

Como é enfrentar 48°C dia após dia? Para quem vive sob calor extremo, a adaptação deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade.

7 jun 2026 - 11h51
Ram Chandra, funcionário ferroviário, afirma que o calor deste verão é o pior que enfrentou em anos de trabalho.
Ram Chandra, funcionário ferroviário, afirma que o calor deste verão é o pior que enfrentou em anos de trabalho.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

Às 6h, o sol sobre o distrito de Banda parecia ter esquecido que o meio-dia ainda não havia chegado.

A luz tinha o brilho intenso de uma tarde de verão. As sombras já encurtavam antes do café da manhã.

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Em maio, esse distrito poeirento do estado indiano de Uttar Pradesh passou dias no topo de um ranking nacional nada invejável: o lugar mais quente do país.

As temperaturas ficaram entre 47ºC e 48ºC por mais de uma semana, algo extraordinário até mesmo para os padrões locais.

O que chamou atenção, porém, foi a forma como as pessoas se adaptaram.

Os mais de 2 milhões de habitantes de Banda, que dependem da agricultura, da construção, do transporte e de outros trabalhos ao ar livre, não tinham alternativa senão suportar o calor. Então, reorganizaram a vida em torno disso.

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A 30 quilômetros do centro do distrito, o mercado de hortaliças de Atarra fechava as portas antes que a maioria das cidades sequer despertasse por completo.

Os agricultores chegavam ao amanhecer com tomates, abóboras, pimentas, limões e melões. Queriam vender rápido e voltar para casa antes que o calor se intensificasse.

"Olhem o sol", disse Himanshu, comerciante em pé ao lado das caixas de tomates. "São apenas 6h15, mas parece que são 8h ou 9h."

O calor encurtava a vida útil dos produtos tanto quanto encurtava o expediente do mercado. "Uma caixa de tomates precisa ser vendida hoje ou amanhã. Com esse clima, eles não duram."

Onde antes a movimentação se estendia até o fim da manhã, agora começava a esvaziar às 8h. Às 10h, o mercado estava quase deserto.

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Banda, lar de mais de 2 milhões de pessoas, fica perto do Trópico de Câncer.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

O mesmo horário reduzido rege quase tudo em Banda.

Entre o céu incandescente e o solo escaldante, as pessoas fazem o que o jornalista polonês Ryszard Kapuściński observou certa vez em outra paisagem ardente da África: dedicar a energia à busca por "sombra e brisa".

Pappu Verma é pedreiro e agora trabalha das 7h ao meio-dia e depois das 16h às 19h. As quatro horas no meio do dia são para esperar o pior do calor passar.

"Ainda assim você tem que cumprir oito horas", afirma. "Trabalhe sem parar no sol ou pare e recomece, o pagamento é o mesmo."

O descanso o livra de dores de cabeça e tontura provocadas pelo calor, mas estica o dia dele para 12 ou 13 horas. Se não fizesse assim, comenta dando de ombros, 'o que eu ganho seria gasto com remédio".

Círculo vicioso

Em um dia da semana passada, por volta das 14h, quando a temperatura em Banda chegou a 46ºC, três trabalhadoras se abrigaram embaixo de um caminhão-pipa em uma rodovia sobre a ponte do rio Ken para almoçar à sombra do chassi do veículo.

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Uma delas, Shanti Devi, caminha seis quilômetros até o trabalho todas as manhãs e mais seis na volta.

O almoço dela era pão com cebola, sal e picles. "Se a gente levar legumes, estragam antes do meio-dia", explicou.

Em seguida, soltou uma frase que poderia ser o lema da onda de calor de Banda.

"Os pobres não podem se dar ao luxo de se preocupar com o calor."

Shanti Devi (à esq.) e suas colegas de trabalho se abrigaram embaixo de um caminhão-pipa na ponte de uma rodovia sobre o rio Ken.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

O abrigo delas sobre o Ken era apropriado. O rio está no coração da luta de Banda contra o calor.

