O anúncio do governo sérvio de realizar um funeral com honras de Estado para Ratko Mladic gerou forte repúdio de ONGs e da Bósnia. O ex-comandante militar morreu em Haia, onde cumpria prisão perpétua por genocídio e crimes de guerra, incluindo o massacre de Srebrenica em 1995. Enquanto simpatizantes celebram seu legado, entidades civis classificaram a homenagem como vergonhosa por exaltar um líder condenado pelo extermínio de milhares de pessoas durante a Guerra da Bósnia.
Laurent Rouy, correspondente da RFI em Belgrado, e AFP
A morte de Mladic, que estava doente há vários meses e morreu em Haia, onde cumpria uma pena de prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, expôs novamente as feridas ainda abertas deixadas pela desintegração da antiga Iugoslávia.
Na noite de quinta-feira, manifestações espontâneas foram organizadas em homenagem ao ex-comandante militar. Em Zvornik, na Republika Srpska, entidade autônoma de maioria sérvia da Bósnia e Herzegovina, cerca de 300 pessoas marcharam diante das mesquitas do centro da cidade, entoando o nome de Ratko Mladic. Na Sérvia, algumas dezenas de simpatizantes acenderam sinalizadores e exibiram um retrato do ex-general em uma ponte no centro de Belgrado.
Apesar da condenação internacional, Ratko Mladic continua sendo reverenciado por parte da classe política sérvia. Nesta sexta-feira, o ministro da Justiça do país, Nenad Vujic, anunciou que o ex-general receberá honras militares e de Estado durante seu funeral. As autoridades aguardam a transferência do corpo de Haia para organizar a cerimônia.
"É certo que o general Mladic receberá todas as honras militares e de Estado a que tem direito", declarou Vujic.
O anúncio de um possível funeral nacional provocou forte reação de organizações da sociedade civil. Para a ONG sérvia Academia para a Promoção da Democracia, uma cerimônia desse tipo seria "vergonhosa e escandalosa" e mostraria que o governo não abandonou a ideologia genocida.
Já o grupo feminista Mulheres de Preto afirmou que o Estado e a sociedade sérvios se preparam para homenagear o responsável por um genocídio.
Em Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina, organizações não governamentais também se mobilizaram e exigem uma condenação clara por parte das autoridades. Algumas defendem inclusive a expulsão do embaixador sérvio caso essas homenagens, que por enquanto permanecem apenas como uma possibilidade, sejam efetivamente realizadas.
Srebrenica: pior massacre da Europa desde a Segunda Guerra
O massacre de Srebrenica foi o pior episódio de extermínio em massa ocorrido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
Durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), forças sérvias sob o comando de Ratko Mladic executaram cerca de 8 mil bósnios muçulmanos em Srebrenica, em julho de 1995. As vítimas haviam buscado refúgio em uma área que deveria estar sob proteção das Nações Unidas.
Mladic era o braço militar de um trio que marcou os conflitos da ex-Iugoslávia, ao lado do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic e do ex-líder dos sérvios da Bósnia Radovan Karadzic, durante o período em que a antiga Iugoslávia mergulhou em uma espiral de violência após a queda do comunismo.
A guerra da Bósnia deixou cerca de 100 mil mortos e provocou o deslocamento de 2,2 milhões de pessoas.