Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
A ameaça era alardeada, parecia questão de tempo, mas a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, com a retirada de Nicolás Maduro do poder, ainda está sendo digerida, com várias questões em aberto, a começar pelo futuro político do país, que faz fronteira com o Brasil.
"Os Estados Unidos estão concebendo a Venezuela como um protetorado, no qual poderão fazer o que quiserem com a riqueza venezuelana, notadamente o petróleo. Quem vai governar a Venezuela? Trump descartou Maria Corina e seus aliados e reforçou a vice-presidente, mas sob as diretrizes dos Estados Unidos. Ele diz que vai administrar o país, mas não há tropas militares dos Estados Unidos ocupando o território. Esse desenho pode estar na cabeça de Trump, de Marco Rubio e de seus assessores mais próximos, mas o fato é que nada parece simples assim", indaga Roberto Goulart Menezes, coordenador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Brasília.
Para o analista internacional, o passo inédito dado pelos Estados Unidos ao levarem adiante uma invasão na América do Sul gera apreensão sobre o que pode acontecer com outros países. "Donald Trump colocou os Estados Unidos como a polícia do mundo, gerando tensão em toda a região. Qual será o futuro do governo de Cuba? Qual será o futuro do governo da Nicarágua? Essa tensão vai se estender ao longo de 2026, porque temos eleições na Colômbia em maio deste ano, e Trump também mencionou a Colômbia em suas declarações. Será um assunto interno do Brasil também, que terá eleições em outubro."
Reações
A deposição de um ditador, porém realizada de uma forma claramente afrontosa ao direito internacional e com vistas a se apoderar da riqueza nacional de um povo, gerou reações e dividiu opiniões. Governadores de direita que sonham em ocupar a presidência no Brasil, como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, comemoraram o ato sem sopesar questões como a soberania nacional.
O governo Lula condenou e considerou gravíssimo o ataque, embora, em nota, não tenha citado nominalmente Donald Trump tampouco Maduro, e reconheceu o governo interino da vice-presidente Delcy Rodríguez.
"Na ausência do atual presidente Maduro, é a vice-presidente. Ela está como presidente interina", afirmou a ministra das Relações Exteriores substituta, Maria Laura da Rocha, ao responder a jornalistas depois de discutir o tema com integrantes do governo no Itamaraty. Uma reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, a Celac, está sendo organizada e pode acontecer ainda neste domingo. O Brasil também afirmou que vai condenar a invasão em reunião da ONU.
"O Brasil continua sendo a favor do direito internacional, que é a posição tradicional brasileira contra qualquer tipo de invasão territorial, a favor da soberania dos países, posição que será também apresentada na reunião do Conselho de Segurança, que está convocado para segunda-feira", afirmou Rocha.
Para o professor da UnB, das incertezas ao fato em si, há muito a ser esclarecido, inclusive como Maduro foi surpreendido pela tropa de elite do Exército norte-americano, pois não teria tido tempo de fechar a porta do bunker onde se escondia.
"Parece cinematográfica essa captura de Nicolás Maduro, mas tudo leva a crer que houve participação de parte da cúpula ou de alguns que se apresentavam como aliados incondicionais do então presidente. Parece que ele foi traído ou que houve algum tipo de negociação diante do que ocorreu, uma invasão em que os Estados Unidos entram, pegam o que querem e saem, sendo que a Venezuela estava em alerta máximo."