Pesquisadores afirmam que a extração de areia e o esgotamento das águas subterrâneas enfraqueceram a capacidade do rio de refrescar a paisagem ao redor, criando um círculo vicioso no qual a escassez de água e as temperaturas extremas se reforçam mutuamente.

Os efeitos econômicos do calor são visíveis por toda parte.

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Os motoristas de tuk-tuk elétrico enfrentam tardes sem passageiros. Os comerciantes abrem antes do nascer do sol e fecham entre o meio-dia e as 16h. O número de clientes caiu pela metade. Vilarejos inteiros se refugiam em casa nas horas mais intensas, e só voltam a sair à noite.

Os celulares vibram repetidamente com alertas do governo sobre uma forte onda de calor. "Fique alerta, seja cauteloso", advertem as mensagens.

Os hospitais locais recebem um fluxo constante de pacientes vítimas do calor.

"Desde que a temperatura se intensificou, recebemos entre 15 e 20 casos por dia, em sua maioria crianças e idosos", afirma K. Kumar, superintendente médico-chefe do Hospital Distrital da Mulher.

"Os sintomas mais comuns são diarreia, vômito e febre."

Yash, de 6 anos, passou dois dias internado depois de adoecer durante a onda de calor que atingiu Banda.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

Calor úmido

Essa experiência difícil em Banda é a expressão local de uma tendência mais ampla.

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Em toda a Índia, o calor vem chegando cada vez mais não apenas em forma de altas temperaturas, mas também como uma combinação de calor e umidade que pressiona ainda mais o corpo humano.

Pesquisadores do clima consideram a planície indo-gangética — que se estende por boa parte do norte da Índia e inclui Uttar Pradesh — um dos pontos críticos emergentes do mundo para esse tipo de calor perigoso que combina temperatura alta e umidade.

A densidade populacional, a umidade abundante e o grande número de trabalhadores ao ar livre se combinam para criar condições em que até o trabalho rotineiro pode ser arriscado.

Uttar Pradesh é especialmente vulnerável devido à enorme população exposta às condições climáticas adversas, à dependência do trabalho ao ar livre e ao acesso limitado a sistemas de refrigeração para milhões de domicílios, segundo o centro de estudos Climate Trends.

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Cientistas dizem que as escolhas geográficas e de desenvolvimento da região se combinaram para piorar o quadro.

A extração de areia e o esgotamento das águas subterrâneas enfraqueceram a capacidade do rio Ken de refrescar a paisagem ao redor.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

Banda fica perto do Trópico de Câncer, latitude associada a alguns dos verões mais intensos do mundo.

Os rios correm em níveis baixos e expõem leitos de areia, pedra e cascalho, que absorvem e irradiam calor.

O concreto substituiu a vegetação. A cobertura de árvores caiu muito abaixo dos níveis recomendados.

Um estudo da Universidade de Agricultura e Tecnologia de Banda concluiu que quase um sexto da densa cobertura florestal do distrito desapareceu entre 1991 e 2022, em grande parte por causa da expansão da mineração e da agricultura.

Juntos, esses fatores tornaram Banda cada vez mais vulnerável ao calor extremo.

Segundo Dinesh Sah, meteorologista da universidade, o distrito já registrou temperaturas entre 48ºC e 49ºC. Em 2024, o termômetro chegou a 49ºC em dois dias consecutivos.

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Mas o que tornou o episódio deste verão incomum foi sua persistência.

"Por oito ou nove dias, as temperaturas de 47ºC a 48ºC se mantiveram sem interrupção", destaca o especialista. "Essa é a novidade."

Prem Singh, agricultor da região, afirma que a onda anual de calor extremo não é nenhuma novidade e é essencial para as plantações. O que o preocupa é a intensidade crescente.

Ele culpa a diminuição da cobertura de árvores, a mineração em larga escala, o aumento do uso de combustíveis fósseis e o uso crescente do ar-condicionado.

"Isso tornou a vida mais difícil para os pobres, enquanto os ricos não foram tão afetados."

As ruas de Banda ficam desertas no meio da manhã durante a onda de calor.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

O calor persiste muito depois do pôr do sol.

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"Parece que as manhãs e as noites não existem mais", afirma Sah.

Às 7h ou 8h da manhã, já parece que é tarde.

As temperaturas durante a noite ficam em torno de 30ºC. O resultado é uma população que nunca se refresca por completo.

"Depois de trabalhar um dia, não tenho coragem de trabalhar no seguinte", diz Dharampal, trabalhador ferroviário.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

"Não sei se conseguirei suportar isso"

No vilarejo de Achharaund, a 20 km da cidade de Banda, a luta não é tanto contra a temperatura, mas contra a falta de água.

Um único poço fornece grande parte da água potável do vilarejo. Todos os dias, as mulheres formam fila com baldes sob um céu em chamas.

Kranti Vishwakarma, de 18 anos, passa quatro ou cinco horas em busca de água para casa. Quando há cortes de energia à tarde, o alívio vem da sombra de uma árvore de nim.

"Não temos geladeira nem ar-condicionado", relata. "Para nós, as árvores de nim fazem esse papel."

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Perto dali, uma senhora de 80 anos, chamada Chunubadi, estava sentada ao lado de um ventilador de mesa improvisado remendado com cordas. Funcionava com dificuldade, soprando ar seco e quente.

"O suor seca", observa, enquanto vê as pás girarem, "mas, para um corpo velho, essas rajadas de calor são difíceis de suportar."

Em seguida, faz uma reflexão mais sombria.

"Nos meus 80 anos, nunca vi um calor como este. As pessoas mais velhas morrem em situações de frio ou calor extremos. Não sei se conseguirei suportar isso."

"Nos meus 80 anos, nunca vi um calor como este", diz Chunubadi.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

Pelo vilarejo, os animais se viravam à sua maneira.

Por volta do meio-dia, dezenas de búfalos estavam parados em um açude.

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Alguns pastores esperavam que eles saíssem da água.

Ali conhecemos Rameshwar Yadav, de 60 anos, antigo professor de escola particular que hoje vive da criação de búfalos.

Curiosamente, estava com roupas pesadas, mais adequadas para o inverno do que para um dia de verão a 46ºC, e tinha um xale enrolado na cabeça.

Rameshwar Yadav, criador de búfalos, usa um xale e roupas de inverno apesar do calor de 46ºC.
Foto: Ankit Srinivas / BBC News Brasil

"Usamos roupa grossa porque ela não deixa o calor do sol chegar ao corpo", explica.

"O tecido grosso nos protege do sol e dos ventos quentes. Sim, faz suar, mas também evita que a gente adoeça."

Como todos os outros moradores em Banda, Yadav se adaptou. Mas adaptação e alívio não são a mesma coisa.

Uma mudança no tempo vinda do oeste finalmente trouxe tempestades de poeira e chuva. As temperaturas caíram entre 8 e 9 graus. O distrito voltou a respirar.

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Mas o alívio foi temporário.

As rotinas que os moradores de Banda desenvolveram — começar a trabalhar antes do amanhecer, recolher-se em casa ao meio-dia, buscar sombra onde for possível — estão deixando de ser adaptações para se tornar uma necessidade.

Risco de morte

Um estudo de Piyush Narang e Ashok Gadgil, da Universidade da Califórnia em Berkeley, estima que Uttar Pradesh pode registrar mais de 8 mil mortes adicionais durante uma onda de calor intensa de cinco dias — mais do que muitos outros estados da Índia.

O impacto recai de forma desproporcional sobre idosos, trabalhadores expostos ao calor ao ar livre e famílias sem acesso confiável à refrigeração.

Os moradores de Banda, porém, parecem menos alarmados do que muitos cientistas do clima.

Eles convivem com o calor há gerações.

O que preocupa os pesquisadores não é o fato de o distrito ser quente, mas de estar ficando cada vez mais quente, por períodos mais longos, em uma paisagem que perde as árvores e a água que antes ajudavam a manter as temperaturas sob controle.

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As trabalhadoras que haviam se abrigado sob um caminhão-pipa na estrada pareciam ignorar o perigo.

"Estamos acostumadas", disseram.

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